Gato com dificuldade para urinar: o que pode ser?

Sabe aquela cena em que você ouve o barulho de areia raspando, olha para a caixa sanitária e vê o seu gato fazendo aquela postura tensa, arqueada, por longos minutos, para no fim sair de lá com a cauda baixa e sem uma única gota de xixi? Se você já passou por isso, a preocupação aperta o peito na hora e com razão.
A dificuldade para urinar em felinos é um sinal claro de que algo vai muito mal no trato urinário deles e, para falar sem rodeios, isso é uma emergência médica que exige atendimento veterinário imediato. Deixar para ver se passa até o dia seguinte é um risco enorme que você não deve correr de jeito nenhum. Vamos entender o que está acontecendo por trás dessa força toda na caixa de areia.
O que está bloqueando ou machucando o seu gato?
Quando um gato sofre para urinar, os profissionais colocam o problema sob um nome técnico meio longo, mas que traduzindo para a nossa conversa significa que a bexiga ou o canal da ureta estão inflamados, machucados ou bloqueados de alguma forma.
As causas mais comuns envolvem a inflamação na bexiga gerada por estresse e fundo emocional, sem que haja uma bactéria ali combatendo. Outra causa bem frequente é a formação de pequenos cristais na urina que viram verdadeiras pedrinhas, chamadas de cálculos, ou até mesmo massas de muco e minerais que trancam a passagem da urina.
A grande questão é que os gatos carregam no DNA a herança dos seus ancestrais que viviam no deserto. Eles têm um limiar de sede muito baixo. Ou seja, o gato raramente sente aquela vontade desesperada de beber água que a gente sente depois de uma caminhada longa. Na natureza, eles obtinham boa parte da hidratação caçando presas.
Hoje, quando alimentados exclusivamente com ração seca, que tem pouca água na composição, eles vivem em um estado de desidratação leve e constante. A urina fica tão concentrada que os minerais começam a precipitar, formando os temidos cristais. É como tentar dissolver açúcar demais em um pouco de água fria. Uma hora, sobra resíduo no fundo do copo.
Por que os machos correm muito mais perigo?
Se você tem um gato macho em casa, o sinal de alerta precisa tocar mais alto ainda. A anatomia masculina dos felinos é implacável nesse ponto. A uretra do macho é longa, estreita e vai afunilando até chegar à ponta, contando ainda com estruturas anatômicas delicadas no caminho.
Quando um cristal ou um plugue de muco desce pela bexiga de uma fêmea, a uretra dela, que é mais curta e larga, costuma conseguir expulsar o material com mais facilidade. No macho, qualquer obstáculo desse tipo funciona exatamente como uma rolha em uma garrafa estreita.
O bloqueio uretral total impede que o gato elimine as toxinas do corpo. Sem conseguir fazer xixi, a bexiga incha de forma dolorosa, os rins deixam de filtrar o sangue e o potássio se acumula perigosamente no organismo. Isso pode causar arritmias cardíacas graves e levar o animal a óbito em um intervalo de poucas horas. Por isso, se ele está fazendo força e não sai nada, não espere o dia amanhecer.
Aquele xixi no tapete é pirraça ou dor?
Muita gente ainda repete por aí que o gato resolveu urinar no tapete da sala apenas para provocar ou como forma de protesto por alguma mudança na rotina. Pode esquecer essa história, pois felinos não funcionam à base de vingança ou pirraça doméstica.
O que se esconde por trás desse comportamento é algo bem mais incômodo para o animal. Quando a bexiga inflama ou o canal urinário machuca, o gato cria uma associação imediata entre a caixa de areia e a dor intensa que sente naquele momento. Na busca desesperada por algum alívio, ele acaba escolhendo superfícies lisas ou frescas, como o piso da cozinha ou o tapete da sala, imaginando que ali conseguirá se esvaziar sem sofrimento.
Nos bichanos que já acumulam alguns bons anos de vida, outro problema costuma surgir sem fazer alarde. A osteoartrite, que é o desgaste doloroso nas articulações, transforma qualquer movimento simples em um tormento. Imagine o esforço colossal que representa para um corpinho idoso e dolorido ter de saltar uma borda alta, agachar e manter a postura por minutos seguidos. Muitas vezes, ele deixa de usar o banheiro adequado simplesmente porque o trajeto e a posição exigem demais das juntas dele.
Como evitar que isso vire uma rotina de sofrimento?
Enquanto o socorro médico exige intervenção profissional na clínica, com exames detalhados e a desobstrução feita por sonda, você pode ajustar alguns detalhes simples no dia a dia da casa para blindar a saúde do seu companheiro.
A grande prioridade é negociar a hidratação dele de maneira inteligente. Se o seu gato é adepto exclusivo da ração seca, vale a pena incluir sachês e patês de boa qualidade na rotina alimentar. Esses alimentos agem como uma fonte generosa de água invisível, aumentando o volume de xixi e diluindo os minerais antes que eles decidam se transformar em cristais perigosos.
Vale a pena espalhar potes largos de cerâmica ou vidro pelos cômodos e até investir em uma fonte elétrica, já que o fascínio deles por água corrente costuma ajudar bastante na hora de beber mais líquido. Lembre-se de manter a água bem longe da comida e da caixa de areia, pois a natureza deles rejeita essas proximidades.
No que diz respeito ao banheiro do bichano, a regra prática pede sempre uma caixa a mais do que o total de gatos na residência. Mantenha a areia sempre limpa e, se o seu gato já demonstra sinais de idade avançada ou dificuldade de movimento, substitua o modelo por um com a entrada bem baixa, evitando qualquer acrobacia desnecessária.
Jamais tente resolver o problema com analgésicos humanos, remédios anti-inflamatórios ou chás milagrosos por conta própria. O organismo felino metaboliza substâncias de um jeito muito específico, e o que parece inofensivo para nós pode causar uma intoxicação gravíssima e fatal em minutos. Fique de olho nos mínimos detalhes do comportamento diário, já que os gatos escondem o sofrimento até o último segundo. Qualquer alteração na rotina de xixi, um miado fora do tom ou lambidas insistentes na região íntima indicam que passou da hora de buscar ajuda veterinária sem perder tempo.



