Gato com orelha com mau cheiro: o que pode ser?

Você vai fazer carinho no topo da cabeça do seu gato, bem naquele cantinho favorito logo atrás da orelha, e de repente sente um cheiro forte, azedo ou rançoso que definitivamente não deveria estar ali. É bem provável que você afaste a mão na mesma hora, faça uma careta e comece a se perguntar o que aconteceu com o bichano. O mau cheiro na orelha do gato é um sinal clássico de otite, que é uma inflamação ou infecção no canal auditivo.
Para entender por que isso acontece, o canal auditivo de um gato saudável funciona com um equilíbrio delicado de temperatura, umidade e uma pequena comunidade de micro-organismos que vivem ali sem causar problemas. Quando alguma coisa perturba esse equilíbrio, as coisas saem do controle rapidamente. Uma levedura chamada Malassezia, por exemplo, adora aproveitar esses momentos para se multiplicar de forma exagerada, gerando um cerúmen alterado que libera aquele cheiro fétido que chamou a sua atenção.
Mas a levedura isolada não é a única suspeita de sempre. Infecções bacterianas também dão as caras por lá, muitas vezes produzindo uma secreção purulenta e com um odor que lembra carne em decomposição. Existem ainda os ácaros auriculares, pequenos parasitas que irritam profundamente o canal do ouvido, provocando uma coceira desesperadora e deixando um rastro de cera escura, grossa e cheia de casquinhas.
Algumas características físicas dos gatos também entram na jogada. Gatos da raça Scottish Fold, famosos pelas orelhas dobradinhas para frente, enfrentam uma desvantagem anatômica importante. Como a cartilagem dobra a orelha para baixo, o canal auditivo ganha menos ventilação natural. Pense nisso como um quartinho fechado e sem janelas em um dia abafado de verão, onde o ar não circula e a umidade acaba acumulando. Esse cenário abafado vira um convite aberto para fungos e bactérias se instalarem.
Outro ponto que merece atenção acontece fora do canal auditivo, mas bem perto dele. Gatos que dão voltas na rua ou disputam território acabam correndo o risco de sofrer arranhões e mordidas que viram abscessos, ou mesmo desenvolver lesões de pele causadas por infecções como a esporotricose. Feridas abertas na região da orelha infeccionam com facilidade, liberando secreções malcheirosas que muitas vezes a gente confunde com um problema dentro do ouvido.
Como saber se o seu gato está com dor de ouvido?
Os felinos são especialistas em esconder que estão sentindo dor. Enquanto um cachorro costuma demonstrar o incômodo logo de cara, o gato tende a disfarçar até que o problema avance bastante. Ainda assim, alguns sinais revelam que o ouvido está incomodando.
Se o seu gato começou a balançar a cabeça com frequência, como se tentasse tirar uma água teimosa que entrou após o banho, fique atento. Outro sinal clássico é o hábito de coçar a orelha insistentemente com as patas traseiras, ou abaixar uma das orelhas quando você se aproxima para fazer carinho, adotando aquela postura defensiva.
Se você notar que o gato mia ou se afasta quando a sua mão chega perto da cabeça dele, desconfie. A dor de ouvido deixa a região extremamente sensível, e o que era para ser um momento de afeto vira motivo de irritação para o animal.
O que fazer e o que passar longe na hora do cuidado
A primeira tentação de muita gente ao notar cerúmen escuro ou cheiro forte é pegar uma haste flexível e tentar dar aquela limpadinha rápida por dentro. Diga a verdade, parece a solução mais lógica, mas na prática é uma das piores ideias possíveis.
O canal auditivo do gato tem o formato de um L. Quando você empurra um cotonete lá dentro, em vez de tirar a sujeira, acaba compactando a cera e empurrando as bactérias ainda mais para o fundo, correndo o sério risco de machucar ou até perfurar o tímpano do animal.
Receitas caseiras também entram na lista de proibições absolutas. Álcool, vinagre, água oxigenada ou chás aplicados na orelha do gato só conseguem irritar ainda mais a pele sensível, alterar o pH do canal auditivo e piorar o quadro de umidade que já estava ruim.
A única limpeza segura em casa é aquela feita exclusivamente no pavilhão externo, ou seja, na parte de fora que você consegue ver e alcançar com facilidade, usando apenas produtos veterinários próprios para isso, e mesmo assim se o veterinário já tiver dado o aval.
Quando a visita ao veterinário é inegociável
Diante de um cheiro forte ou de qualquer sinal de desconforto auricular, o correto é agendar uma consulta. O veterinário precisa examinar o interior da orelha com um aparelho chamado otoscópio e, muitas vezes, coletar uma amostra da secreção para analisar ao microscópio.
Esse exame simples é o que define se o problema é causado por fungos, bactérias ou ácaros. Saber o causador exato muda tudo no tratamento. Tratar o ouvido com um pingo de remédio genérico que você tinha em casa pode parecer uma solução rápida, mas costuma apenas mascarar o problema ou selecionar bactérias ainda mais resistentes.
Em casos mais avançados, quando a infecção é ignorada por muito tempo, ela pode romper o tímpano e avançar para o ouvido médio ou interno. Quando isso acontece, o gato pode perder o equilíbrio, começar a andar em círculos ou ficar com a cabeça permanentemente inclinada para um lado.
Outro risco real do coçar incessante é o aparecimento do otohematoma, que ocorre quando os vasinhos sanguíneos da orelha estouram com a força do chacoalhar, fazendo o pavilhão auricular inchar como um travesseirinho cheio de sangue.
O mau cheiro na orelha nunca é apenas um detalhe passageiro ou falta de banho. Prestar atenção nesses sinais sutis e buscar ajuda profissional logo no início poupa o seu gato de semanas de dor intensa e garante que ele volte a aproveitar os carinhos na cabeça sem nenhum incômodo.



