Gato com dificuldade para respirar: o que pode ser?

Sabe aquela cena em que você chega do trabalho, joga a bolsa no sofá e percebe que o gato está quietinho demais no canto do quarto, com a respiração um pouco esquisita? Na hora, a gente pensa que ele só cansou de correr atrás de uma mosca imaginária. Mas, se você notar que ele está com dificuldade para respirar, é uma só: trata-se de uma emergência médica de alto risco que exige ida imediata ao pronto-socorro veterinário.
Não adianta esperar para ver se passa com o tempo. Os gatos são mestres milenares na arte de disfarçar que estão mal. Na natureza, um predador que demonstra fraqueza vira alvo fácil. Por isso, quando o felino finalmente mostra que o ar está faltando, os mecanismos de defesa do corpo dele já falharam faz tempo. Para entender o tamanho do sufoco, pense que tentar respirar com líquido nos pulmões ou com as vias aéreas estreitadas é como um ser humano tentar puxar ar por um canudo plástico muito fino logo após correr uma maratona.
Como identificar o problema
A dificuldade para respirar não surge como uma doença isolada, mas como um sinal de que o organismo enfrenta um colapso. Ela costuma aparecer de três formas principais que todo tutor deveria conhecer para agir a tempo.
A primeira é a dispneia, que é aquele esforço visível e trabalhoso para puxar o ar. O gato parece usar a barriga inteira para respirar, contraindo os músculos com força a cada ciclo. A segunda é a taquipneia, caracterizada pelo aumento da frequência respiratória mesmo quando o animal está totalmente em repouso e sem ter feito nenhum esforço físico. A terceira é a ortopneia, uma postura de emergência bem característica. O gato fica com o pescoço esticado para a frente, os cotovelos virados para fora e se recusa terminantemente a deitar de lado, porque deitado o peito aperta mais.
Existe ainda um detalhe que diferencia drasticamente os gatos dos cachorros. Enquanto os cães costumam arfar de boca aberta para se refrescar nos dias quentes, a respiração de boca aberta em um gato é sempre um sinal gravíssimo de sofrimento extremo ou falta de oxigênio. Se a língua ou a gengiva estiverem com uma cor azulada ou arroxeada, o cenário é de socorro imediato.
O que pode estar causando a falta de ar?
Por trás desse sufoco, alguns suspeitos costumam aparecer com mais frequência na rotina do consultório. A investigação exige calma porque as origens do problema são variadas e passam por sistemas diferentes do corpo do animal.
O primeiro grande grupo envolve problemas no coração. A cardiomiopatia hipertrófica é a doença cardíaca mais comum nos felinos. O músculo do coração engrossa tanto que o sangue não consegue circular direito. Quando isso acontece, a pressão sobe e o líquido começa a vazar para dentro dos pulmões, o que chamamos de edema pulmonar, ou para fora deles, formando o derrame pleural. É como se o gato estivesse afogando no próprio líquido acumulado no peito.
E aqui vale um alerta importante contra um mito comum. Muita gente acha que, se o veterinário encostou o estetoscópio no tórax e não ouviu nenhum sopro, o coração do bichano está perfeito. Infelizmente, uma parcela considerável dos gatos com essa alteração cardíaca grave não apresenta sopro audível. Só um exame de imagem, como o ecocardiograma, consegue revelar a situação real do miocárdio.
Outro ponto que mexe com o sistema respiratório dos felinos são as infecções. A esporotricose, uma doença causada por fungo muito comum em gatos que passeiam na rua, começa muitas vezes com feridas feias no focinho e pode evoluir para o trato respiratório, causando espirros crônicos, secreção e até pneumonia fúngica. Doenças virais graves também podem encher o peito de líquido e comprimir os pulmões de forma implacável.
Sem esquecer das raças de focinho achatado, como Persa e Exótico. A anatomia dessas raças reduz o espaço para o ar passar pelas narinas e pela garganta, tornando-os muito mais sensíveis ao calor e ao estresse do dia a dia.
O que você pode fazer em casa
A melhor ferramenta que você tem para acompanhar a saúde respiratória do seu gato é simples e não custa nada. Trata-se de medir a frequência respiratória em repouso.
Aproveite aquele momento em que o gato está dormindo profundamente no tapete ou no sofá para transformar a checagem em um gesto rotineiro. Observe a barriguinha dele e conte quantas vezes ela sobe e desce durante um minuto inteiro. Uma respiração tranquila costuma ficar entre vinte e trinta movimentos por minuto. Se o número subir para a faixa entre trinta e quarenta, vale a pena marcar uma consulta sem pressa desnecessária. Mas, se ultrapassar quarenta movimentos por minuto com o gato em descanso, ou se ele estiver respirando pela boca, pegue a caixa de transporte e corra para o veterinário.
Nesse momento de aflição, evite a tentação de dar remédios humanos, xaropes ou tentar fazer inalações caseiras. Analgésicos e descongestionantes comuns são altamente tóxicos para o organismo felino. Além disso, o estresse de tentar conter um gato que já está sem ar pode piorar tudo rapidamente.
Se o seu gato tem acesso à rua e apresenta feridas no focinho junto com a falta de ar, lembre-se de usar luvas ao manipulá-lo e evite o contato direto com secreções até que o profissional dê um diagnóstico seguro, já que certas infecções podem passar para humanos.
Cuidar da respiração de um felino é uma questão de observar os pequenos detalhes antes que o silêncio se transforme em susto. Ao notar qualquer mudança no ritmo em que o peito dele se mexe, confie no seu instinto e busque ajuda sem demora.



