Gato com engasgo: o que pode ser?

Imagine a cena: você está na cozinha preparando o jantar, corta um pedaço de frango, e o seu gato resolve dar aquela olhada rápida na bancada. Minutos depois, ele começa a fazer um barulho estranho, estica o pescoço para a frente, abre a boca e sacode a cabeça como se estivesse tentando cuspir algo que insiste em não sair. A primeira reação costuma ser pensar que ele se engasgou com um pedaço de comida ou com uma bola de pelo. Mas será que é isso mesmo?
A queixa de engasgo em felinos quase sempre esconde realidades bem diferentes do que o tutor imagina. O que parece um simples engasgo pode ser desde um corpo estranho na garganta até uma crise cardíaca grave. E é exatamente por isso que ignorar o episódio ou tentar resolver na base do palpite costuma dar errado.
O que realmente está acontecendo na garganta do gato?
Quando um gato apresenta sinais que parecem um engasgo, o problema pode pertencer a categorias totalmente distintas. A primeira delas envolve obstruções físicas reais. Ingerir fragmentos de ossos, especialmente de frango cozido, é um perigo silencioso. O cozimento altera a estrutura do osso, fazendo com que ele se quebre em lascas extremamente afiadas que se cravam na faringe ou no esôfago.
Outro clássico causador de incômodo na garganta são as famosas bolas de pelo, conhecidas tecnicamente como tricobezoares. Conforme o gato se limpa todos os dias, ele engole muita pelagem. Quando esse material se acumula, o reflexo de eliminação gera ânsias e tosses que parecem um engasgo feio.
A cavidade oral também prega peças. Problemas inflamatórios graves na boca geram feridas dolorosas que impedem o gato de engolir a própria saliva com conforto. Ele produz muita baba e faz movimentos estranhos com a mandíbula durante a refeição, simulando um engasgo que, na verdade, é dor pura ao mastigar.
Quando o engasgo é, na verdade, um problema no coração?
Existe uma confusão muito comum e perigosa que acontece nos lares. O gato estica o pescoço, projeta a cabeça e tosse ritmicamente. O tutor jura que tem algo preso na garganta. Só que, muitas vezes, o que está acontecendo é uma crise respiratória provocada por uma doença cardíaca chamada cardiomiopatia hipertrófica.
Essa condição faz com que o músculo do coração fique espessado, dificultando o trabalho de bombeamento. Com o tempo, o sangue começa a se acumular nos vasos dos pulmões, gerando um edema, ou seja, líquido onde deveria existir apenas ar. Para tentar respirar melhor com os pulmões cheios de líquido, o gato adota aquela postura de pescoço esticado. Ele não está tentando desengasgar nada. Ele está lutando por ar.
Algumas raças têm uma predisposição genética maior para desenvolver problemas cardíacos, como o Maine Coon, o Ragdoll, o Persa e o British Shorthair. Nesses animais, um episódio que pareça uma tosse persistente ou um engasgo sem motivo aparente exige investigação do coração com urgência.
Qual é a diferença entre engasgo, tosse, vômito e regurgitação?
Para conversar de igual para igual com o veterinário, vale a pena entender o que cada termo significa na prática.
O engasgo verdadeiro é um bloqueio mecânico da passagem de ar ou alimento. A tosse é aquela ação reflexa para limpar as vias aéreas inferiores, geralmente acompanhada daquele estiramento de pescoço que confunde tanta gente. O vômito é um processo ativo, que envolve contração da barriga, náusea e eliminação de conteúdo estomacal digerido ou parcialmente digerido. A regurgitação, por sua vez, acontece sem esforço abdominal, quando o alimento volta do esôfago de forma passiva logo após ser engolido.
O que você nunca deve fazer em casa
Se o seu gato estiver passando por um episódio de aflição respiratória ou parecendo engasgado, existem regras de ouro sobre o que não fazer de jeito nenhum.
Jamais coloque os dedos ou as mãos na boca do gato para tentar puxar um objeto às cegas. Fazer isso sem ver o que está acontecendo pode empurrar a obstrução ainda mais para o fundo, rasgar os tecidos da garganta ou resultar em uma mordida feroz, já que o animal estará assustado e sentindo dor.
Também não tente introduzir pinças, utensílios ou administrar líquidos como água, azeite ou leite para fazer o suposto objeto descer. Tentar dar qualquer líquido nessa hora é o caminho mais curto para provocar uma broncoaspiração, que é quando o líquido vai direto para os pulmões e piora drasticamente a situação.
Esqueça a ideia de dar leite bovino achando que vai aliviar a garganta. A grande maioria dos gatos adultos tem intolerância à lactose, o que só vai garantir uma boa dose de diarreia e dor abdominal para somar ao problema principal.
Quando a respiração vira um sinal vermelho
Existe um detalhe biológico fundamental que diferencia os gatos dos cães: os felinos são respiradores nasais obrigatórios. Isso significa que eles respiram principalmente pelo nariz. Se você vir um gato respirando de boca aberta, esqueça a ideia de que ele está apenas cansado ou com calor.
Gato respirando de boca aberta é emergência médica imediata.
Outros sinais que exigem uma corrida sem demora para um pronto-socorro veterinário incluem gengivas ou língua com tom azulado ou roxo, frequência respiratória muito acelerada em repouso, baba excessiva acompanhada de sangue, incapacidade total de engolir a própria saliva e prostração severa ou desmaio.
Se o seu gato apresentar qualquer um desses sintomas ou se o suposto engasgo persistir, mantenha o ambiente o mais calmo possível, coloque-o com cuidado na caixa de transporte e procure atendimento profissional. Apenas um veterinário, com exames adequados, poderá dizer se o que parecia um fio de cabelo ou um pedaço de osso na garganta era, na verdade, o coração pedindo socorro.



