Cachorro com orelha com mau cheiro: o que pode ser?

Você está sentado no sofá, fazendo aquele carinho clássico atrás da cabeça do seu cachorro, quando de repente sente um cheiro forte, meio rançoso, subindo do cangote dele. Você chega mais perto, cheira a orelha e tem certeza: aquele odor de chulé ou de roupa guardada úmida está saindo direto dali de dentro. O mau cheiro na orelha de um cão é o sinal clínico primário de otite externa, que é a inflamação do canal auditivo. A grande questão é que essa inflamação raramente surge do nada. Na maioria das vezes, o cheiro ruim funciona como a ponta de um iceberg. Lá no fundo, o verdadeiro causador costuma ser um processo alérgico, como a dermatite atópica ou uma alergia alimentar, que desequilibra a pele do animal inteiro e abre espaço para a proliferação exagerada de fungos e bactérias. Vamos conversar sobre o que está acontecendo dentro desse ouvido e por que aquele cheirinho esquisito merece a sua atenção antes de virar um problemão.
O que acontece lá dentro da orelha do cachorro?
Para entender o cheiro, vale olhar para a anatomia do bicho. O conduto auditivo do cachorro tem o formato de um L. É um túnel longo, fechado e naturalmente mais quente que o resto do corpo. Em condições normais, existe uma harmonia perfeita entre a pele da orelha e a microflora de bactérias e leveduras que vivem ali sem causar estragos. O problema começa quando a barreira de proteção da pele sofre alguma perturbação. Se o cão tem predisposição a alergias, seja ao pólen da grama, à poeira de casa ou a algum ingrediente da ração, o organismo dele reage inflamando a pele. Essa inflamação interna gera calor, vermelhidão e um aumento na produção de cerume e umidade. De repente, aquele túnel escuro e quentinho ganha umidade em excesso e acúmulo de nutrientes. É o cenário perfeito para fungos e bactérias se multiplicarem sem controle. Conforme esses micro-organismos degradam a cera e o tecido da pele, eles liberam substâncias voláteis que produzem o odor fétido. Em muitos casos, o ouvido inflamado e fedido é o primeiro e único sinal visível de que o cachorro está sofrendo com uma alergia sistêmica, muito antes de começar a se coçar pelo corpo. Além disso, a presença de parasitas ou pequenos corpos estranhos na região também costuma alterar o ambiente e desencadear o mesmo tipo de incômodo.
O mito do vira-lata imune e as raças mais sensíveis
Existe uma crença popular bastante arraigada de que o cachorro sem raça definida possui uma saúde de ferro e jamais adoece. Nos consultórios, no entanto, a história costuma ser outra. Cães sem raça definida enfrentam otites crônicas e alergias cutâneas com a mesma frequência que qualquer animal de linhagem pura. Esse mito da imunidade de aço faz com que muitos tutores demorem a buscar orientação profissional, acreditando que o odor fétido vai sumir sozinho ou que basta uma limpeza um pouco mais caprichada. Em contrapartida, certas raças trazem mesmo uma carga genética que favorece o problema. Entram nessa lista cães como o Shih Tzu, o Lhasa Apso, o Labrador Retriever, o Golden Retriever, o Buldogue Francês e o American Bully. Esses bichos apresentam uma fragilidade na pele maior, o que traduz-se em ouvidos e revestimento cutâneo reagindo depressa a qualquer alérgeno do ar ou da ração. Essa tendência pode dar as caras em qualquer idade, pedindo vigilância redobrada do dono independentemente de onde veio o animal.
Quando o mau cheiro exige consulta imediata
Tentar solucionar o incômodo apenas pingando água ou enchendo o ouvido do bicho com hastes de algodão é um erro clássico que só estraga as coisas. Os cotonetes empurram a sujeira infectada ainda mais para o fundo do tubo e podem até perfurar o tímpano do cão. Da mesma forma, misturinhas caseiras com vinagre, óleos diversos ou sobras de remédios do cachorro do vizinho trazem riscos reais. Elas podem provocar irritação braba, queimar a pele delicada do canal auditivo e esconder sintomas que o veterinário precisa ver. ConVém observar alguns indícios de que o quadro passou da conta e virou uma emergência para o veterinário. O cão chora ou rosna quando alguém chega perto da cabeça ou da base da orelha dele. Ele sacode a cabeça sem parar ou esfrega o focinho e a lateral do rosto no carpete com força. Aparece também secreção amarelada, esverdeada ou com fios de sangue saindo do conduto. O cachorro caminha torto, perde a firmeza nas patas ou fica com a cabeça tombada para um dos lados o tempo todo. Esse último sintoma exige atenção imediata. Quando a infecção sai do canal externo e invade áreas mais profundas, ela mexe com o sistema que controla a orientação e o equilíbrio do pet.
O que fazer para resolver de vez?
O único jeito seguro de eliminar o cheiro ruim é descobrir a raiz do desequilíbrio na orelha. Apenas o veterinário dispõe dos instrumentos certos, como o aparelho com luz para examinar o fundo do túnel auditivo e a análise ao microscópio para confirmar se o causador é um fungo, uma bactéria ou um ácaro. A terapia passa por higienizar o conduto da maneira correta com loções próprias recomendadas pelo profissional, além de tratar a inflamação com os remédios adequados para o caso. Caso o exame aponte uma alergia como culpada principal, o veterinário orientará sobre como ajustar o ambiente ou trocar a comida do peludo. Cuidar de um ouvido inflamado pede dedicação, mas ver o cão relaxar, parar de chacoalhar a cabeça e voltar a deitar no seu pé mostra que valeu a pena cada gota de remédio.



