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Cachorro com otite: o que pode ser?

Resposta rápida

Na imensa maioria das vezes, a otite em um cachorro não é uma doença isolada, mas sim o sintoma visível de um problema dermatológico primário como uma alergia alimentar ou dermatite atópica. Bactérias e fungos aproveitam que a pele da região já está inflamada para se multiplicar, gerando coceira, cheiro forte e secreção.

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Cachorro com otite: o que pode ser?

SaúdePor 🕒 8 min de leitura
Ilustração de cachorro

Você está sossegado na sala assistindo a um filme e, de repente, o seu cachorro acorda assustado. Ele se levanta, chacoalha a cabeça com força (fazendo aquele barulho inconfundível de orelhas batendo estalado contra a cabeça) e começa a coçar o ouvido com a pata traseira em um ritmo quase obsessivo. Logo depois, ele deita no chão, apoia a lateral do rosto no tapete e sai se arrastando para tentar aliviar a coceira. Quando você chega perto para entender o drama, percebe a parte interna da orelha bem vermelha e sente um cheiro forte, meio azedo, vindo dali.

Se você quer saber direto ao ponto o que pode ser esse quadro, a resposta é simples: na imensa maioria das vezes, a otite não é uma doença isolada que surgiu do nada por pura falta de sorte. Ela é o sintoma visível de um problema dermatológico primário, quase sempre uma alergia alimentar ou a chamada dermatite atópica. O acúmulo de bactérias e fungos que gera o cheiro ruim e a secreção escura entra em cena depois, aproveitando que a pele daquela região já estava inflamada e fragilizada.

Para entender por que isso acontece e como livrar seu companheiro desse ciclo chato de idas e vindas ao veterinário, vale a pena olhar com mais cuidado para o que realmente se passa no canal auditivo do animal.

Por que o ouvido do cachorro vira uma estufa?

Diferente do nosso canal auditivo, que é praticamente reto, o ouvido dos cães faz uma curva em formato de L. Essa anatomia curva é ótima para proteger o tímpano contra objetos estranhos, mas é perfeita para acumular umidade, cerume e calor. Quando o cachorro desenvolve uma reação de hipersensibilidade (seja a poeira, ácaros, pólen ou a algum ingrediente específico da ração), a pele do corpo todo reage. Como o revestimento interno do ouvido é uma extensão dessa mesma pele, ele incha, fica vermelho e passa a produzir gordura e cerume de forma descontrolada.

A partir desse momento, o canal auditivo do cão se transforma em uma verdadeira estufa abafada e úmida. O equilíbrio dos micro-organismos que habitam a região se rompe. Bactérias e leveduras (fungos) que já viviam ali pacificamente em quantidades minúsculas começam a se multiplicar sem freio. É essa proliferação secundária que produz a secreção amarelada ou escura, o odor forte e a dor contínua.

Muitos tutores acreditam que a otite acontece apenas porque entrou água no banho ou porque o cão passeou na rua em um dia chuvoso. A água pode até dar um empurrãozinho ao abafar o local, mas se o ouvido inflamou para valer, existe quase sempre uma causa alérgica ou parasitária por trás abrindo as portas para a infecção.

A alergia que só aparece na orelha e o mito do vira-lata

Como meu pet pode estar com otite por causa de alergia se ele não passa o dia coçando a barriga ou mordendo as patas? A explicação pode surpreender: em até 15% dos cães que sofrem de dermatite atópica, a inflamação recorrente nos ouvidos é o único sinal visível da doença. A pele do resto do corpo pode parecer impecável, sem uma única ferida ou vermelhidão, enquanto o canal auditivo enfrenta crises diárias.

É por isso que tratar apenas a infecção com pomadas e gotas sem investigar a causa alérgica é o mesmo que apagar o alarme de incêndio sem apagar o fogo. O remédio elimina as bactérias temporariamente, mas assim que o tratamento acaba, o ambiente continua inflamado e os fungos voltam a se multiplicar em poucos dias.

Existe também a ideia bastante difundida de que cães sem raça definida, os populares vira-latas, seriam imunes a esse tipo de complicação. Isso não passa de um equívoco que adia diagnósticos e faz o animal sofrer sem necessidade. Cães sem raça definida apresentam otite crônica e dermatite atópica exatamente na mesma proporção que cães de raça pura. A genética da alergia não escolhe pedigree.

Por outro lado, algumas raças puras carregam uma tendência hereditária marcante para problemas dermatológicos:

  • American Bully: possui alta vulnerabilidade de pele, desenvolvendo com frequência alergias alimentares e de contato que se manifestam como otites recorrentes.
  • Shih-tzu, Labrador Retriever, Golden Retriever e Buldogue Francês: raças com grande histórico de dermatite atópica, apresentando vermelhidão na pele, coceira intensa e infecções de ouvido frequentes.

Em relação à idade, os primeiros episódios de otite alérgica costumam aparecer entre os 6 meses e os 3 anos de vida. Se o problema surge em filhotes muito novos, a presença de parassitas externos, como o ácaro de orelha, precisa ser investigada. Já em cães idosos, crises frequentes apontam para uma dermatite crônica que nunca foi adequadamente controlada no passado.

Cotonetes, receitas caseiras e riscos para a audição

Quando o cão começa a sofrer com aquele incômodo pontudo, o impulso imediato de muita gente é correr para o armário do banheiro e tentar limpar a orelha com o que estiver mais fácil. Compreendo a boa intenção, mas é aí que a coisa costuma desandar de verdade.

O primeiro tropeço clássico é apelar para o cotonete. Como o canal do ouvido do cachorro faz um trajeto em formato de L, a haste flexível simplesmente não tem como alcançar e retirar a sujeira lá do fundo. O que acontece na prática é o oposto do esperado: você empurra todo aquele cerume e a secreção viscosa contra a membrana do tímpano, prensando a sujeira e arriscando até rasgar uma estrutura que é extremamente sensível.

O segundo equívoco, e esse consegue ser ainda mais perigoso, é pingar invenções caseiras como vinagre, óleos diversos ou usar restinhos de pomada que sobraram do cachorro do seu vizinho. Se a inflamação já tiver rompido o tímpano (algo impossível de saber a olho nu sem os aparelhos do consultório), qualquer pingo de líquido cai direto nas estruturas profundas do ouvido médio e interno. O pacote do estrago inclui dor insuportável, envenenamento dos tecidos e a perda irreversível da audição.

Existe ainda uma particularidade genética que pouca gente conhece: a mutação no gene MDR1, bem comum em raças como Collie, Border Collie e inclusive em vários cães sem raça definida. Pets com essa característica possuem uma fragilidade enorme a determinadas substâncias químicas de remédios e antiparasitários. Se você aplica uma medicação por conta própria nesses animais, o risco de provocá-los reações neurológicas graves é altíssimo.

Quando a otite vira uma emergência médica

A otite externa atinge só aquela parte inicial e mais visível da orelha. A encrenca de verdade começa quando o quadro é negligenciado e a inflamação avança para o ouvido médio e interno, onde a situação fica bem mais grave. Vale prestar atenção dobrada se surgirem estes sinais:

  • Cabeça torta e inclinada de forma fixa para um dos lados.
  • Perda clara de equilíbrio, como se o animal estivesse tonto, cambaleando ou confuso.
  • Gemidos, choros ou ganidos de dor ao simples toque no topo da cabeça ou ao redor do ouvido.
  • Um inchaço enorme e fofinho na orelha, parecido com uma bolsa cheia de sangue (o chamado otohematoma), de tanto o cachorro sacudir a cabeça sem parar.
  • Saída de pus grosso ou sangue pelo canal auditivo, combinada com um estado de desânimo e apatia profunda.

Diante de qualquer um desses quadros, não existe margem para dúvida ou espera: o caso deixa de ser um acompanhamento simples e vira uma emergência clínica que pede socorro profissional sem demora.

O caminho correto para resolver o problema de vez

Se você quer resolver o incômodo sem arriscar a saúde do pet, o veterinário costuma fazer dois procedimentos bem diretos na própria mesa do consultório. O primeiro deles é a otoscopia, aquele exame em que o profissional usa um aparelho com luz para olhar fundo na orelha, conferir se o tímpano continua inteiro e ver se não há nenhum corpo estranho preso por ali. O segundo é a citologia, onde ele recolhe uma gotinha da sujeira para examinar no microscópio e descobrir se quem está fazendo festa ali são bactérias, fungos ou os dois juntos.

Uma excelente notícia recente é que já existem tratamentos de dose única aplicados direto na clínica. O veterinário insere um produto de ação prolongada no canal auditivo do cão e pronto: você se livra daquela saga diária e desgastante de pingar gotas em casa, algo que costuma ser bastante estressante para um cachorro que já está arisco e sensível.

Além de acabar com os fungos e bactérias do momento, o acompanhamento de verdade pede ajustes bem práticos na rotina do pet:

  1. Higienização adequada: use unicamente limpadores otológicos próprios para cães, recomendados pelo profissional, pois eles dissolvem o cerume denso sem agredir o tecido do ouvido.
  2. Proteção durante o banho: tampe as orelhas com chumaços de algodão seco antes de ligar a água para evitar infiltrações e retire tudo assim que desligar o chuveiro.
  3. Controle de parasitas: deixe o combate contra pulgas, carrapatos e ácaros sempre em dia, tanto na pele do animal quanto nos espaços da casa.
  4. Investigação da alergia: faça o acompanhamento com um veterinário especializado em dermatologia para testar dietas de exclusão ou mapear os gatilhos do ambiente, cortando o mal pela raiz.

Olhar para a orelha do seu cão é, na prática, prestar atenção na pele dele como um todo. Quando você percebe que aquela secreção é apenas a ponta de um problema dermatológico maior, fica muito mais fácil economizar tempo, poupar dinheiro com remédios que não resolvem nada a longo prazo e devolver a tranquilidade ao seu amigo. Se o incômodo der as caras, feche as abas de receitas milagrosas na internet e busque quem entende do assunto no consultório.

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