Tartaruga não bebe água: o que pode ser?

Você chega com a salada fresca, coloca no comedouro do jabuti e percebe, horas depois, que a água do pratinho continua intacta. Nenhuma marca de bico, nenhum respingo, nada. A primeira reação costuma ser o susto. Será que o bicho esqueceu como se hidrata?
A sua tartaruga, cágado ou jabuti provavelmente está bebendo água sim, só que de um jeito que você não está vendo.
A ideia de que esses animais ignoram a sede costuma surgir porque esperamos vê-los com a cabeça enfiada em uma tigela como fazem os cachorros e os gatos. Com os quelônios, a dinâmica é bem diferente. Grande parte da umidade que eles precisam vem dos vegetais frescos que comem, da absorção pela pele e pela cloaca durante os banhos ou, no caso das espécies aquáticas, de goles contínuos que acontecem embaixo d'água, longe dos seus olhos.
Para entender o que está acontecendo no seu caso, vale a pena olhar para o grupo do seu animal. Tartarugas marinhas e de água doce, cágados e jabutis terrestres vivem em mundos biológicos distintos.
A diferença que muda tudo: água ou terra?
Quem tem uma tartaruga tigre d'água em casa raramente vai flagrar o animal bebendo. Como elas vivem imersas, a ingestão hídrica ocorre de forma contínua e natural enquanto nadam ou abocanham o alimento dentro do aquaterrário. Para o tutor, parece que o bicho passa o dia inteiro sem ingerir uma gota, mas o animal está literalmente dentro do copo d'água o tempo todo.
Com os jabutis, o cenário muda bastante. Por serem animais terrestres, eles dependem de vegetais folhosos ricos em umidade, de bebedouros rasos onde conseguem apenas apoiar as patas e de banhos de imersão.
Existe um mito persistente de que o jabuti absorve água pelo casco. Isso não passa de invenção. O casco é uma estrutura óssea e queratinizada, totalmente impermeável. O que acontece de verdade é que, quando você coloca o jabuti em um banho morno e raso, ele funciona quase como uma esponja inteligente. A água é absorvida pela pele fina das dobras dos membros e pela mucosa da cloaca, um mecanismo evolutivo engenhoso que ajuda a manter o bicho hidratado.
O disjuntor térmico: quando o frio desliga a sede
Se o seu pet parou de beber e de comer de repente, olhe primeiro para o termômetro.
Os répteis funcionam de um jeito bem diferente de nós. Eles não geram calor por conta própria e dependem do ambiente para manter o motor do corpo funcionando. Quando o terrário esfria demais, o organismo entra em modo de economia de energia. A digestão desacelera, a fome desaparece e a vontade de beber água vai embora junto, só para o bicho não gastar o pouco de energia que lhe resta.
Em casa, isso costuma acontecer naqueles dias em que a temperatura cai de surpresa. Mas deixar o animal no frio sem o suporte correto é um risco enorme. Se o bicho fica molinho e letárgico com comida parada no estômago, o alimento pode começar a estragar lá dentro, causando um estrago grave. Para prevenir esse tipo de susto, use lâmpadas de aquecimento para os jabutis e mantenha o aquecedor da água regulado na casa dos vinte e oito graus para os bichos aquáticos.
Quando a recusa de água é sinal de alerta
Nem toda falta de sede é culpa do clima. Algumas doenças bem comuns em animais mantidos em casa tiram completamente a capacidade ou o interesse deles em se hidratar.
A falta de vitamina A na dieta, por exemplo, costuma causar um inchaço feio nas pálpebras. Com os olhos fechados ou grudados por secreção, o réptil fica praticamente cego e simplesmente não acha o caminho do bebedouro ou da comida.
Outro problema sério são as infecções respiratórias, como a pneumonia. Um bicho com o pulmão inflamado fica prostrado, perde o equilíbrio na água, passa a respirar com a boca aberta e para de fazer qualquer coisa, o que inclui buscar hidratação.
A falta de água por muito tempo também cobra caro. Sem umidade e comendo errado, o intestino trava, formando massas duras que bloqueiam a digestão, sem contar o risco de pedras na bexiga e falhas nos rins.
O que fazer no dia a dia
Manter o seu companheiro bem hidratado exige apenas alguns cuidados simples na rotina doméstica.
Para os jabutis, vale a pena dar banhos mornos em uma bacia com uma lâmina de água que molhe apenas a barriga do bicho, por uns quinze minutos, algumas vezes por semana. Isso hidrata de verdade e ainda ajuda a soltar o intestino. Na hora da comida, aposte em folhas escuras e bem frescas.
Se o seu pet vive na água, lembre-se de que a torneira da pia entrega um líquido cheio de cloro, que irrita os olhos e a pele sensível deles. Use sempre um produto próprio para neutralizar o cloro ou deixe a água descansando em um balde por um dia inteiro antes de colocar no aquaterrário.
Se o bicho parecer muito murcho, com os olhos fundos, respirando com chiado, soltando catarro pelo nariz ou com qualquer mancha estranha no casco, não espere o problema sumir por milagre. Leve o animal a um veterinário especializado em bichos silvestres para receber o atendimento adequado.




