Tartaruga range os dentes: o que pode ser?

Você chega perto do aquaterrário para trocar a água do seu tigre dágua e nota um som esquisito, um atrito seco que lembra vagamente alguém estalando os dentes ou roendo alguma coisa dura. Logo vem a dúvida na cabeça: será que a tartaruga tem dentes e está com dor de dente.
As tartarugas simplesmente não possuem dentes. Se você ouvir um som parecido com um ranger na boca do seu pet, o barulho não vem de arcadas dentárias, mas sim do atrito do bico córneo, de problemas respiratórios ou de um incômodo na cavidade oral.
Para entender o que está acontecendo de verdade, vale olhar para a anatomia desses animais. Os quelônios, grupo que reúne tartarugas, cágados e jabutis, têm o que a ciência chama de ausência total de dentes. Eles não guardam nenhuma pecinha de dente na boca. No lugar disso, a parte superior e a inferior da boca são cobertas por uma bainha rígida de queratina chamada bico córneo. É essa estrutura que corta folhas, vegetais e pedaços de alimento antes de o bicho engolir tudo sem mastigar de verdade.
Então, de onde vem esse barulho esquisito.
O bico desalinhado e o atrito na mandíbula
Pense nesse bico como uma unha forte ou um bico de ave que cresce de forma contínua ao longo da vida. Se a mandíbula entortar ou perder o alinhamento correto, as duas partes do bico começam a se chocar de um jeito errado toda vez que o animal tenta fechar a boca ou comer.
Esse desalinhamento costuma ter uma raiz mais profunda ligada à saúde óssea. Quando falta cálcio, fósforo ou exposição adequada à luz solar e raios ultravioleta, o esqueleto do animal enfraquece. O osso da mandíbula perde densidade, a estrutura fica amolecida e a mordida se desorganiza completamente. É o famoso quadro em que o bico sofre tanto com a falta de nutrientes que o fechamento da boca vira um verdadeiro quebra-cabeça mecânico, gerando aquele atrito ruidoso.
O chiado que parece ranger de dentes
Nem sempre o som tem origem no bico. Em várias situações, aquele barulho que assusta o tutor na sala é, na verdade, um sinal de que o sistema respiratório não vai bem.
Os bichos que vivem na água sofrem muito quando o ambiente sofre com correntes de ar ou oscilações bruscas. Se o aquário fica gelado porque o termostato desligou ou falhou, as defesas do corpo caem rapidamente e abrem a porta para infecções respiratórias chatas, como resfriados ou quadros pulmonares graves.
Nessas horas, as vias aéreas acabam entupidas por secreções. Como os répteis precisam usar o nariz para respirar enquanto mantêm a boca fechada, os pulmões cheios de líquido forçam o animal a abrir a boca em busca de ar. O oxigênio passando por tecidos inflamados cria chiados e estalidos que enganam o ouvido, parecendo dentes rangendo. É um processo bem parecido com o nosso próprio esforço para respirar quando a gripe ataca e o nariz trava de vez.
O que mais pode estar causando o incômodo
A cavidade oral também sofre com problemas próprios, como infecções na mucosa que causam dor forte. Quando bactérias invadem pequenos machucados, criam-se placas grossas que incomodam demais. Tentando se livrar da dor ou do excesso de saliva, o bicho mexe a mandíbula sem parar, gerando aquele atrito involuntário no bico córneo.
Vale a pena mencionar também os filhotes que acabaram de sair do ovo. Se você reparar numa pequena pontinha dura na frente do bico de um recém-nascido, esqueça a ideia de dente de leite. Trata-se de uma ferramenta temporária de corte que ajudou na eclosão e some por conta própria logo nas primeiras semanas de vida.
Como avaliar a situação em casa
Antes de qualquer atitude precipitada, olhe o comportamento geral com calma, sem tentar abrir a boca do animal à força para investigar. Isso só serve para aumentar o estresse e piorar a dor se houver algum machucado.
Preste atenção se a respiração segue limpa ou se aparecem bolhas estranhas perto das narinas. Veja se o bico está torto, crescido demais, e teste delicadamente a firmeza do casco. Se for um cágado ou tartaruga dágua, confira se a água está aquecida e se a área seca recebe luz adequada.
Qualquer sinal de dificuldade para respirar, placas amareladas dentro da boca ou partes moles no casco e na mandíbula indica um problema sério que pede ajuda profissional sem demora. Nessas horas, a única escolha sensata é procurar um veterinário com experiência em animais silvestres ou exóticos. Fique longe de receitas caseiras ou remédios humanos, já que um erro na tentativa de ajudar pode custar caro para a saúde do seu pet.




