Problemas de saúde comuns no Boiadeiro de Berna

Imagine a cena: você acabou de adotar um filhote de Boiadeiro de Berna, aquela bolota tricolor que parece um ursinho de pelúcia com patas, e alguém no parque solta a frase clássica: "raça linda, mas cheia de problema de saúde, né?". Pronto, lá se vai a sua paz. A verdade é menos dramática e bem mais útil do que isso. O Bernês tem sim uma lista de predisposições que merecem atenção, ligadas ao porte grande, aos ossos pesados e ao peito profundo dele. Saber quais são, e o que fazer com essa informação, muda completamente o jogo.
Vamos direto ao ponto: os problemas mais comuns da raça se concentram em quatro frentes. Articulações, olhos, estômago e uma tendência maior a certos tipos de tumor. Nada disso é sentença de que o seu cão vai adoecer, mas tudo isso pede um tutor informado e um veterinário por perto.
Articulações: o preço de ser um atleta de osso pesado
Pense no Boiadeiro de Berna como um halterofilista. Ele foi selecionado nas montanhas suíças para puxar carroças e conduzir gado, então carrega uma estrutura óssea pesada e muita massa muscular. O problema é que cada quilo a mais e cada impacto mal administrado caem direto em cima das articulações.
As condições mais associadas à raça são a displasia coxofemoral (quando o encaixe entre o fêmur e a bacia não se forma direito), a displasia de cotovelo e a ruptura do ligamento cruzado, aquele que estabiliza o joelho. Na prática, o que você observa em casa é um cão que começa a mancar, demora para levantar depois de uma soneca, fica rígido ao acordar ou passa a evitar o sofá que antes pulava sem pensar duas vezes.
Aqui entra um ponto que muita gente ignora: peso é o fator que você controla. Manter o Bernês em condição corporal ideal, com cintura visível por cima e costelas que se sentem sem apertar, alivia a carga mecânica sobre quadris e cotovelos todos os dias. Um cão grande e gordo é basicamente uma mochila pesada que ele nunca tira das costas.
Torção gástrica: a emergência que não espera
Se existe um assunto em que não dá para enrolar, é a Síndrome da Dilatação-Torção Gástrica, conhecida como GDV ou torção de estômago. O peito do Bernês é profundo e espaçoso, o que cria uma cavidade onde o estômago, cheio de comida ou gás, pode literalmente virar sobre o próprio eixo. Quando isso acontece, os vasos sanguíneos são comprimidos e o tecido começa a sofrer em pouco tempo.
Os sinais de emergência são claros e exigem corrida imediata ao veterinário, não uma espera para ver se passa:
- Tentativas de vomitar sem sair nada, aquela ânsia seca e repetida.
- Barriga visivelmente estufada e rígida.
- Inquietação intensa, salivação excessiva, respiração acelerada.
- Prostração ou colapso.
Tentar resolver isso em casa com chazinho ou remédio de prateleira é o tipo de erro que custa vidas. É emergência cirúrgica, ponto.
A prevenção, felizmente, é simples. Divida a ração diária em pelo menos duas refeições em vez de um banquete único, evite exercício intenso logo antes ou depois de comer e de beber muita água, e observe se o cão engole a comida rápido demais. Comedouros que forçam o animal a comer mais devagar podem ajudar nesse último caso.
Olhos: o olhar doce que pode esconder incômodo
Os olhos castanho-escuros do Bernês são parte do charme, mas a raça tem predisposição a alguns problemas oculares que merecem atenção de verdade.
O entrópio é quando a pálpebra vira para dentro, e os pelos passam a raspar na córnea a cada piscada. Imagine ter um cílio preso no olho o dia inteiro, todos os dias. O resultado é dor, lacrimejamento, inflamação e, se ninguém intervir, úlcera na córnea. O ectrópio é o oposto: a pálpebra virada para fora, deixando a parte interna exposta a poeira e ressecamento. Ambos aparecem na raça por causa da conformação e do peso da pele facial.
A catarata hereditária também é documentada na raça, com opacificação do cristalino, a lente interna do olho, que pode evoluir para perda de visão. Em exames de triagem feitos em reprodutores, uma parcela relevante dos Berneses avaliados apresentou cataratas significativas, e a recomendação nesses casos é clara: não acasalar. Existe ainda a atrofia progressiva de retina, uma degeneração das células que captam a luz.
E o que você deve observar no dia a dia? Piscar demais, lacrimejamento constante, secreção, pálpebra visivelmente virada para dentro ou para fora, e qualquer mancha esbranquiçada ou acinzentada no olho pedem avaliação veterinária rápida. Um problema aparentemente pequeno de pálpebra pode virar úlcera dolorosa, então "só um olhinho irritado" merece mais respeito do que parece.
Castração: a idade importa, e muito
Aqui vai uma das informações mais práticas para quem tem um filhote da raça. A ideia de que castrar cedo é sempre seguro não se aplica bem a cães grandes como o Bernês. Os hormônios sexuais participam do fechamento das placas de crescimento ósseo, e remover esses hormônios cedo demais em raças pesadas está associado a mais problemas articulares e a certos tumores.
A orientação baseada em evidências para a raça é específica por sexo: machos devem aguardar até os 24 meses de idade para serem castrados, e fêmeas pelo menos até os 6 meses. A diferença existe porque o impacto hormonal sobre articulações e risco de tumores não é igual entre os sexos.
Isso não é uma regra para seguir no automático. O momento ideal depende do histórico do seu cão, do ambiente em que ele vive e da avaliação do veterinário que acompanha o caso. Mas chegue à consulta sabendo desses marcos, porque eles mudam bastante a conversa.
Tumores e expectativa de vida: a parte que ninguém gosta de ler
Vamos ser honestos sem ser cruéis. O Boiadeiro de Berna vive menos do que a média dos cães. Raças grandes e gigantes, como grupo, têm mortalidade mais acelerada, e o Bernês está entre as que apresentam maior risco de morte precoce, em parte pela incidência de tumores como mastocitoma, hemangiossarcoma, linfossarcoma e osteossarcoma.
O que isso significa na prática? Duas coisas. Primeiro, apalpar o cão com frequência vale ouro: nódulos na pele ou embaixo dela, aumento de volume em alguma região ou mancar sem explicação merecem consulta, não espera. Segundo, a partir dos 7 anos, exames de rotina com perfil sênior (sangue, função renal e hepática, avaliação articular) passam a ser uma ferramenta de diagnóstico precoce, não um luxo.
E sim, o controle de peso aparece de novo. Manter a condição corporal ideal ao longo da vida é uma das poucas alavancas reais que o tutor tem para proteger articulações, coração e fôlego, e potencialmente ganhar tempo de qualidade ao lado do cão.
Uma distinção que evita confusão
Vale separar duas coisas que as pessoas misturam. Exames de triagem, como avaliações oftalmológicas em reprodutores ou radiografias para displasia, identificam risco e aptidão para reprodução. Eles não diagnosticam o seu cão individualmente nem substituem a consulta clínica. Um canil que faz triagem séria reduz a chance de filhotes com catarata ou displasia, mas nenhum exame populacional dispensa o veterinário que examina o animal na sua frente.
Falando nisso, uma curiosidade que desmente um mito comum: o Bernês é um cão de "boca seca", com beiços ajustados. Se o seu babar como uma cachoeira, isso não é "coisa da raça", e salivação excessiva repentina, aliás, é um dos sinais de torção gástrica. E cães sem pedigree ou mestiços de grande porte não estão imunes a nada disso: torção e displasia seguem o formato do corpo, não o certificado de origem.
O que levar daqui
Este conteúdo é informativo e serve para triagem, ou seja, para você reconhecer sinais e fazer boas perguntas na consulta. Diagnóstico, tratamento e qualquer decisão sobre castração ou exames pertencem ao veterinário que conhece o seu cão.
O resumo prático é este: mantenha o peso em dia, fracione as refeições, respeite os prazos de castração por sexo, observe olhos e articulações com regularidade e decore os sinais de torção gástrica como quem decora o número de emergência. O Bernês é um gigante gentil com uma vida mais curta do que gostaríamos, e cabe a você fazer cada ano contar.





