Pato doméstico fala, canta ou imita sons?

Você está tomando o café da manhã na cozinha, olha para o quintal e vê um pato caminhando calmamente pela grama. A cena parece bucólica e quase poética, até que o animal abre o bico e solta um som estrondoso que ecoa por toda a vizinhança. Nessas horas, é natural se perguntar o que exatamente se passa na cabeça daquele bicho e até onde vai o talento artístico dele.
Afinal, o pato doméstico fala, canta ou imita sons?
Não, o pato doméstico não fala, não canta melodiosamente e não imita sons. Esqueça a ideia de ensinar o seu pato a repetir o próprio nome ou a entoar uma melodia complexa como faria um papagaio ou um canário. O repertório sonoro dessas aves é puramente instintivo. Eles emitem chamados genéticos e involuntários, como o clássico grasnado, pios e chiados, que servem exclusivamente para a sobrevivência em grupo, comunicação social e avisos de perigo.
Se você já tentou conversar com um pato esperando uma resposta articulada, percebeu que a conversa não rende. Mas por que exatamente eles não conseguem emitir palavras?
A resposta está na biologia. Enquanto aves como calopsitas e papagaios possuem circuitos cerebrais sofisticados dedicados ao aprendizado e ao mimetismo vocal, os patos e marrecos pertencem à família dos anserídeos, que simplesmente não contam com esse software de imitação na mente. Da mesma forma, faltam a eles os músculos intrínsecos na siringe, que é o órgão vocal das aves, necessários para modular notas musicais elaboradas. O som do pato sai por vibrações físicas diretas, rústicas e funcionais.
Por que as fêmeas fazem tanto barulho?
A comunicação sonora muda bastante dependendo do sexo do animal. As fêmeas são as donas da voz principal no quintal. Elas possuem uma siringe adaptada para projetar aquele som alto, limpo e ressonante que todo mundo conhece. Quando a fêmea grasna repetidamente, ela está basicamente usando um canal direto para localizar o bando, avisar onde encontrou comida ou mandar um sinal de alerta sobre a presença de estranhos ou cães de guarda.
Os machos seguem por um caminho bem mais discreto. Eles apresentam uma estrutura anatômica chamada bula siríngea, que acaba abafando o som. Por causa disso, o macho não grasna alto, limitando-se a emitir ruídos baixos, rasposos, roucos ou chiados sibilantes que parecem um sussurro abafado no canto do terreiro.
O barulho tem motivo
A gritaria no quintal quase nunca acontece à toa. Se a fêmea não para de grasnar a plenos pulmões, antes de achar que ela decidiu testar a paciência da vizinhança inteira, olhe com calma para o ambiente.
Muitas vezes, a razão para tanto escândalo é pura frustração por falta de água funda onde ela possa submergir a cabeça e limpar as penas direito. Pato precisa desse contato com a água para se manter confortável e limpo. Além disso, um gavião sobrevoando a área, um cachorro farejando a cerca, o pânico de ficar sozinho longe do resto do grupo ou simplesmente a euforia com a chegada do sol pela manhã bastam para o volume subir bastante.
Se a sua intenção é manter a paz com quem mora ao lado, a regra de ouro é cobrir o básico da rotina deles. Garanta bacias ou tanques fundos com água sempre limpa e nunca crie uma ave dessas sozinha. Ter a companhia de outro pato elimina a carência e reduz drasticamente aqueles berros aflitos que parecem um pedido de socorro.
A burocracia e a lei
Muita gente desiste de ter patos ou marrecos achando que vai precisar de pilhas de documentos e licenças ambientais intermináveis. No Brasil, o processo é bem mais tranquilo para quem só quer criar essas aves no próprio terreno.
O pato doméstico e os marrecos entram na categoria oficial de fauna doméstica, segundo a Portaria IBAMA número 93 de 1998. Na prática, você não precisa de autorização especial, licença de manejo ou cadastro em órgão ambiental federal para criá-los em casa. A única exigência mais rígida aparece se você resolver transportar os animais comercialmente ou levá-los para outro estado, situação que pede guias sanitárias emitidas pelos órgãos de defesa agropecuária da sua região.
Quando o silêncio ou o som mudam de repente
Aves são especialistas em esconder fraquezas e fingir que está tudo ótimo até não aguentarem mais. É por isso que você precisa reparar em qualquer virada repentina na rotina sonora do quintal.
Se aquele bicho que passava o dia conversando ou chiando pelo caminho fica mudo do nada, fique atento. O mesmo vale se o grasnado virar um som engasgado e rouco, principalmente se a ave começar a respirar com o bico aberto e balançar a cauda para cima e para baixo a cada fôlego. Ficar amuada em um canto, recusar comida e demonstrar cansaço extremo são sinais claros de que algo não vai bem no organismo dela.
Diante de qualquer alteração na respiração ou na voz, não espere o quadro piorar. Leve o animal para uma consulta com um veterinário especializado em aves, que saberá examinar o sistema respiratório dele e indicar o tratamento exato com toda a segurança.







