Gato com otite: o que pode ser?

Você chega em casa com as sacolas de mercado, joga as chaves na mesinha da sala e percebe que o seu gato está parado no tapete, sacudindo a cabeça de um jeito frenético, como quem tenta tirar uma gota d'água teimosa de dentro do ouvido. Logo depois, ele começa a coçar a mesma orelha com a pata traseira, quase com desespero. Se você já viu essa cena, sabe que o bichano está incomodado. Mas afinal, o que pode ser toda essa coceira e desconforto?
A otite em gatos é uma inflamação ou infecção que atinge o canal auditivo e o pavilhão da orelha, sendo provocada na grande maioria das vezes por pequenos ácaros de ouvido, pelo crescimento exagerado de fungos que já vivem naturalmente na pele, por infecções bacterianas ou até por processos alérgicos.
A ideia de que bicho de casa não tem problema de ouvido porque vive protegido do mundo é um mito persistente. Gatos têm rotinas limpas, é verdade, mas o canal auditivo deles é um verdadeiro microambiente escuro e quentinho, perfeito para microrganismos fazerem a festa quando o sistema de defesa natural falha ou quando a anatomia colabora.
Ácaros, fungos e alergias: quem está por trás disso?
Quando o veterinário olha lá dentro da orelha do gato com o otoscópio e colhe um pouco daquela secreção para analisar no microscópio, ele costuma caçar três suspeitos principais.
O primeiro é o ácaro de ouvido, um parasita microscópico que adora se alojar no conduto auditivo. Se você notar uma secreção escura e granulada, parecida com pó de café no fundo da orelha, a chance de ser uma infestação por ácaros é enorme. Eles causam uma coceira absurda e irritam tanto a pele que o gato arranha a região até ferir.
O segundo suspeito é uma levedura chamada Malassezia. Trata-se de um fungo que habita a pele do gato pacificamente o tempo todo, mas que se multiplica de forma descontrolada se houver acúmulo de umidade ou cera.
O terceiro grupo envolve as bactérias oportunistas e as alergias. Uma dermatite alérgica pode inflamar a pele do corpo inteiro e adivinhe onde o reflexo disso costuma aparecer com força? Exato, nas orelhas.
O formato da orelha muda alguma coisa?
Muda e muito. Quer um exemplo claro disso? Pense nas raças que têm orelhas dobradas, como o Scottish Fold. Aquela dobrinha charmosa na cartilagem funciona basicamente como um fone de ouvido abafado o dia todo. O ar não circula direito, o calor e a umidade ficam retidos ali dentro, e o caminho para o acúmulo de cera e proliferação de fungos fica livre. Gatos assim exigem um olhar preventivo constante do tutor.
Do outro lado, temos raças sem pelo, como o Sphynx. Como não contam com a proteção natural dos pelos, a pele deles produz uma quantidade acelerada de sebo para se defender, o que também enche as dobrinhas da orelha de gordura e sujeira se a limpeza de rotina não estiver em dia.
O perigo invisível do cotonete e das receitas caseiras
Chega o momento em que a boa intenção do tutor pode gerar um estrago monumental. Muita gente acredita que basta enfiar uma haste flexível com algodão na orelha do felino para resolver o problema daquela cera escura.
Imagine o canal auditivo do gato como um encanamento estreito que faz uma curva bem fechada. Quando você empurra um cotonete lá para dentro, o resultado não é a limpeza do fundo. Pelo contrário, você acaba compactando a sujeira e os parasitas contra a parede, bem perto da frágil membrana do tímpano. Na pior das hipóteses, um movimento inesperado do animal ou uma investida mais profunda pode perfurar esse tímpano, gerando uma dor intensa e até complicações neurológicas.
Outro erro bastante comum é apelar para soluções caseiras que circulam na internet, como o uso de vinagre, álcool, água oxigenada ou azeite. Substâncias ácidas ou agressivas provocam verdadeiras queimaduras químicas em uma mucosa que já está sensibilizada, transformando um incômodo leve em uma situação de extremo sofrimento. O mesmo raciocínio serve para aquele restinho de medicamento que sobrou do tratamento do cachorro ou de outro pet. Cada espécie possui tolerâncias específicas, e o que resolve um problema em uma pode causar uma intoxicação grave na outra.
Quando a orelha vira uma emergência veterinária
Nem toda infecção nos ouvidos se manifesta como uma crise dramática logo no início, mas alguns sintomas exigem que você descarte qualquer tentativa caseira e procure ajuda profissional sem demora.
Caso o gato comece a inclinar a cabeça persistentemente para um dos lados, perca o equilíbrio ao caminhar, aparente desorientação ou ande em círculos, o processo inflamatório pode ter avançado para o ouvido interno. Outro sinal clássico que merece atenção imediata é o aparecimento de um abaulamento macio na aba da orelha, o chamado otohematoma, que surge justamente quando um vaso sanguíneo se rompe em decorrência das coçadas violentas e chacoalhadas.
Se você notar um cheiro excessivamente forte, presença de sangue ou pus em grande quantidade, ou se o bichano demonstrar dor aguda ao menor toque perto da mandíbula, a ida ao consultório se torna indispensável.
Como fazer a limpeza preventiva com segurança
A higienização domiciliar possui regras claras e deve focar exclusivamente na parte externa. Nunca introduza qualquer substância ou objeto dentro do conduto auditivo sem orientação profissional prévia.
Utilize apenas uma gaze ou um pedaço de algodão limpo, levemente umedecido com um produto de limpeza otológico próprio para gatos e indicado pelo veterinário. Remova com delicadeza apenas a sujeira visível nas dobrinhas do pavilhão auricular, sem forçar nada para dentro.
Lembre-se de que o diagnóstico preciso exige ferramentas de consultório, como o otoscópico e a análise do cerúmen ao microscópio. Somente após descobrir se a causa envolve ácaros, fungos ou bactérias é que o profissional indicará o remédio correto, seja ele em gotas antifúngicas, antibióticas ou acaricidas. Cuidar da saúde auditiva do seu felino é o melhor caminho para garantir que ele volte a ter dias tranquilos, bem longe daquele incômodo no tapete.



