Gato com dente quebrado: o que pode ser?

Você vai colocar a ração no pote, escuta aquele barulho habitual dos grãos caindo, chama o gato e assiste à cena de sempre: ele se aproxima com pressa, enfia a cara na tigela, pega um grão e, de repente, sacode a cabeça de um jeito estranho, solta a comida no chão e se afasta meio ressabiado. Na hora, você pensa que ele só está escolhendo o sabor, mas, ao olhar mais de perto, nota que há algo errado na dentição dele.
A quebra de um dente em felinos acontece por dois motivos principais: um trauma mecânico direto, como mastigar algo muito rígido, ou uma doença degenerativa silenciosa que enfraquece a estrutura do dente até ele ceder sozinho.
Muitas pessoas imaginam que o gato quebrou o dente porque caiu de algum lugar alto ou levou uma pancada na rua. Isso de fato acontece, mas existe outro vilão muito comum dentro de casa. Dar ossos para o gato mastigar, acreditando que isso limpa os dentes, é um erro perigoso. Os felinos não têm a menor noção de física na hora da mordida. Eles não conseguem dosar a força da mandíbula ao encontrar uma superfície inflexível. Quando mordem um osso, a pressão aplicada ultrapassa o limite de resistência do esmalte e a coroa do dente simplesmente estala.
Além dos acidentes e das brincadeiras com objetos duros, a fragilidade dentária costuma ter raízes patológicas. É aqui que entra a reabsorção dentária felina, uma condição progressiva e bastante incômoda. Nesse processo, células chamadas odontoclastos, que deveriam apenas cuidar da remodelação óssea, passam a destruir o cemento, a dentina e o esmalte do dente. O dente vai se desfazendo por dentro até que a coroa quebra espontaneamente com o esforço mínimo da mastigação comum.
Outro fator determinante é a saúde geral da boca. Uma parcela expressiva dos gatos desenvolve algum grau de doença periodontal ao longo da vida. O acúmulo de placa bacteriana e tártaro provoca a retração da gengiva e a destruição do osso que sustenta os dentes. Gatos que enfrentam processos inflamatórios severos na mucosa oral, como a estomatite crônica, também apresentam uma vulnerabilidade muito maior a essas perdas dentárias.
O perigo silencioso do mascarador profissional
Existe um detalhe crucial no comportamento dos felinos que pega muitos tutores desprevenidos. Os gatos são verdadeiros mestres em esconder qualquer desconforto. Na natureza, demonstrar fragilidade equivale a virar alvo fácil para predadores. Por causa desse instinto ancestral de sobrevivência, um gato com a raiz do dente exposta, uma infecção dolorosa ou um molar partido vai continuar circulando pela casa com uma compostura invejável.
A ausência de miados lamuriosos não significa de jeito nenhum que o animal está confortável. É comum que o tutor imagine que está tudo bem só porque o felino continua comparecendo às refeições. Na prática, o que costuma acontecer é que o bicho sente tanta dor ao mastigar que passa a engolir os grãos inteiros, ou simplesmente desvia para o lado oposto da boca na hora de triturar a comida, sempre que consegue.
Por isso, você precisa prestar atenção aos sinais indiretos. Se o seu companheiro começou a deixar cair pedaços de ração no chão, mia de um jeito estranho perto do pote, exala um hálito forte demais, come usando apenas um lado da boca ou leva a pata ao rosto repetidas vezes, vale a pena abrir a investigação. Algumas vezes, um simples carinho na bochecha faz com que ele afaste a cabeça de repente, demonstrando que a região está sensível.
O que fazer e como o veterinário resolve isso
Se você notar um dente fraturado ou desconfiar de qualquer lesão na boca do gato, a consulta com um veterinário é indispensável. Não tente forçar a abertura da mandíbula sozinho em casa para olhar o fundo da boca, pois a dor pode fazer com que o animal reaja por reflexo e acabe mordendo sem intenção.
O diagnóstico preciso exige um exame clínico cuidadoso acompanhado de radiografia intraoral, feita com o animal sedado ou anestesiado. Esse raio-X específico é o único capaz de revelar o estado real das raízes e o nível de dano ao osso que sustenta a dentição.
Nos quadros de dentes partidos com exposição da polpa ou tomados por reabsorção avançada, a solução mais indicada costuma ser a exodontia, que é a extração cirúrgica do elemento afetado. Pode parecer radical arrancar um dente do bichano, mas a verdade é que manter uma estrutura quebrada e inflamada na boca é uma fonte contínua de sofrimento. Além do tormento local, problemas bucais ignorados abrem caminho para que bactérias entrem na corrente sanguínea e alcancem órgãos vitais como os rins, o fígado e o coração.
Para prevenir surpresas desagradáveis, vale manter uma rotina simples de prevenção. Esqueça qualquer ideia de oferecer ossos, dispense brinquedos duros demais e converse com o veterinário sobre a melhor forma de cuidar da higiene oral do seu gato, seja com escovação usando produtos veterinários, seja por meio de rações e petiscos funcionais. Um check-up anual ajuda a rastrear problemas logo no começo, garantindo que o seu felino siga por aí sem dor e com a qualidade de vida intacta.



