Gato andando em círculos: o que pode ser?

Imagine que você entra na sala, olha para o canto e vê seu gato dando voltas ao redor do próprio rabo, só que de um jeito meio mecânico e sem fim. Você chama pelo nome, ele continua o giro e parece não reconhecer o ambiente. O ato de um gato andar em círculos é um sinal neurológico e comportamental inespecífico, decorrente de alterações no sistema vestibular, de processos neurodegenerativos como a Síndrome de Disfunção Cognitiva felina, de lesões encefálicas ou da perda de orientação espacial, exigindo avaliação veterinário presencial imediata.
Sempre que um tutor nos procura com essa cena, a primeira reação costuma ser o susto. Afinal, ver um bicho que normalmente esbanja precisão felina girando como se fosse um GPS com o sinal completamente perdido mexe com a nossa paciência e com a nossa tranquilidade. E vale adiantar um ponto fundamental: andar em círculos nunca é um comportamento normal, seja em filhotes curiosos ou em gatos idosos. Não é teimosia, não é mania passageira e muito menos uma brincadeira nova que ele inventou para chamar a atenção.
O que se passa na cabeça e no ouvido do gato
Para entender o motivo desse volteio compulsivo, precisamos olhar para as engrenagens que mantêm o gato equilibrado e consciente do lugar onde está. O sistema vestibular, instalado lá no fundo do ouvido interno, funciona como o nível de pedreiro do corpo. Se algo irrita essa região, como uma infecção profunda ou uma inflamação, o cérebro recebe mensagens trocadas. Um lado avisa que está tudo bem, enquanto o outro grita que o mundo está tombando. Para tentar corrigir essa falsa sensação de queda, o gato caminha em círculos na direção do lado que sofreu a lesão.
Muitas vezes, essa marcha circular vem acompanhada de outros sinais físicos que ajudam a desenhar o diagnóstico. Se você reparar que o gato mantém a cabeça inclinada para um lado, com os olhos fazendo um movimento involuntário de vai e vem, o problema tem grande chance de estar ligado a essa falha no equilíbrio. O animal parece perdido na própria casa, esbarrando nos móveis ou parando diante de portas fechadas como se tivesse esquecido para que elas servem.
Por outro lado, quando o gato já passou dos onze ou quinze anos de idade, a conversa muda um pouco de rumo. O cérebro envelhece, acumula proteínas indesejadas e sofre desgaste cortical, num quadro equivalente ao Alzheimer humano. É a chamada Síndrome de Disfunção Cognitiva. O mapa mental que o felino tinha da própria casa simplesmente se apaga. Ele entra na sala, esquece por que foi até lá, bate contra a parede ou fica rodando em volta da mesa porque perdeu a noção de como contornar o obstáculo.
O peso da idade e os atalhos do corpo
A gente costuma achar que a confusão mental dos animais mais velhos faz parte da velhice e que não há muito o que fazer. É um erro comum que acaba privando o pet de um alívio real. Gatos geriátricos que andam em círculos à noite, miando para as paredes e errando a caixa de areia, muitas vezes estão sofrendo com um declínio cognitivo que pode ser amenizado com suporte veterinário, ajustes na rotina e medicamentos específicos.
Existem também outras peças nessa engrenagem que podem causar a desorientação. A pressão alta, muito comum em felinos idosos com problemas renais, afeta diretamente os vasos sanguíneos do cérebro e gera quadros graves de tontura e agitação. A dor crônica, como aquela provocada pela osteoartrite nas articulações, também estressa o sistema nervoso a ponto de alterar a marcha e o comportamento do animal. Quando o gato sente desconforto ao esticar as pernas ou saltar para o sofá, ele muda a postura e pode começar a vagar sem rumo fixo.
Até mesmo características físicas entram na dança. Raças como o Sphynx, que não possuem pelagem nem os pelos táteis conhecidos como vibrissas, contam com uma percepção espacial diferente e exigem mais atenção dos tutores para não sofrerem choques com o ambiente. Quando um gato perde os bigodes por algum motivo, ele perde também as antenas de precisão que usava para medir a largura das portas no escuro. Sem esse radar natural, o risco de o animal ficar confinado em pequenos espaços ou rodando em círculos aumenta bastante.
O que fazer agora e quando correr para o pronto-socorro
Se você presenciou essa cena na sua casa, o primeiro passo é respirar fundo e evitar o pânico. Pegue o celular e faça um pequeno vídeo do gato andando em círculos. Esse registro visual é uma ferramenta preciosa para o veterinário, pois o comportamento dentro do consultório costuma mudar por causa da adrenalina e do estresse da viagem.
Enquanto organiza a ida à clínica, prepare a casa para proteger o animal. Afaste móveis com pontas perigosas, restrinja o acesso a escadas e varandas, e mantenha a água, a comida e a caixa de areia no mesmo andar e bem perto de onde ele costuma ficar. Nunca administre calmantes, analgésicos humanos ou remédios caseiros por conta própria. Uma substância inadequada pode mascarar sintomas vitais ou causar uma intoxicação grave em um organismo que já está vulnerável.
Alguns sinais exigem atendimento de emergência sem perda de minutos. Se o gato apresentar crises convulsivas, tremores incontroláveis, paralisia nas patas, pupilas de tamanhos diferentes, cegueira súbita ou se recusar a comer e beber por mais de um dia seguido, coloque-o numa caixa de transporte com cuidado e procure um hospital veterinário imediatamente.
Investigar a causa com um profissional é a única forma de devolver a dignidade e o conforto ao seu companheiro, seja tratando uma infecção de ouvido, controlando a pressão arterial ou dando suporte para que a mente dele navegue com mais tranquilidade pelos dias que virão.




