Gato com apatia: o que pode ser?

Sabe aquela cena em que você chega do trabalho, abre a porta e percebe que a casa está silenciosa demais? Em vez daquele gato curioso que costuma vir correndo cobrar o sachê ou miar na porta, você encontra o bichano encolhido no chão do armário, com o olhar parado e o pelo meio despenteado. Dá um aperto no coração, e a primeira pergunta que surge é o que pode estar acontecendo com ele.
A apatia em gatos é um sinal de alerta de saúde física ou emocional que nunca deve ser ignorado pelos tutores. Ela funciona exatamente como um telefone celular que entra de repente no modo de economia de energia, desligando funções secundárias e reduzindo o brilho da tela apenas para manter o essencial funcionando. Quando o felino adota essa postura, o organismo dele está tentando poupar energia e limitar o desconforto diante de algum problema oculto.
Existe um detalhe essencial sobre os gatos que costuma nos pegar desprevenidos. Por causa de sua herança evolutiva como predadores e presas ao mesmo tempo, os felinos são verdadeiros especialistas em mascarar dores e fragilidades. Na natureza, demonstrar fraqueza significa virar alvo fácil. Por isso, quando o gato finalmente demonstra apatia perceptível no ambiente doméstico, o problema subjacente muitas vezes já está em estágio intermediário ou avançado. Ele não está fazendo manha, mas sim manifestando exaustão física.
O que costuma deixar um gato tão abatido?
A apatia é um sintoma genérico, o que significa que o corpo avisa que algo vai mal, mas não traz uma placa indicando a origem exata. Ainda assim, a rotina clínica costuma apontar algumas causas muito comuns para esse comportamento, unindo desconfortos físicos e desequilíbrios internos.
As dores nas articulações lideram essa lista, especialmente nos animais mais velhos. Boa parte dos gatos geriátricos sofre de osteoartrite, que é o desgaste progressivo das cartilagens. Aquele gato que adorava pular na geladeira ou no topo do armário começa a hesitar diante do salto. Ele olha para cima, calcula o esforço, ensaia o movimento, desiste e prefere ficar no chão. A dor inflamatória constante nas costas ou nos quadris esgota o animal, gerando o isolamento e a apatia que muitos tutores acabam culpando, de forma equivocada, apenas na velhice natural. O erro comum de achar que o bicho só ficou preguiçoso esconde o fato de que ele sente dor ao se mover.
Problemas nos rins também cobram um preço alto. A doença renal crônica e a forma policística, muito comum em algumas raças como o Persa, acumulam toxinas no sangue. Essa sobrecarga de resíduos metabólicos provoca náuseas terríveis, perda de apetite, vômitos e uma prostração progressiva. O gato simplesmente perde o interesse pelo mundo ao redor porque o próprio metabolismo está intoxicado pelo excesso de ureia que o rim deixou de filtrar adequadamente.
O coração é outro sistema que merece atenção. A cardiomiopatia hipertrófica, que é o espessamento das paredes do músculo cardíaco, reduz a eficiência do sangue circulando pelo corpo. O gato se cansa com facilidade extrema e pode apresentar episódios de apatia logo após tentar pequenas brincadeiras ou saltos. Como o oxigênio não chega de forma adequada aos tecidos e músculos devido à falha no bombeamento, a energia despenca de uma hora para outra.
Como investigar e lidar com o problema
Descobrir de onde vem essa falta de ânimo pede um olhar bem atento para o dia a dia do bicho. Coisas sutis, como aquele gato que parou de subir nos lugares mais altos, que não se lambe mais como antes ou que rosna quando alguém tenta pegá-lo no colo, dizem muito mais do que a aparente calmaria. Nos mais velhos, inclusive, ficar amuado não é apenas sinal de que os anos passaram, mas um aviso claro de que tem alguma dor ou disfunção interna atrapalhando a rotina dele.
Até que o veterinário consiga rodar os exames necessários, que costumam envolver sangue, checagem da pressão, ultrassom e raio x, a sua missão caseira é facilitar a vida do peludo. Vale colocar rampas fáceis para o sofá, trocar a caixa de areia por uma com borda rebaixada para não forçar as articulações e espalhar potes de água e comida em cantos calmos e acessíveis, ajudando o bichano a gastar o mínimo de energia possível enquanto se recupera.
O perigo de tentar resolver por conta própria
Ver o gato encolhido e sem comer desperta aquela vontade imediata de abrir o armário e dar um jeitinho caseiro. Só que o profissional da veterinária é o único com preparo para descobrir a causa real do problema e indicar o remédio certo, sendo totalmente proibido medicar o animal por conta própria.
Nunca ofereça analgésicos ou anti-inflamatórios humanos, como paracetamol ou ibuprofeno, para um gato. O corpo felino funciona de um jeito único e não consegue processar essas substâncias, o que costuma gerar uma intoxicação gravíssima, destruição das células do sangue, falência dos órgãos e risco de morte em poucas horas. Aquele comprimido inofensivo para a sua dor nas costas pode se transformar em um veneno letal para o seu companheiro.
Quando a apatia vira uma emergência
Existem horas em que esperar o sol raiar para ver se o gato acorda melhor é uma aposta arriscada demais. Se a prostrada vier acompanhada de jejum total por mais de vinte e quatro horas, corra para o atendimento de urgência. O alerta vermelho também vale se você perceber falta de ar, respiração com a boca aberta, gengivas esbranquiçadas ou azuladas, perda repentina de movimento nas pernas de trás acompanhada de choro, ou qualquer tentativa dolorosa e sem sucesso de fazer xixi.
Ficar de olho nos hábitos do felino e correr atrás de ajuda especializada logo nos primeiros sinais faz toda a diferença para o sucesso do tratamento. No fim das contas, viver com um gato é aprender a decifrar justamente aquilo que ele tenta esconder com tanto capricho.




