Como reproduzir Tambaqui no aquário

Você acabou de instalar aquele aquário gigante na sala, encheu de água cristalina, colocou alguns troncos bonitos e agora olha para o seu recém-adquirido tambaqui nadando calmamente. Bate aquela curiosidade meio ingênua: será que dá para reproduzir essa belezinha por aqui mesmo, ver uns filhotinhos crescendo e quem sabe montar um negócio no canto da sala?
Não. A reprodução do tambaqui em aquários domésticos convencionais é simplesmente inviável.
Tentar reproduzir um tambaqui em casa é mais ou menos como tentar criar um boi de corte na varanda de um apartamento de um quarto. Não cabe fisicamente, o ambiente não oferece o que o animal precisa e o resultado para o bicho é desastroso. A espécie em questão, conhecida cientificamente como Colossoma macropomum, exige uma estrutura colossal que passa longe da nossa realidade doméstica.
Por que o tambaqui não desova no aquário
Para entender o tamanho desse obstáculo, vale olhar para a biologia da espécie. O tambaqui é um peixe reofílico, ou seja, um organismo cuja fisiologia depende de uma verdadeira maratona. Na natureza, na época das chuvas, esses peixes iniciam a piracema, que é aquela longa viagem rio acima contra a correnteza.
Essa longa nadada e as mudanças químicas na água provocadas pelas cheias funcionam como o gatilho perfeito para o cérebro do peixe. É isso que diz ao organismo que chegou o momento de liberar os hormônios reprodutivos, amadurecer os óvulos e realizar a desova. Sem esse movimento todo, o corpo simplesmente segura o processo.
No aquário da sua sala, a água é parada e o ambiente é completamente estagnado. Sem a correnteza e sem a sensação de estar migrando quilômetros rio acima, o corpo do tambaqui simplesmente desliga a chave reprodutiva. O cérebro não secreta os hormônios necessários, e os óvulos acabam sendo reabsorvidos pelo próprio organismo do peixe. Ajustar o pH ou subir um pouco a temperatura da água do aquário não vai mudar isso, por mais que alguns mitos da internet digam o contrário. Parâmetros corretos mantêm o peixe vivo, mas não substituem o fator migratório.
A ciência por trás da reprodução em cativeiro
Se você já trombou com alevinos de tambaqui à venda em grandes pisciculturas, pode tirar da cabeça a ideia de que aquilo aconteceu por acaso. A reprodução comercial é uma engenharia pesada que rola em estações dedicadas, tocadas por quem entende do assunto sob o olhar atento de veterinários ou zootécnicos.
Nesses quartéis-generais da piscicultura, como o peixe passa longe de ver qualquer correnteza natural, a turma de túnica branca precisa dar um empurrãozinho químico bem específico. O procedimento envolve aplicar hormônios sintéticos ou naturais, como os famosos extratos de hipófise, espetados direto nos reprodutores adultos para destravar a maturação e a soltura dos óvulos e espermatozoides.
A coisa é tão milimétrica que os técnicos precisam calcular as chamadas horas-grau, cruzando a temperatura exata da água com o relógio para adivinhar a hora cirúrgica da ovulação. Aí os ovos são tirados à mão com uma massagem bem delicada na barriga do bicho, misturados a seco e jogados em incubadoras cheias de água com oxigênio correndo solto. Tente encaixar um laboratório desses na sua lavanderia para ver o tamanho do estrago.
O problema do espaço e da saúde do peixe
Além da recusa biológica do bicho em desovar em água parada, tem o pequeno detalhe de que o tambaqui simplesmente fica enorme. Estamos falando de um gigante que passa de boa dos trinta quilos, então enfiá-lo num aquário comum é receita certa para um desastre com estresse crônico, má formação óssea e intoxicação braba por acúmulo de sujeira.
Um tanque apertado e mal cuidado é o paraíso dos parasitas. Vermes que atacam o estômago ou pulgas d'água que grudam nas brânquias adoram peixes acuados em água suja, transformando o aquário num verdadeiro filme de terror sanitário.
A compra desses animais também exige cabeça fria com a papelada. Pegar bicho na natureza sem licença é crime ambiental feio, e soltar o seu bicho de estimação que cresceu demais num rio local é outro erro monumental. Se você tem espécimes jovens num sistema gigante apenas para contemplação, a lei é clara ao exigir a nota fiscal com o registro do criatório de origem.
Resumindo a ópera, melhor deixar a reprodução do tambaqui para quem tem tanques escavados e salas cheias de incubadoras. Na sua sala, o melhor papel para o bicho é viver sossegado, com bastante espaço e água limpa para crescer forte sem virar dor de cabeça.






