Como reproduzir Tetra imperador no aquário

Sabe aquela história de que ter peixe em casa é só jogar ração e admirar as cores da sala enquanto assiste a uma série qualquer? Pois é, a coisa muda de figura quando a gente resolve bancar o obstetra aquático e tentar a reprodução do Tetra imperador, o Nematobrycon palmeri, aquele peixe elegante que nada com imponência no meio da vegetação.
Sim, dá para reproduzir esses bichinhos em casa, mas esqueça o aquário comunitário da sala. Para ter sucesso, você vai precisar montar um tanque de cria separado, garantir que a água esteja perfeitamente estabilizada e, o mais importante, agir rápido para separar os pais dos ovos antes que vire um banquete em família.
Por que isso acontece? Muita gente cai na armadilha de achar que peixe que vive em cardume cuida da prole como se fosse cena de documentário na televisão. Nada disso. Os caracídeos, grupo ao qual o Tetra imperador pertence, são peixes ovíparos. Isso significa que eles realizam fertilização externa, liberando os ovos na coluna d'água, e os adultos não têm o menor pudor em devorar a própria descendência logo em seguida se tiverem oportunidade.
Imagine que você preparou um berçário caprichado, mas esqueceu de colocar uma rede de segurança. É exatamente esse o papel de um fundo falso com grades ou de uma vegetação muito densa no aquário de reprodução. Os ovos caem no fundo ou ficam perdidos entre as plantas, fora do alcance dos pais famintos. Assim que a desova termina, a regra de ouro é bem direta: devolva os adultos para o aquário principal e deixe os ovos em paz no tanque exclusivo.
O papel importante da água e do filtro
Outro detalhe que costuma pegar os criadores de surpresa é a qualidade da água. Tentar reproduzir esses peixes em um aquário recém montado é como mudar para uma casa nova antes de ligarem o encanamento e a eletricidade. O resultado é um desastre previsível e frustrante.
O aquário de reprodução precisa estar totalmente ciclado. Em termos práticos, isso quer dizer que o ciclo biológico que processa os dejetos precisa estar rodando redondo, com níveis zerados de amônia e nitrito. A amônia e o nitrito são altamente tóxicos e acabam com os embriões e com os filhotes recém eclosos em poucas horas. Além disso, antes de encher o tanque, use sempre um bom condicionador na água da torneira para neutralizar o cloro e as cloraminas, que são substâncias letais tanto para os peixes quanto para as bactérias benéficas do filtro.
Por falar no filtro, aqui vai um aviso clássico que evita muita dor de cabeça na rotina de manutenção. As bactérias que limpam a água do aquário formam uma verdadeira equipe de limpeza invisível. Quando for fazer a limpeza das mídias filtrantes, aquelas cerâmicas ou espumas de dentro do filtro, nunca use água corrente da torneira. O cloro da rede pública mata essa equipe inteira de uma só vez. Lave os elementos filtrantes apenas com a própria água que você sifonou do aquário durante uma troca parcial.
A escolha do casal e os cuidados com os filhotes
Escolher bem o casal ou o grupo reprodutor muda completamente o rumo da história. Os rapazes da espécie costumam ser maiores, trazem aquela nadadeira dorsal pontuda que lembra uma foice e ostentam uma faixa preta bem desenhada no meio do corpo. Já as fêmeas aparecem um pouco menores, com o corpo mais arredondado e uma coloração que puxa para o dourado ou prateado na região da barriga.
Antes de soltar os dois no berçário, vale a pena caprichar no cardápio com alimentos vivos ou congelados por alguns dias. Essa engorda estratégica dá o sinal verde para o corpo produzir os óvulos e os espermatozoides, garantindo uma quantidade bem maior de ovos. Quando notar que a fêmea está com a barriga avantajada e o macho desfila mais colorido e metido a valente, chegou a hora de mudar o endereço deles.
A iluminação do tanque de cria também pede cautela. Os ovos e os recém-nascidos detestam claridade forte e sofrem com a luz direta. Deixar o aquário na penumbra, talvez com algumas plantas flutuantes na superfície, acalma os adultos e guarda a postura de qualquer incômodo luminescente.
Os ovos abrem em poucos dias, variando conforme o termômetro da água. Nessa primeira fase, os bichinhos parecem mais uns fiapos de linha colados no vidro ou escondidos no matinho. Eles sobrevivem consumindo a própria bolsinha de nutrientes que trazem grudada no corpo.
Só abra o refeitório quando eles começarem a nadar na horizontal procurando comida. Como o tamanho é microscópico, esqueça a ração esfarelada da sala porque aquilo é gigante para eles. O cardápio pede infusórios, seres invisíveis a olho nu ou microvermes preparados especialmente para essa fase frágil. Mais para frente, conforme ganham tamanho, entra em cena a artêmia recém-nascida, que funciona como o verdadeiro motor do crescimento deles.
Manter bichos exóticos em casa exige atenção às regras dos órgãos ambientais do país, comprando sempre de locais confiáveis. E, por mais que a gente tente resolver tudo nos fóruns da internet, os peixes também adoecem quando o ambiente falha.
Se perceber qualquer apatia, nado torto, desbotamento ou aquelas bolinhas brancas conhecidas como ponto branco, pare tudo. Doenças que voltam a aparecer ou mortes sem explicação pedem a ajuda de um veterinário especializado em peixes, que é quem realmente entende de sanidade aquática.
Com um aquário montado com antecedência, olho vivo na qualidade da água e aquela separação rápida logo após a postura, a reprodução deixa de ser bicho de sete cabeças e vira uma das partes mais legais de ter aquário em casa, provando que caprichar nos detalhes traz um resultado fantástico.






