Como reproduzir Mato-grosso no aquário

Sabe quando você olha para o aquário na sala e pensa que seria o máximo ver uma nova geração de peixes nascendo ali, mas lembra que peixe não vem com manual de instruções? Se a sua dúvida é como reproduzir o Mato-grosso, conhecido cientificamente como Hyphessobrycon eques, eles até desovam com relativa facilidade se você preparar um ambiente separado, mas exigem que você retire os pais do aquário logo depois da postura, caso contrário eles encaram os próprios ovos como um petisco imperdível.
O ritual e a separação dos pais
Imagina a cena. No aquário comunitário, o Mato-grosso é aquele peixe de cardume com um vermelho vivo que parece aceso na água, nadando para cima e para baixo. Só que, quando o assunto é família, eles seguem a filosofia de soltar o barco e seguir a vida. Na natureza, ou em um tanque preparado para isso, a reprodução começa nas primeiras horas da manhã com os machos perseguindo as fêmeas de um jeito bem vigoroso.
O problema é que eles não têm nenhum instinto de cuidado parental. Enquanto peixes como o Acará-bandeira abanam os ovos e cuidam da prole, o Mato-grosso funciona como um aspirador de pó de ovos. Se você deixar o casal ou o grupo no mesmo aquário após a desova total, em poucas horas não sobra um único ovo para contar história. Por isso, a regra de ouro é montar um aquário de reprodução separado, geralmente uma maternidade pequena de vinte a quarenta litros, e devolver os reprodutores para o tanque principal assim que a fêmea terminar de soltar os ovos e o abdômen dela estiver visivelmente mais magro.
Como preparar a maternidade e acertar a água
Para dar certo, esse aquário menor precisa de alguns ajustes simples. A água deve ficar com a temperatura estável entre 24 °C e 28 °C, simulando aquela leve aquecida que antecede as chuvas na bacia amazônica. O pH precisa ficar levemente ácido ou neutro, na faixa de 6,0 a 7,0, e a amônia tem de estar rigorosamente zerada. Qualquer descuido com a qualidade da água nessa fase estraga todo o processo.
A circulação da água também merece cuidado. Use um filtro com uma pedra difusora bem suave, daquelas que soltam bolhas finas, para não criar uma correnteza capaz de jogar os ovos para longe ou esmagar as larvas que vão nascer. No fundo do aquário, coloque uma grade de desova ou uma vegetação bem densa, como musgos ou plantas de folhas finas. Como os ovos são adesivos ou semi-adesivos e afundam, essa barreira física impede que os pais alcancem a postura antes de você conseguir tirá-los de lá.
Como diferenciar o macho da fêmea
Antes de transferir todo mundo para a maternidade, vale a pena observar o cardume com calma e selecionar os parceiros mais indicados. A diferença entre os sexos fica bem evidente quando os peixes atingem a fase adulta. Os machos costumam ter um formato mais esguio, tamanho ligeiramente menor e um vermelho intenso que brilha com força nas escamas e nas nadadeiras. As fêmeas ganham um perfil mais robusto e arredondado, ostentando um ventre volumoso e proeminente quando carregam os óvulos.
Dias antes de mudar o casal para o tanque de reprodução, vale a pena reforçar a rotina alimentar do grupo com uma dieta farta em proteínas e itens vivos. Essa preparação caprichada estimula o desenvolvimento reprodutivo. Falando nisso, nunca tente criar ou abrigar um único Mato-grosso isolado no aquário comunitário. Eles são peixes de cardume por excelência e exigem a companhia de pelo menos seis a dez parceiros da mesma espécie. Quando ficam sozinhos, o estresse toma conta, a coloração vibrante desaparece e eles assumem um comportamento agressivo, passando o tempo todo atacando as nadadeiras dos outros habitantes. É o equivalente a isolar alguém em um cômodo vazio por tempo indeterminado.
O nascimento e o desafio do tamanho do bocado
O surgimento dos primeiros filhotes acontece de forma rápida, geralmente entre dezoito e trinta horas depois da fertilização, variando conforme a temperatura da água. Assim que nascem, os pequenos passam cerca de três dias parados, absorvendo os nutrientes do próprio saco vitelino.
Nesse ponto surge o obstáculo mais delicado para quem está começando na atividade. Quando essa reserva natural se esgota, os recém-nascidos precisam começar a se alimentar por conta própria. Pense no tamanho microscópico de um alevino recém-saído do ovo. A boca minúscula tem a largura aproximada de um fio de cabelo. Tentar alimentá-los com ração comum esfarelada seria o mesmo que oferecer um bloco de concreto para uma criança recém-nascida.
Para salvar a ninhada, que costuma apresentar um índice moderado de sobrevivência em cativeiro, é obrigatório oferecer alimentos vivos de tamanho infinitesimal. Náuplios de artêmia recém-eclodidos e microvermes servidos de cinco a seis vezes diárias garantem o desenvolvimento saudável dos pequenos. O ambiente de criação também pede iluminação suave e, se possível, uma leve presença de microalgas na água para trazer mais segurança aos recém-nascidos.
Um alerta importante sobre o ambiente
Muita gente se pergunta se vale a pena despejar sal grosso no aquário de água doce para evitar infecções ou estimular a desova. Para o Mato-grosso e outros peixes de água mole, essa prática não passa de um mito sem fundamento que só provoca estresse desnecessário nos animais.
Outro detalhe que exige cuidado absoluto envolve o destino final desses bichos. O Mato-grosso é apontado como uma espécie de elevado risco de invasão em diversos ecossistemas aquáticos brasileiros fora de seu habitat de origem, sobretudo por causa de fugas em criações comerciais ou tutores irresponsáveis que soltam os peixes em corpos d'água naturais. Jamais solte qualquer animal de aquário na natureza.
Se a água ficar turva sem motivo aparente, se os ovos desenvolverem uma capa esbranquiçada de fungo que precisa ser retirada com um conta-gotas, ou se o grupo inteiro começar a nadar com lentidão e apatia, consulte um veterinário especializado em animais aquáticos. O profissional vai saber diagnosticar se o contratempo é apenas um pico de compostos tóxicos ou uma questão de saúde mais complexa que pede intervenção imediata. Com dedicação, controle rigoroso dos parâmetros da água e um bom suprimento de alimento vivo para a fase inicial, ver a nova geração crescer deixa de ser um mistério e se transforma em uma das recompensas mais gratificantes de manter um aquário em casa.






