Como reproduzir Endler no aquário

Imagine que você acende a luz da sala tarde da noite, olha para o aquário e percebe uns pontos minúsculos nadando perto do musgo. Antes que você pense em comprar uma daquelas caixas plásticas de maternidade, saiba que para reproduzir Endler no aquário, você praticamente só precisa deixar a natureza seguir o curso dela, mantendo uma proporção de um macho para duas ou três fêmeas, água limpa e muitas plantas para os filhotes se esconderem. Parece simples demais, e realmente é. O Endler é um peixe de pequeno porte, parente próximo do conhecido Guppy, e tem uma facilidade imensa para se multiplicar. O problema é que muita gente complica o processo e acaba atrapalhando o que funcionaria sozinho, criando uma verdadeira força-tarefa para algo que os peixes fazem muito bem por conta própria. Por que será que complicamos tanto o que a evolução já resolveu com bastante eficiência?
Como funciona a reprodução na prática
Esqueça a história de ovos espalhados pelo substrato ou ninhos de bolhas na superfície. O Endler é um peixe vivíparo, o que significa que o desenvolvimento dos filhotes acontece dentro do corpo da fêmea. O macho tem uma nadadeira anal modificada que funciona como um órgão reprodutor para transferir os espermatozoides. Uma única fertilização costuma render frutos por vários meses, já que as fêmeas conseguem armazenar o esperma no próprio organismo, garantindo gestações sucessivas a cada três ou quatro semanas sem precisar da presença constante de um macho por perto. Quando o grande dia chega, os filhotes já nascem formados, completos, conseguindo nadar e fugir dos adultos imediatamente. E aqui entra o primeiro ponto crítico da dinâmica do aquário. Os peixes adultos olham para os recém-nascidos com a mesma ternura que um felino faminto olha para uma presa indefesa. Se os pais não comem os filhotes por maldade, fazem isso por puro instinto predatório, o que muda completamente a forma como devemos preparar o ambiente.
O papel essencial do berçário verde
Se você não tiver plantas densas, como musgos ou espécies flutuantes com raízes fartas, a taxa de sobrevivência da prole despenca vertiginosamente. Os alevinos, que é como chamamos os peixes recém-nascidos, precisam de um esconderijo imediato ao nascer para não virarem petisco no primeiro minuto de vida. Muita gente comete o erro de isolar a fêmea grávida em pequenas caixas de acrílico penduradas na borda do aquário. Isso costuma gerar um estresse agudo no animal, resultando em partos prematuros ou até na morte da matriz, que sofre com a falta de espaço e a instabilidade da água confinada. Em vez de confinar o peixe em celas transparentes, invista em vegetação natural espalhada pelo tanque principal. O aquário vira um esconderijo perfeito onde a fauna cresce protegida pelos próprios instintos de fuga. Outro detalhe que exige atenção redobrada é a matemática da colônia.
Quantos machos e quantas fêmeas colocar
Manter o grupo em ordem pede uma proporção básica de um macho para cada duas ou três fêmeas. Colocar apenas um casal ou encher o tanque de machos transforma a rotina em uma perseguição incessante. Os rapazes passam o dia inteiro cortejando sem dar trégua, o que esgota fisicamente as fêmeas e acaba debilitando a saúde delas com o tempo. Dividir o interesse entre várias parceiras acalma o ambiente e traz um equilíbrio saudável para o aquário. Na hora de montar o grupo, as diferenças físicas facilitam bastante o trabalho. Os machos medem em torno de três centímetros, exibem cores intensas que lembram neon e mostram o órgão reprodutor bem evidente. As fêmeas alcançam cerca de seis centímetros, parecem mais encorpadas, vestem tons bem mais discretos e carregam uma mancha escura na barriga, a famosa mancha de gravidez.
A água precisa estar impecável
Nenhum plano de reprodução resiste a um aquário abandonado ou com manutenção irregular. Tentar multiplicar peixes sem um filtro biológico maduro equivale a morar numa casa sem saneamento. O processo de purificação natural precisa estar funcionando perfeitamente, mantendo a amônia zerada para evitar qualquer tipo de intoxicação nos bichos. Variações bruscas na temperatura e alterações no pH neutro ou ligeiramente básico derrubam rapidamente a imunidade dos animais. Na hora da limpeza de rotina, jamais lave as peças do filtro embaixo da torneira comum. O cloro da água tratada acaba de uma vez com as bactérias do bem que sustentam o aquário, causando picos mortais de substâncias tóxicas. Faça essa limpeza usando apenas a água retirada do próprio aquário durante as trocas parciais.
O perigo da comida em excesso
Quase todo mundo tem o hábito de achar que o peixe está morrendo de fome só porque ele nada desesperado em direção ao vidro quando alguém passa por perto. Os animais reagem por puro instinto ao movimento e aceitam comida mesmo de barriga cheia. Despejar ração em excesso é a maneira mais certeira de estragar a água e colocar tudo a perder. A comida que sobra vai para o fundo, apodrece lentamente e desequilibra o ambiente de um jeito invisível. O ideal é dar apenas o que eles conseguem comer em dois minutos, repetindo o processo uma ou duas vezes ao dia, além de deixar um dia sem alimentação para ajudar na digestão. Se reparar em peixes parados no fundo, nadadeiras murchas, cores apagadas ou respiração acelerada, cheque os parâmetros da água antes de tomar qualquer medida precipitada. Caso surjam sinais duradouros de doença ou perdas no grupo, vale a pena buscar ajuda de um profissional qualificado em aquariofilia. Cuidando da água, garantindo plantas de sobra e mantendo o grupo equilibrado, os filhotes logo aparecem para animar o cenário.







