Como cuidar do pelo e da higiene do Pastor dos Pirenéus

Alguém que cruza com um Pastor dos Pirenéus pela primeira vez na rua pode ter a impressão de que o cão acabou de escapar de uma ventania violenta ou de uma obra de arte abstrata. A pelagem desse animal possui uma personalidade marcante, misturando uma textura rústica, um volume que parece despretensioso e um olhar de quem está sempre calculando a próxima estratégia de pastoreio. Cuidar do pelo e da higiene dessa raça não exige um laboratório químico sofisticado nem fórmulas mágicas de salão de beleza, mas pede consistência, ferramentas adequadas e a compreensão de que cada indivíduo reage de um jeito ao toque e à rotina.
Isso passa por uma escovação semanal regular para evitar nós na pelagem densa, banhos espaçados que preservam a proteção natural da pele, atenção constante a orelhas e olhos devido ao crescimento de pelos nessas regiões, e uma adaptação gradual que respeite o temperamento alerta e ativo do cão. A seguir, detalhamos como traduzir isso para o dia a dia sem complicações desnecessárias.
Entendendo a pelagem e a variação da raça
Antes de encostar qualquer escova no animal, vale a pena olhar bem para o tipo de pelagem que está diante de você. O Pastor dos Pirenéus apresenta duas principais variedades conhecidas pela conformação do rosto: o de cara raza e o de pelo longo. O primeiro exibe pelos mais curtos e finos na cabeça, enquanto o corpo pode apresentar uma pelagem ligeiramente mais assentada ou semi longa. O segundo ostenta uma cabeleira abundante, com fios longos, secos e ligeiramente ondulados ou lisos, capazes de acumular folhas, galhos e poeira com uma facilidade impressionante após qualquer passeio ao ar livre.
Essa rusticidade natural do pelo é exatamente o que protegia o cão contra intempéries nas montanhas. O erro comum é tentar deixar o pelo perfeitamente liso e sedoso como o de raças criadas para exibição indoor. A textura do Pastor dos Pirenéus precisa manter sua característica áspera e funcional. Tentar banhar o cão excessivamente com produtos alisantes ou escovações agressivas retira a oleosidade natural que blinda a pele contra umidade e sujeira.
Conhecer o próprio cão significa observar como o pelo reage às mudanças de estação. Durante os períodos de muda, a pelagem morta precisa ser removida com mais frequência para evitar a formação de feltros intransponíveis. Isso não segue um calendário fixo impresso no manual do fabricante, pois o clima da sua região, a rotina de passeios e a genética individual influenciam diretamente o ritmo da troca de pelagem.
O ritual da escovação sem transformar a sala em campo de batalha
A escovação é o coração da manutenção estética e sanitária do Pastor dos Pirenéus. Como a pelagem tende a formar nós nas regiões de atrito, como atrás das orelhas, na parte interna das coxas e na cauda, negligenciar essa etapa por algumas semanas pode transformar pequenos emaranhados em verdadeiras armadilhas que exigem tesoura ou paciência infinita.
Para começar, escolha as ferramentas certas. Uma rasquice de qualidade moderada e um pente de metal com dentes largos e médios formam a dupla ideal. A escovação não deve ser uma sessão de tortura onde o tutor puxa os nós com força. O segredo está em segurar a base do pelo próximo à pele e desfazer o nó pontualmente com o pente, evitando tracionar a raiz e causar dor ao animal.
Se o cão demonstra impaciência ou receio com a escova, a adaptação precisa ser fracionada. Comece por áreas que ele tolera mais, como o dorso ou os ombros, ofereciendo petiscos e elogios calmos para associar o momento a algo positivo. Forçar uma sessão longa de uma só vez costuma gerar resistência para o resto da vida. Caso o animal apresente sinais persistentes de desconforto extremo ou agressividade defensiva durante o manuseio, procure orientação veterinária ou de um profissional especializado em comportamento para investigar causas físicas ou emocionais, evitando suposições precipitadas sobre o temperamento da raça.
Banhos, pele e o mito do pelo sempre cheiroso
Existe uma expectativa moderna de que os cães devam cheirar a perfume francês todos os dias do ano. No caso do Pastor dos Pirenéus, essa busca por um aroma artificial constante pode causar problemas dermatológicos sérios. A pele do cão produz uma camada protetora de gordura que cumpre funções vitais de defesa imunológica e impermeabilização. Banhos quinzenais ou semanais sem real necessidade removem essa barreira e deixam o animal vulnerável a ressecamentos, coceiras e infecções.
Na prática, o banho deve ocorrer quando houver acúmulo real de sujeira pesada, odores fortes decorrentes de explorações na lama ou indicação expressa do veterinário devido a alguma condição de pele. Quando chegar a hora do banho, utilize água morna, shampoo neutro formulado especificamente para cães e enxágue minuciosamente para garantir que nenhum resíduo de produto permaneça no subpelo denso.
A etapa da secagem merece tanta atenção quanto a lavagem. Deixar um Pastor dos Pirenéus secar naturalmente ao vento quando a pelagem é longa pode reter umidade junto à pele, criando um ambiente perfeito para a proliferação de fungos e bactérias. Utilize um secador em temperatura morna, nunca quente, mantendo distância segura da pele enquanto movimenta o ar com uma escova para alinhar os fios. Se o cão se assusta com o barulho do secador, introduza o equipamento desligado primeiro, associando-o a recompensas, antes de ligá-lo em velocidade baixa em um canto distante da sala.
Higiene de orelhas, olhos, dentes e unhas
Além do manto que cobre o corpo, a higiene do Pastor dos Pirenéus abrange pontos estratégicos que pedem vistoria periódica. As orelhas, por exemplo, podem acumular pelos em seu interior, dependendo da linhagem. O acúmulo de cera associado a uma circulação de ar limitada aumenta a propensão a otites. A limpeza deve ser feita com gaze e solução específica recomendada pelo veterinário, evitando o uso de hastes flexíveis introduzidas profundamente no canal auditivo.
Os olhos, vivos e expressivos, também merecem cuidado para evitar manchas na pelagem clara ao redor. Limpar o canto dos olhos com um chumaço de algodão umedecido em soro fisiológico ajuda a remover secreções diárias. Caso note vermelhidão excessiva, inchaço ou secreção espessa e persistente, agende uma consulta veterinária, pois esses sinais não devem ser ignorados nem tratados com remédios caseiros ou sobras de farmácia.
A saúde bucal entra na rotina de higiene de forma preventiva. A escovação dos dentes com pasta própria para cães reduz o acúmulo de tártaro e previne problemas periodontinais que afetam a qualidade de vida do animal. Quanto às unhas, o desgaste natural em pisos ásperos ou calçadas costuma ajudar, mas se você ouvir o som constante das unhas batendo no piso de casa, está na hora de usar um alicate apropriado ou levá-lo ao profissional para o corte, tendo o cuidado de não atingir a parte vascularizada da unha.
Conclusão
Manter a pelagem e a higiene do Pastor dos Pirenéus é um exercício de observação e constância. Não existe um protocolo universal que funcione exatamente igual para todos os cães da raça, pois o estilo de vida, o ambiente e a individualidade biológica ditam as regras do jogo. Ao adaptar a frequência dos cuidados à realidade do seu animal e manter um diálogo aberto com o veterinário, você garante que a rusticidade e a energia dessa raça se mantenham saudáveis por muitos anos.







