Tartaruga se coça muito: o que pode ser?

Você percebeu que seu bicho de casco está passando o dia inteiro se espremendo contra as pedras, raspando o pescoço e as patinhas nas decorações do tanque. A primeira reação pode ser achar que ele está apenas se espreguiçando de um jeito esquisito, mas ver o animal inquieto desse jeito faz qualquer tutor ligar o sinal de alerta.
Afinal, tartaruga se coça muito: o que pode ser? Na imensa maioria das vezes, essa coceira insistente indica desde o processo natural de troca de pele até infestações por parasitas, infecções por fungos, bactérias ou problemas na qualidade da água e na alimentação.
Como esses animais não têm braços flexíveis ou mãos para coçar as costas e as dobras do corpo, eles usam o que têm por perto. Pedras, troncos, rampas e até as paredes do recinto viram ferramentas de alívio. Mas quando essa fricção vira rotina exaustiva, o limite entre o comportamento normal e a doença foi ultrapassado.
Vale a pena olhar de perto o que está acontecendo no casco e na pele do seu companheiro para entender a raiz do problema.
A troca de pele não é igual à das cobras
Imagine aquela sensação incômoda de usar uma blusa nova com uma etiqueta costurada torta raspando na nuca o dia inteiro. É mais ou menos isso que a tartaruga sente quando precisa renovar a pele.
Diferente das serpentes, que saem da pele antiga inteira como se tirassem uma luva, os quelônios trocam de pele em pedaços e fragmentos. Conforme o animal cresce, a camada velha se solta em películas translúcidas que flutuam na água ou ficam penduradas nas dobras. O problema é que, se o ambiente estiver muito seco ou o manejo falhar, essa pele morta gruda e aperta, gerando um incômodo tátil enorme que obriga o bicho a se esfregar sem parar.
Nessa hora, bate aquela vontade irresistível de dar uma mãozinha e puxar o pedaço de pele que está solto. Resista bravamente a essa tentação. Puxar a pele a seco machuca, causa micro-hemorragias e abre caminho para infecções bacterianas graves. Se quiser ajudar, um banho de imersão com água morna costuma amolecer o tecido de forma segura, permitindo que o próprio animal se limpe.
Quando a coceira deixa de ser normal
Se o bicho está se raspando de forma desesperada e você nota vermelhidão, manchas estranhas ou feridas, a história muda de figura. O desconforto contínuo costuma apontar para três culpados muito comuns na rotina de quem cria répteis.
O primeiro são os parasitas externos, como ácaros e carrapatas que se escondem nas dobrinhas de pele mais fina, perto das patas e do pescoço. Eles se alimentam do sangue do réptil e injetam substâncias que causam uma coceira enlouquecedora.
O segundo grupo envolve as infecções por fungos e bactérias. Sabe quando a comida estraga ou a água acumula sujeira? No aquaterrário, se a filtragem falha e a água fica suja, o ambiente se transforma no cenário perfeito para microrganismos invadirem a pele do animal. Nos cágados, como o tigre-d'água, os fungos costumam aparecer como manchinhas esbranquiçadas ou com aspecto de algodão na cabeça e nas patas.
Existe ainda o fator ambiental que muita gente ignora. Fechar totalmente a tampa do aquário para manter o calor cria uma verdadeira sauna abafada. Essa falta de ventilação, somada à ausência de uma plataforma seca com lâmpada própria para simular os raios solares, destrói a imunidade da pele do animal e convida os fungos para a festa.
O perigo da automedicação e dos remédios de casa
Diante de um animal se coçando todo, o instinto humano é correr na farmácia ou abrir o armário de casa em busca de uma solução rápida. Com répteis, esse atalho pode ser fatal.
Jamais aplique produtos desenvolvidos para cães, gatos ou humanos em tartarugas e jabutis. Banhos com remédios genéricos ou antiparasitários comuns provocam intoxicações neurológicas severas, causando tremores e convulsões. Existe um medicamento específico para carrapatos e parasitas em mamíferos, a ivermectina, que é absolutamente tóxica e letal para quelônios, causando paralisia irreversível.
Além disso, receitas caseiras encontradas na internet, como banhos agressivos com substâncias químicas fortes, podem queimar a pele sensível do pet em vez de ajudar.
Se a coceira não passa, se o animal perdeu o apetite, se esconde o tempo todo ou apresenta feridas com mau cheiro, o melhor caminho é suspender qualquer experiência caseira e procurar um veterinário especializado em animais silvestres e não convencionais. Só um profissional poderá avaliar os parâmetros do recinto, examinar as lesões de perto e indicar o tratamento exato para devolver o bem-estar ao seu companheiro de casco.




