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Setter inglês: características, temperamento e cuidados

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O Setter inglês é um cão de porte médio a grande, originário da Grã-Bretanha, criado há cerca de 400 anos para localizar aves de caça e indicar a posição delas ao caçador, agachando-se em silêncio.

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Setter inglês: características, temperamento e cuidados

RaçasPor 🕒 8 min de leitura
Ilustração de cachorro

Imagine a cena: você está no parque e vê um cão elegante, de pelo longo e sedoso, coberto de pintinhas finas como se alguém tivesse salpicado tinta sobre um fundo branco. Ele corre com entusiasmo de atleta, para, fareja o ar com concentração absoluta e, minutos depois, está deitado calmamente ao lado do tutor como se fosse o cão mais tranquilo do mundo. Você acabou de conhecer um Setter inglês, e essa alternância entre esportista incansável e companheiro sereno resume muito bem a raça.

O Setter inglês é um cão de porte médio a grande, originário da Grã-Bretanha, criado há cerca de 400 anos para localizar aves de caça e indicar a posição delas ao caçador, agachando-se em silêncio. É dessa função que vem o nome: "to set", em inglês, significa agachar ou assentar. Hoje, ele carrega o apelido de "cavalheiro do mundo canino", graças ao temperamento gentil, afável e educado que conquista praticamente todo mundo que convive com um.

Origem e a história por trás da elegância

A raça nasceu do cruzamento de antigos spaniels com o Pointer espanhol, mas a forma que conhecemos hoje tem nome e sobrenome: Edward Laverack. Em 1825, ele adquiriu um casal de cães chamados Ponto e Old Moll e, a partir deles, desenvolveu a linhagem que definiu o padrão moderno. Depois dele, Richard Purcell Llewellin refinou ainda mais o trabalho, com foco na aptidão para caça.

Um detalhe que vale esclarecer de cara, porque gera confusão frequente: o Setter inglês, o Setter gordon e o Setter irlandês não são "versões de cores diferentes" da mesma raça. São três raças completamente distintas, com origens e padrões próprios. Quem acha que é só trocar a cor está misturando capítulos de livros diferentes.

Existe também uma curiosidade que pouca gente sabe: no Reino Unido, o Setter inglês é oficialmente classificado como "raça nativa vulnerável", ou seja, uma raça britânica tradicional com menos de 300 filhotes registrados por ano. Nos anos 1980, eram mais de 1.200 registros anuais; em 2017 e 2018, o número ficou abaixo de 300. Um cão tão encantador correndo o risco de virar raridade é, no mínimo, uma injustiça canina.

Aparência: o que é esse tal de "belton"?

O Setter inglês é um cão de linhas elegantes e limpas, com cabeça longa e porte alto. Os machos medem oficialmente entre 65 e 69 cm na cernelha (65 a 68 cm pelo padrão da FCI) e as fêmeas entre 61 e 65 cm. Cães de linhagens de trabalho, voltados à caça prática, costumam ser proporcionalmente mais leves que os de exposição.

A pelagem é longa, sedosa e levemente ondulada, com franjas nas patas e coxas. Mas o que chama atenção mesmo é o padrão de cor, que tem nome próprio: "belton". O termo vem da vila de Belton, em Northumberland, e foi popularizado pelo próprio Laverack. Belton não é uma cor, é o padrão salpicado sobre fundo branco, como confeitos finos espalhados por cima do pelo. As variações são blue belton (preto e branco), orange belton, lemon belton, liver belton (fígado e branco) e tricolor. Uma exceção curiosa do padrão: os olhos devem ser marrom-escuros, mas tons de avelã são aceitos exclusivamente nos cães liver belton.

Temperamento: o cavalheiro que mora no sofá

Aqui está a parte que mais interessa a quem pensa em ter um. O Setter inglês é extremamente afetuoso, sociável e gentil, inclusive com crianças e outros animais. Dentro de casa, tende a ser calmo e silencioso, daqueles que se acomodam no sofá como se pagassem aluguel.

Mas atenção ao asterisco: essa calmaria doméstica é conquistada, não herdada. Ele só é tranquilo dentro de casa quando gasta energia fora dela. Estamos falando de um cão de caça com fôlego de maratonista. Passeios de dez minutos no quarteirão não vão resolver; ele precisa de exercício diário de verdade, como caminhadas longas, corridas em áreas cercadas ou acompanhar o tutor em pedaladas. Um Setter entediado é um Setter criativo, e a criatividade canina raramente combina com móveis intactos.

Sobre adestramento, um aviso importante: essa é uma raça profundamente sensível. Repreensões severas ou punições físicas fazem o cão se fechar e perder a confiança no tutor, como uma criança delicada que recebe bronca gritada. O caminho é reforço positivo, começando cedo, com paciência e recompensas. Com esse método, ele responde lindamente.

E prepare-se para um hábito clássico: o "counter surfing", a arte de esticar o pescoço para inspecionar bancadas, pias e até a lava-louças aberta em busca de comida. Com um olfato de cão de caça e apetite generoso, deixar o resto do almoço dando sopa na bancada é praticamente um convite formal. A raça também tem tendência à obesidade, então porções controladas fazem parte do pacote.

Cuidados práticos no dia a dia

Pelagem e orelhas

A pelagem sedosa pede escovação semanal com escova de cerdas macias e pente metálico de dentes longos, para evitar nós nas franjas. Banhos a cada 4 a 6 semanas, com tosas higiênicas e atenção à face e às patas, costumam ser suficientes.

As orelhas merecem parágrafo próprio. Por serem pendentes (caídas e cobrindo o canal auditivo), criam um ambiente quente e úmido perfeito para inflamações. Otite externa, que é a inflamação do ouvido, está entre os problemas mais frequentes da raça, então limpeza e inspeção regulares são obrigação, não detalhe. Sacudir a cabeça com frequência, coçar as orelhas, mau cheiro ou secreção são sinais de que o veterinário precisa entrar na jogada.

A regra dos 2 anos

Este ponto merece destaque porque muita gente erra nele: nada de exercícios de alto impacto ou esforço extenuante antes dos 2 anos de idade. Corridas longas, saltos e piso escorregadio estão vetados nessa fase, porque os ossos e articulações ainda estão se formando e lesões nesse período podem deixar sequelas permanentes. Filhote brinca, passeia e explora, mas o treino de atleta só depois da maturidade esquelética.

Na alimentação, filhotes comem três vezes ao dia até cerca de 1 ano; depois disso, passam para duas refeições diárias.

Emergência que todo tutor deve conhecer

Por ter o peito profundo, o Setter inglês está no grupo de risco da dilatação vólvulo-gástrica, conhecida como "torção de estômago". É uma emergência grave: o estômago dilata e pode torcer, e cada minuto conta. Os sinais são tentativas de vomitar sem conseguir, salivação intensa, abdômen estufado e rígido, inquietação e prostração. Viu esse conjunto? Não espere, não pesquise na internet, vá direto ao veterinário.

Saúde: o que observar e o que exigir do criador

A expectativa de vida mediana relatada no Reino Unido é de cerca de 11 anos e 7 meses, com o câncer como principal causa de morte, algo comum em raças de porte maior. As prioridades de saúde da raça incluem dermatite atópica (alergia de pele, que aparece como coceira intensa, lambedura de patas e vermelhidão), hipotireoidismo (ganho de peso sem explicação, letargia, pelagem opaca) e displasia coxofemoral (má formação do quadril).

Se você pretende comprar um filhote, aqui vai o filtro que separa criadores sérios de vendedores de cachorro. Um criador responsável apresenta, sem você precisar implorar:

  • Avaliação radiográfica de quadril e cotovelo dos pais, para displasia
  • Teste auditivo BAER, que detecta surdez congênita (sim, a raça tem predisposição, então filhote que não reage a sons merece investigação)
  • Exames de DNA para NCL8 (uma doença neurológica degenerativa) e PRA-rcd4 (degeneração progressiva da retina)
  • Painel de tireoide, dado o risco de hipotireoidismo na raça

Criador que desconversa sobre exames está entregando a resposta sem perceber.

Setter inglês em apartamento: dá ou não dá?

Dá, com uma condição inegociável. O tamanho da casa importa menos que a rotina de exercício. Um Setter que corre e fareja diariamente lá fora vive muito bem em apartamento e vira aquele companheiro sereno do sofá. Um Setter confinado sem gasto de energia, mesmo numa casa enorme com quintal, vai sofrer e fazer você sofrer junto. O quintal, aliás, não exercita ninguém sozinho; ele é só um cômodo a mais.

Para fechar a conversa

O Setter inglês entrega uma combinação rara: beleza de exposição, história de cão de trabalho e um coração genuinamente gentil. Em troca, ele pede exercício diário de verdade, paciência nos primeiros dois anos, cuidado constante com orelhas e pele, e um tutor que prefira orientar a punir. Se esse combinado cabe na sua rotina, você terá ao lado um dos companheiros mais equilibrados e carinhosos do mundo canino. E da próxima vez que vir um cão salpicado no parque, já sabe: aquilo tem nome, e o nome é belton.

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