Schapendoes: características, temperamento e cuidados

Sabe aquele dia em que você cruza com um cachorro na praça e pensa que ele parece uma mistura carismática de esfregão com ursinho de pelúcia, mas que se move como se flutuasse? Pois é, aquilo provavelmente era um Schapendoes. Se um amigo te perguntasse do nada sobre essa raça, o Schapendoes é um cão de pastoreio de porte médio, ali entre os quarenta e cinquenta centímetros de altura na cernelha, vindo lá dos Países Baixos, conhecido por sua rusticidade invejável, um jeito muito alegre de ver a vida e uma pelagem farta que exige trabalho sério de manutenção, mas que nunca, em hipótese alguma, deve ser toscada. Parece simples, mas quem olha para aquela cabeleira toda costuma cair em armadilhas logo no primeiro mês. Vamos conversar sobre o que realmente significa conviver com um desses.
De onde veio essa figura peluda?
Para entender o bicho, vale voltar um pouco no tempo. Eles surgiram nas terras baixas da Holanda, criados para o trabalho duro de guiar ovelhas em terrenos difíceis. Não estamos falando de cães criados em palácios, mas de parceiros de camponeses que precisavam aguentar longas rotinas comendo pouco. É o que os criadores chamam de cão rústico e moderado. Durante a Segunda Guerra Mundial, a raça quase desapareceu. Foi graças ao esforço de um cinólogo chamado P.M.C. Toepoel e de outros entusiastas que os exemplares restantes na região de Drenthe foram reunidos para salvar a linhagem. A seleção priorizava a utilidade e a inteligência acima da estética pura, o que moldou o espírito vibrante que você vê hoje quando o cão corre pelo parque.
O mito do pelo e a tentação da tesoura
A primeira grande discussão com qualquer tutor iniciante de Schapendoes envolve a pelagem. A cena clássica acontece no primeiro verão quente: o tutor olha para aquela massa de pelos longos, sente calor só de olhar e pensa seriamente em passar a máquina zero no cachorro. Segure essa tesoura. A pelagem dupla do Schapendoes funciona como o isolamento térmico de uma casa bem construída. Tem um subpêlo macio que guarda o calor no inverno e afasta o bafo quente no verão, além de uma capa externa seca e resistente. Se você tosquiar o cão, estraga esse sistema natural de termorregulação e ainda deixa a pele exposta a queimaduras solares e picadas de insetos. E tem aquela história sobre a franja. Muita gente acha que o cabelo caindo nos olhos cega o animal. A verdade é que eles enxergam perfeitamente através daquela cortina natural. Além disso, o topo da cabeça peludo cumpre uma função biológica importante ao proteger a visão contra os raios ultravioleta. Se o cachorro for participar de uma prova de agilidade ou esporte, a solução aceita é prender a franja com um elástico macio, e nunca cortar.
Como cuidar dessa cabeleira sem perder a paciência
Esqueça o banho frequente. Banhos desnecessários tiram a oleosidade natural que torna o pelo autolimpante, deixando os fios moles e propensos a acumular mais sujeira. O banho só entra em cena em situações extremas, como quando o cão decide rolar na lama ou em algo impublicável. A manutenção real é feita com um pente de dentes largos e a técnica de pentear por camadas. Você levanta o pelo no sentido contrário ao crescimento e trabalha com calma, indo da base das patas até a coluna, por seções paralelas. Se o animal vier da chuva com o pelo úmido, o segredo é secar bem com uma toalha e garantir que não fiquem áreas abafadas, evitando odores e irritações na pele.
A fase rebelde da adolescência
Se você acha que a escovação semanal é tranquila, espere o cão chegar entre os oito e doze meses de idade. É a fase da muda adolescente, o equivalente canino a um jovem trocando o guarda-roupa inteiro e reclamando de tudo. Nesse período, a pelagem de filhote dá lugar à adulta e os nós parecem se multiplicar sozinhos durante a noite. A escovação, que era semanal, vira rotina diária. Se o cachorro resolver testar sua autoridade e achar que pentear é opcional, a dica prática é chamar alguém para ajudar. Um segura os petiscos e faz carinho, enquanto o outro desfaz os nós delicadamente com os dedos, sempre das pontas para a raiz, evitando ao máximo usar a tesoura perto da pele. É um teste de paciência mútua que consolida a amizade para os próximos anos.
O motor de mola maluca e a cabeça pensante
Por trás de todo aquele volume, existe um atleta nato. O movimento do Schapendoes é incrivelmente elástico, parecendo uma mola maluca saltando por cima de poças e troncos com uma facilidade impressionante. Essa energia toda vem acompanhada de uma inteligência afiada. Como todo bom cão de pastoreio, ele foi selecionado para tomar decisões por conta própria no campo. Se você não estabelecer regras claras e consistentes desde o início, ele assume o comando da casa com a maior educação do mundo, encontrando utilidades criativas para os seus sapatos.
No quesito saúde, a raça costuma ser bastante resistente, com uma expectativa de vida que frequentemente passa dos doze anos. Ainda assim, criadores sérios nos Países Baixos e em outros lugares exigem testes genéticos rigorosos antes da reprodução, especialmente para controlar a atrofia progressiva generalizada da retina, uma condição hereditária que afeta a visão noturna, além de exames oculares específicos. Se notar qualquer hesitação do animal em ambientes com pouca luz, vale a pena consultar o veterinário para uma avaliação completa. Ter um Schapendoes é aceitar que a sua casa nunca mais será totalmente livre de pelos soltos e que as pessoas na rua vão parar você para perguntar que raça é aquela. Em troca, você ganha uma sombra peluda, leal e dona de uma alegria contagiante para qualquer caminhada.






