São Bernardo: características, temperamento e cuidados

Imagine que você acabou de abrir a porta da sala e deu de cara com um animal do tamanho de um sofá pequeno, que te olha com uma expressão de profunda sabedoria e decide deitar bem no meio do caminho para a cozinha. É bem provável que você esteja imaginando um São Bernardo. Afinal, essa raça gigante nascida nos Alpes Suíços carrega a fama de ser um verdadeiro colosso de pelagem espessa e coração mole.
O São Bernardo é um cão originado no Hospício do Passo do Grande São Bernardo, nos Alpes, onde monges agostinianos o utilizavam para a guarda e para o resgate de viajantes soterrados na neve a partir do século XVII. Morfologicamente, trata-se de um gigante musculoso, que pode ultrapassar facilmente os oitenta quilos nos machos, exibindo uma cabeça massiva, focinho curto e um temperamento notavelmente paciente, sobretudo com crianças. Desenvolver a convivência com um cão desse porte exige entender que o amor incondicional vem acompanhado de uma logística doméstica bem particular. Não estamos falando apenas de alimentar um pet comum, mas de gerenciar um animal que alcança a altura de uma mesa de jantar.
Pelo curto ou pelo longo, qual era o verdadeiro cão dos monges?
Muita gente associa a raça àquela imagem clássica de um cão peludo enfrentando tempestades de neve. A verdade histórica é um pouco diferente. O São Bernardo divide-se em duas variedades oficiais, o de pelo curto e o de pelo longo, mas apenas o primeiro era usado nas missões de resgate nas montanhas. Por volta de 1830, cruzamentos experimentais com cães Terra-Nova trouxeram a pelagem longa para a linhagem. No entanto, o pelo comprido provou ser um tormento no frio extremo. A neve e o gelo acumulavam-se na pelagem, aumentando o peso do animal e o incapacitando rapidamente. Os monges, então, mantiveram apenas os exemplares de pelo curto no trabalho de patrulha e distribuíram os de pelo longo entre os moradores dos vales.
Ambas as variedades compartilham a mesma estrutura física imponente e as tradicionais marcações em branco, vermelho ou mogno pelo corpo. Só que o manejo da pelagem muda bastante na rotina. Enquanto o pelo curto pede escovação semanal, a versão de pelagem longa exige atenção redobrada, principalmente nas épocas de muda sazonal, quando o volume de subpelo solto exige sessões diárias de escovação para evitar nós e manter a pele saudável.
O desafio silencioso da torção gástrica
Existe um ponto crítico de saúde que todo tutor de um São Bernardo precisa conhecer a fundo, pois dita as regras da rotina diária. Devido ao tórax profundo e ao grande volume corporal, a raça apresenta uma predisposição marcante para a Dilatação-Vólvulo Gástrica, conhecida popularmente como torção gástrica. Trata-se de uma emergência médica hiperaguda na qual o estômago se enche de gás ou alimento e sofre uma rotação sobre o próprio eixo, cortando o retorno sanguíneo e levando ao colapso sistêmico. Para prevenir esse risco terrível, o manejo alimentar precisa ser disciplinado. Esqueça a ideia de encher um pratão de ração uma única vez por dia. O ideal é fracionar a porção diária em pelo menos duas refeições menores.
Outro detalhe que costuma surpreender os tutores é o uso de comedouros. Embora pareça elegante elevar a tigela para o cão não precisar abaixar tanto o pescoço, estudos epidemiológicos comprovaram que os comedouros elevados aumentam significativamente o risco de torção gástrica em raças gigantes. O recipiente deve ficar mesmo no chão. Além disso, aquela cena clássica do cão correndo atrás da bolinha logo após o almoço está proibida. O protocolo exige repouso absoluto por pelo menos uma hora antes e duas horas depois de comer. Qualquer agitação nesse intervalo aumenta perigosamente a chance de o estômago girar.
Quanto espaço e exercício um gigante realmente precisa?
Existe o mito de que cães gigantes exigem quintais imensos e corridas exaustivas todos os dias. Na prática, o São Bernardo costuma adotar um comportamento bastante tranquilo dentro de casa, muitas vezes ganhando o apelido carinhoso de tapete ambulante. Ele precisa de exercício moderado, como uma caminhada longa ou uma sessão de brincadeira de trinta minutos diários, o que é suficiente para mantê-lo ativo sem sobrecarregar as articulações.
Mas há um detalhe ambiental incontornável: o calor. Por causa da pelagem densa e do porte massivo, esses cães sofrem muito com temperaturas elevadas. Em uma tarde abafada de verão, você provavelmente vai encontrá-lo esticado no piso frio de porcelanato da sala, buscando qualquer cantinho ventilado para se refrescar. Passeios sob sol forte ou umidade alta estão fora de cogitação. A força física do animal também exige atenção desde cedo. Um filhote cresce rápido e, em poucos meses, ganha músculos suficientes para derrubar um adulto desprevenido na guia. Por isso, as aulas de adestramento básico e a socialização precoce não são opcionais. Ensinar o cão a não pular nas visitas e a caminhar calmamente ao lado do tutor é uma questão básica de segurança para todos na casa.
O que verificar na saúde antes de levar um filhote para casa?
A expectativa de vida de um cão tão grande costuma ser mais curta, girando em torno de oito a dez anos. Proteger esse tempo de vida passa por escolhas cuidadosas na seleção do filhote e pelo acompanhamento veterinário preventivo ao longo da vida adulta. Um criador responsável precisa apresentar laudos de exames específicos recomendados para a raça. Isso inclui a avaliação oficial de displasia de quadril e de cotovelos, exames cardiológicos, avaliações oftalmológicas periódicas e testes de DNA para descartar a Mielopatia Degenerativa, uma condição neurológica hereditária que afeta a medula espinhal.
Cuidar de um São Bernardo é um exercício diário de paciência, espaço e atenção aos detalhes anatômicos e digestivos. Em troca dessa dedicação, o tutor ganha a companhia de um protetor leal e silencioso, cuja presença imponente na sala é superada apenas pela tranquilidade com que ele conduz o dia a dia da família.






