Ring Neck cobalto fala, canta ou imita sons?

Você chega em casa depois de um dia longo, abre a porta e a sala é tomada por um som agudo, repetitivo e insistente que parece vir direto da pelagem azul-acinzentada do seu novo companheiro de penas. Naquele exato segundo, você se pega pensando se comprou um pássaro falante ou apenas um alarme de incêndio emplumado.
Sim, o Ring Neck cobalto tem total capacidade anatômica e cognitiva para reproduzir a fala humana, assovios e sons do ambiente, mas ele faz isso por mimetismo vocal e não porque emite um canto melodioso estruturado como o de um canário.
Muita gente olha para a plumagem elegante e intensa desse periquito, com seu azul profundo que lembra metal escovado, e automaticamente assume que o animal carrega algum superpoder intelectual escondido na cor. A genética das cores, como o tom cobalto, mexe estritamente com a pigmentação das penas e o fenótipo visual. A inteligência, a curiosidade e o aparelho vocal continuam sendo exatamente os mesmos de qualquer outro periquito-de-colar, seja ele verde clássico, amarelo ou branco. Ele não é mais inteligente por causa da cor da roupa que veste, por mais nobre que o visual possa parecer.
Aves dessa espécie não possuem cordas vocais na laringe. O som que sai daquele bico curvado é produzido na siringe, um órgão localizado na bifurcação da traqueia, onde membranas vibram com a passagem do ar. O Ring Neck não entende o conceito abstrato das palavras da nossa língua. Ele funciona como um espelho sonoro do bando. Para ele, nós somos a família dele, e repetir certas palavras ou barulhos é apenas uma tentativa sofisticada de se enturmar e fazer parte da rotina da casa.
Outra confusão comum é esperar que ele cante músicas elaboradas. O Ring Neck não é uma ave canora da ordem dos Passeriformes, aquelas que a gente costuma associar a melodias fluidas e complexas. O repertório natural dele inclui chamados sociais agudos, pios de contato e assovios. Quando ele aprende a imitar palavras, você percebe que a voz costuma ter um timbre metálico ou robótico, bem característico.
Machos, fêmeas e a loteria da fala
Existe um mito persistente de que apenas os machos aprendem a falar, relegando as fêmeas ao papel de observadoras silenciosas. A anatomia não faz distinção de gênero nesse quesito. Tanto machos quanto fêmeas possuem o aparato físico necessário para o mimetismo vocal. O que costuma acontecer é que os machos adultos, por volta de um ano e meio de idade, quando ganham aquele colar marcante ao redor do pescoço, tendem a exibir comportamentos de cortejo mais chamativos, o que inclui um repertório de vocalizações mais ativo. Ainda assim, fêmeas devidamente estimuladas também podem falar e imitar assovios com facilidade.
A grande verdade é que nem todo Ring Neck vai falar. A fala depende de uma mistura delicada de fatores: a idade em que o treino começou, o nível de interação com os tutores e a própria personalidade do indivíduo. Algumas aves simplesmente preferem o silêncio ou limitam-se a alguns assovios esporádicos, enquanto outras viram verdadeiras matracas.
Quando o assunto é treino, o caminho nunca passa pela bronca ou pelo castigo. Se o seu periquito solta um grito ensurdecedor e você corre para brigar com ele, o cérebro da ave processa a situação de um jeito bem peculiar: para ela, qualquer atenção é lucro. O grito serviu para trazer você até o poleiro, o que acaba recompensando e fixando o comportamento indesejado. É a famosa armadilha da atenção.
Como ensinar sem perder a paciência
O aprendizado de verdade acontece quando você aposta no reforço positivo, sem fórmulas mágicas. O melhor horário para tentar ensinar uma palavra curta, como oi ou tchau, costuma ser nos momentos de maior calmaria, logo cedo pela manhã ou no final da tarde. Diga o termo de forma bem clara e pausada e, assim que a ave tentar imitar ou pelo menos demonstrar interesse, ofereça um petisco que ela adore ou demonstre carinho com um tom de voz tranquilo.
Vincular palavras a ações cotidianas acelera bastante o aprendizado. Falar bom dia na hora em que você tira a capa da gaiola ou dizer tchau toda vez que atravessa a porta ajuda o animal a entender o contexto daquele som.
A rotina de sono também mexe diretamente com o comportamento vocal. Se o seu periquito passa o dia inteiro gritando sem parar, vale a pena observar o relógio. Aves que não descansam o período adequado, que fica entre dez e doze horas por dia em um espaço escuro e silencioso, costumam ficar estressadas e barulhentas no dia seguinte. Pense nele como aquela criança que perdeu a hora de dormir e decide transformar a sala em um caos completo só porque está exausta.
O enriquecimento ambiental é outro ponto que não dá para ignorar. Um bico desocupado precisa de ocupação urgente. Disponibilizar galhos de árvores que não sejam tóxicas para roer, brinquedos de papelão para destruir e comedouros onde ele precise quebrar a cabeça para achar a comida evita o tédio profundo, principal causador de gritos excessivos.
Quando o silêncio ou o grito exigem cuidado veterinário
Se a sua ave é daquelas bem barulhentas e, de repente, fica de uma quietude suspeita, ou se a voz dela muda de repente, ficando rouca ou com chiados na respiração, o buraco é mais embaixo e não tem relação com falta de treino. Mudanças bruscas no som ou a perda da voz apontam para infecções respiratórias ou problemas na siringe, exigindo consulta com um veterinário especialista em pets não convencionais. Os bichos costumam disfarçar o mal-estar até o limite.
Existe ainda um perigo silencioso e fatal que qualquer dono de ave precisa saber de cor: os vapores de panelas antiaderentes de Teflon quando superaquecidas. Ao atingirem temperaturas muito altas, esses revestimentos soltam micropartículas e gases que não têm cheiro nem cor, mas provocam uma pneumonia fulminante nas aves, matando em poucos minutos. Por pura segurança, o poleiro jamais deve ficar na cozinha ou perto de fogões com esse tipo de material.
Antes mesmo de se preocupar com o dicionário do bichinho, convém lembrar que o Ring Neck é uma espécie exótica regulamentada. A aquisição legal exige nota fiscal e uma anilha fechada na pata que comprove a origem em um criadouro comercial autorizado pelos órgãos de controle. Acertar na procedência é o começo de tudo.
O Ring Neck cobalto não vai declamar sonetos pela casa, mas, com dedicação, reforço positivo e respeito ao jeito dele, é bem provável que esse pequeno habitante azul encontre um jeito todo próprio de participar das conversas da família.




