Qual é o temperamento do Bluetick Coonhound?

Se você já tentou conversar com um Bluetick Coonhound enquanto ele decidia cheirar cada pedacinho de uma moita na calçada, sabe muito bem que a palavra dele é mera sugestão, ou melhor, o nariz dele é que comanda o espetáculo inteiro. O Bluetick Coonhound é um cão leal, extremamente afetuoso e brincalhão com a família, mas esconde um espírito de caçador tenaz que simplesmente entra em transe assim que capta um rastro interessante no ar.
A grande questão sobre o temperamento dessa raça é que ela vive em dois mundos completamente diferentes. Dentro de casa, o cão costuma ser um doce de criatura, daqueles que adoram esticar as pernas no sofá e acompanhar o tutor para cima e para baixo. No entanto, coloque esse mesmo animal em uma trilha ou em uma praça aberta, e a simpatia doméstica dá lugar a um investigador implacável de odores invisíveis. Quem olha para o Bluetick relaxado na sala pode achar que adotou um bicho de pelúcia gigante. Eles apreciam a companhia humana, são pacientes com crianças e costumam receber visitas com uma simpatia surpreendente para quem foi criado para o trabalho duro. Aquele cachorro que viaja no banco do carro com a cabeça apoiada na janela, parecendo um passageiro entusiasmado, é o mesmo que vira uma força da natureza quando ganha um estímulo externo no olfato.
Essa dualidade existe porque estamos falando de um sabujo clássico de grande porte. Historicamente selecionados para seguir pistas antigas que já se dissiparam um pouco pelo ambiente, esses cães possuem uma persistência fora do comum. Enquanto outras raças buscam presas recentes e desistem rápido se o alvo some, o Bluetick investiga cada centímetro quadrado com paciência cirúrgica. Mas o que acontece com a obediência na rua? Aquele momento em que você chama o cachorro pelo nome e ele finge que você é apenas uma rajada de vento tem nome e explicação. É o famoso foco olfativo extremo que gera a chamada escuta seletiva.
A realidade da obediência e o mundo lá fora
Não adianta se frustrar achando que o animal perdeu a inteligência ou que ele é teimoso por pura maldade. Na cabeça dele, o rastro que ele encontrou no meio do mato é a única coisa que importa naquele segundo exato. É por essa exata razão que o uso da guia em locais abertos não cercados é inegociável. Deixar um Bluetick solto em uma área sem muros é pedir para passar um bom sufoco correndo atrás dele enquanto ele ignora qualquer comando de retorno.
Outro detalhe que costuma testar a paciência na rotina é a vocalização. Eles emitem aquele latido uivado e prolongado, herança dos tempos em que precisavam avisar exatamente onde a presa estava escondida. Em um apartamento ou em uma casa colada na do vizinho, esse som ressonante pode virar um problema diplomático de respeito. Tentar espremer a energia desse animal em espaços reduzidos costuma ser um erro monumental. O nível de atividade deles é muito alto, exigindo caminhadas vigorosas todos os dias e desafios mentais para ocupar a cabeça. Sem uma boa rotina de gasto físico, o tédio aparece rapidinho. E um cão entediado, inteligente e com aquele vozeirão vai dar um jeito de se divertir, seja destruindo o lixo, roendo o rodapé ou cantando para a lua. Um quintal cercado e seguro é o cenário ideal para que ele possa queimar calorias sem transformar a sala em uma zona de guerra.
Saúde, cuidados e o dia a dia com a raça
Além de gastar a energia desse atleta canino, o tutor precisa ficar de olho em algumas fragilidades típicas da raça. Por terem o peito profundo, os Bluetick Coonhounds apresentam risco para a torção gástrica, um problema grave em que o estômago do cão gira sobre si mesmo e que exige socorro veterinário imediato. Dividir a ração em porções menores ao longo do dia e evitar corridas logo após as refeições são medidas simples que ajudam a prevenir esse susto na rotina. A displasia de quadril, que é a má formação na articulação, e problemas oculares como a catarata também entram na lista de pontos que merecem acompanhamento clínico regular. Como as orelhas deles são compridas e caídas, o fluxo de ar ali dentro é menor, o que pede aquela checagem e limpeza semanal para evitar infecções e inflamações chatas.
A convivência com um sabujo dessas proporções exige aceitar que a casa dificilmente será um templo de silêncio absoluto. Quando o carteiro passa pelo portão ou quando um barulho estranho ecoa no corredor, a resposta vocal tende a ser imediata. Isso acontece porque a vigilância faz parte da herança de trabalho desses cães, que precisavam avisar os caçadores sobre qualquer movimentação na mata. Para quem aprecia um animal comunicativo, essa característica tem o seu charme. Para quem valoriza o sossego e a discrição sonora acima de tudo, o cenário exige adaptação e muita paciência.
Outro ponto que pega os tutores de surpresa é a curiosidade insaciável dentro de casa. Um Bluetick usa o olfato privilegiado para revirar armários baixos, caixas de sapato e qualquer cantinho que guarde o mínimo vestígio de comida. Deixar pacotes de petiscos ou alimentos sobre a pia da cozinha é um convite irrecusável para uma operação de furto canino bem-sucedida. Por isso, manter a despensa bem fechada e as lixeiras devidamente travadas passa a ser uma regra de ouro na convivência diária.
No fim das contas, ter um Bluetick Coonhound por perto significa aceitar a independência daquele nariz e encarar o desafio de mantê-lo sempre ativo. Em troca, você ganha um companheiro devotado, divertido e com uma personalidade marcante que transforma qualquer passeio comum em uma verdadeira expedição.






