Problemas de saúde comuns no Cão pastor islandês

Imagine a cena: você acabou de trazer para casa um filhote de Cão pastor islandês, aquela bolinha de pelo com cara de raposa que não para quieta nem para tirar foto. Aí, pesquisando sobre a raça, você esbarra em termos como "membrana pupilar persistente" e "catarata hereditária" e o coração dá aquela apertada. Respira. O Cão pastor islandês é, no geral, uma raça rústica e saudável, e os problemas de saúde mais documentados nele são alterações nos olhos. A mais frequente é a membrana pupilar persistente, seguida pela catarata hereditária. E a boa notícia chega junto: a maioria absoluta dos cães avaliados tem os olhos completamente normais.
Agora vamos conversar sobre o que isso significa de verdade, sem susto e sem romantismo.
Um cão feito para as montanhas, não para a mesa de cirurgia
Antes de falar de doença, ajuda entender quem é esse cachorro. O Cão pastor islandês desce dos cães que os vikings levaram para a Islândia lá pelo século IX, e passou séculos pastoreando ovelhas em terreno acidentado, frio e implacável. Raça que não aguenta o tranco simplesmente não sobrevive a esse tipo de seleção natural. O resultado é um spitz de porte um pouco abaixo do médio, ágil, resistente e dono de um latido que ele usa com entusiasmo considerável.
Isso importa porque explica o quadro geral: não estamos falando de uma raça famosa por uma lista interminável de problemas genéticos. O acompanhamento de saúde mais organizado que existe sobre ela vem de exames de triagem oftálmica, como os registrados em programas da Orthopedic Foundation for Animals nos Estados Unidos. E o que esses números mostram? Cerca de três quartos dos cães examinados tinham os olhos totalmente normais. Sim, você leu certo: a grande maioria passa no exame sem nenhuma alteração.
A tal da membrana pupilar persistente
A alteração mais registrada na raça é a membrana pupilar persistente, abreviada como PPM. O nome assusta, mas a explicação é simples. Quando o filhote ainda está na barriga da mãe, os olhos dele são nutridos por uma rede de vasinhos sanguíneos, uma espécie de teia temporária que sustenta o desenvolvimento. Depois do nascimento, essa teia deveria se dissolver sozinha, em geral até os três meses de vida. Em alguns cães, uns fiozinhos "esquecem" de sumir e ficam atravessados na pupila.
Aqui vem o detalhe que muda tudo: existem formas diferentes de PPM. A mais comum no Cão pastor islandês é a chamada íris-íris, em que os filamentos vão de um ponto da íris a outro, sem encostar na córnea nem no cristalino (a lente interna do olho). Essa forma não compromete a visão de maneira relevante. Nas estatísticas de triagem, ela apareceu em cerca de 5,4% dos cães examinados entre 1991 e 2015, e em 2,6% no período de 2016 a 2020. Repare que a frequência caiu, o que sugere que a seleção cuidadosa dos criadores está dando resultado.
Tanto é que, nas diretrizes de reprodução, a PPM íris-íris é classificada como "opção do criador". Traduzindo: não é um impedimento automático para acasalar. A orientação é parear o cão afetado com um parceiro livre da condição e acompanhar a ninhada. Já as formas que aderem à córnea ou ao cristalino são outra história, essas sim podem ameaçar a visão, mas não são o padrão observado na raça.
E um aviso importante para quem tem filhote em casa: se um veterinário encontrar restos vasculares no olho de um bebê de poucas semanas, não entre em pânico. Antes dos três meses, isso pode ser simplesmente o desenvolvimento normal que ainda não terminou. O diagnóstico de PPM só é definitivo quando as estruturas não regridem depois dessa idade.
Catarata: aqui a conversa fica séria
A catarata é a opacificação do cristalino, aquela lente interna que deveria ser transparente para a luz passar e a imagem se formar direito. Quando ela afeta os dois olhos por completo, o resultado é cegueira.
No Cão pastor islandês, a recomendação técnica para reprodução é direta e sem rodeios: cão diagnosticado com catarata de provável origem hereditária não deve acasalar. Não é "depende", não é "opção do criador". É não. A lógica é proteger as próximas gerações de um problema que pode tirar a visão, e essa firmeza faz todo sentido.
Agora, uma nuance que merece atenção: nem toda catarata é hereditária. Um trauma no olho, uma inflamação interna prévia, diabetes ou até deficiências nutricionais podem causar opacidade no cristalino sem envolver genética. Nesses casos, com a causa comprovada, a avaliação reprodutiva pode ser revista pelo veterinário. É o tipo de distinção que só um exame presencial consegue fazer, não uma pesquisa na internet às onze da noite.
E o resto do relatório?
Outras alterações aparecem nas estatísticas da raça, mas em frequências bem baixas. A distiquíase, que são cílios nascendo em posição errada na margem da pálpebra e podendo irritar o olho, ficou abaixo de 1% dos exames. A distrofia corneana, uma opacidade esbranquiçada na córnea sem inflamação, apareceu em meio por cento no período mais antigo e sumiu das estatísticas recentes. Entrópio (pálpebra virada para dentro) e outras anomalias também registraram números mínimos.
Traduzindo: essas condições existem, valem o monitoramento, mas estão longe de definir a raça.
Vale ser honesto também sobre os limites do que se sabe. Não existem publicações científicas detalhando doenças oculares hereditárias exclusivas do Cão pastor islandês. O que temos são os achados dos exames de certificação anuais e a experiência clínica de oftalmologistas veterinários. O modo de herança da PPM e da catarata na raça, aliás, consta oficialmente como "não definido". Então desconfie de quem afirmar com certeza absoluta que é recessivo ou dominante: ninguém sabe ainda.
O exame que todo tutor deveria conhecer
Se você está pensando em comprar um filhote, aqui vai a pergunta que separa criador sério de vendedor de cachorro: "os pais da ninhada fizeram exame oftálmico de certificação?" Esse exame é feito por um veterinário especializado em oftalmologia, com dilatação da pupila e equipamentos que permitem examinar o fundo do olho e as estruturas internas. Pense nele como aquele check-up de vista que a gente faz antes de grandes decisões da vida, só que para o cachorro.
Uma pegadinha importante: esse exame avalia o fenótipo, ou seja, a aparência clínica do olho naquele momento. Ele não é um teste de DNA. Um cão pode ter os olhos perfeitamente normais no exame e ainda assim carregar mutações silenciosas que só apareceriam nos filhotes. É por isso que a triagem precisa ser contínua, repetida ao longo da vida reprodutiva, e não um carimbo único de "apto para sempre".
Para quem não pretende criar, apenas viver a vida com o cão, a lógica é mais simples: observe. Olhe os olhos dele com regularidade, do mesmo jeito que você nota quando ele está mancando ou comendo menos.
Sinais que pedem veterinário sem enrolação
Alguns achados nos olhos não são caso de "vamos observar até semana que vem". Procure atendimento veterinário o quanto antes se notar:
- Opacidade ou aspecto azulado, esbranquiçado ou turvo na córnea ou na pupila;
- Vermelhidão intensa, lacrimejamento excessivo ou secreção;
- Sinais de dor, como manter o olho fechado, piscar demais ou fugir da luz;
- Mudanças de comportamento visual, como esbarrar em móveis ou hesitar em ambientes escuros.
E vale o lembrete de sempre: diagnóstico e tratamento de qualquer condição de saúde exigem avaliação presencial de um veterinário. Nenhum artigo, por mais bem intencionado que seja, substitui o olho treinado de quem examina o seu cão.
O que levar da conversa
O Cão pastor islandês é um companheiro robusto, com um histórico de saúde que faria muita raça famosa morrer de inveja. Os pontos de atenção reais são os olhos: a PPM na forma leve é relativamente comum e raramente um problema, a catarata hereditária é coisa séria e barra a reprodução, e a triagem anual por especialista é a ferramenta que mantém tudo sob controle. Com um criador responsável, exames em dia e um tutor atento aos sinais, as chances são grandes de que o maior desafio de saúde da sua convivência seja conseguir acompanhar a energia dele.








