Por que meu cachorro espirra ao contrário?

Você está sentado na sala assistindo a um filme qualquer e, de repente, seu cachorro começa a fazer um barulho esquisito. Ele estica o pescoço para a frente, abre os cotovelos, arregala um pouco os olhos e começa a puxar o ar de forma muito rápida e ruidosa, parecendo um ronco abafado ou um engasgo contínuo. A cena dura poucos segundos, mas é suficiente para deixar qualquer tutor com o coração na mão, imaginando que o animal está prestes a sufocar. Calma. Se isso já aconteceu na sua casa, a boa notícia é que o seu cachorro não está sufocando. Ele teve o que chamamos de espirro reverso, um reflexo respiratório temporário e totalmente benigno. Mas por que diabos isso acontece? O espirro reverso é um mecanismo reflexo em que o cão aspira o ar de forma rápida e ruidosa pela cavidade nasal para aliviar uma irritação ou cócega na nasofaringe, que é aquela região da garganta localizada logo acima do pálato mole e atrás do nariz.
Para entender melhor, vale comparar com o que a gente conhece. No espirro convencional, o cachorro faz o oposto: ele expulsa o ar com força pelas narinas para limpar a parte da frente do nariz de poeira ou partículas incômodas. No espirro reverso, o fluxo de ar é invertido. O animal puxa o ar ativamente para dentro em acessos curtos para coçar ou limpar o fundo da garganta. Durante o episódio, a postura do cão costuma ser bem chamativa. Ele geralmente fica em pé ou sentado, estica o pescoço e a cabeça para a frente, abre os cotovelos para afastar as patas do tórax e pode ficar com os olhos um pouco arregalados devido à contração dos músculos respiratórios. É perfeitamente compreensível que o tutor se assuste na primeira vez. A gente tende a achar que o bicho engoliu algo errado ou que pegou alguma doença grave. Só que o espirro reverso não é uma doença. É apenas um reflexo mecânico do corpo, desencadeado por coisas simples do dia a dia, como poeira acumulada no chão, fumaça de cigarro, cheiro forte de produtos de limpeza, momentos de muita euforia ou até mesmo quando o cão bebe água e come com pressa demais.
Como identificar a crise e o que fazer no dia a dia
Outro ponto que chama atenção é que cachorros de qualquer idade ou raça podem apresentar o quadro, embora ele seja visivelmente mais comum em cães de pequeno porte e em raças braquicefálicas, aquelas com o focinho achatado, como Pugs, Shih Tzus e Bulldogs Franceses. Nesses animais, a própria anatomia do crânio e da garganta favorece pequenos atritos e o acúmulo de muco na região, servindo de gatilho para o reflexo. A melhor atitude diante da crise é manter a calma. Se você se desesperar, começar a chacoalhar o cachorro ou tentar segurá-lo à força, vai apenas aumentar o nível de estresse e excitação dele, o que costuma prolongar a irritação respiratória em vez de ajudar. O episódio passa sozinho em poucos segundos ou minutos. O animal volta a respirar normalmente como se nada tivesse acontecido, muitas vezes lambendo o focinho logo em seguida e voltando a brincar como se o mundo não estivesse acabando.
Apesar de ser inofensivo na imensa maioria das vezes, existem alguns cuidados práticos que ajudam a reduzir a frequência desses episódios em casa. Se o seu cachorro tem crises recorrentes, vale a pena dar uma olhada no ambiente e nos acessórios que ele usa. Reduzir a exposição a aerossóis, poeira pesada e fumaças em geral já diminui bastante os gatilhos nasais. Além disso, uma medida excelente para cães que passam por isso com frequência é trocar a coleira cervical tradicional por uma guia peitoral anatômica. As coleiras de pescoço exercem pressão direta sobre a traqueia e a garganta sempre que o animal dá um puxão no passeio, o que pode irritar a região e desencadear tanto o espirro reverso quanto outros incômodos respiratórios. Anotar os momentos em que as crises acontecem e, se possível, gravar um breve vídeo no celular para mostrar ao veterinário durante a consulta de rotina é uma ótima maneira de tirar dúvidas com precisão.
Quando o espirro reverso exige atenção veterinária
Existem situações em que o barulho parece um espirro reverso, mas esconde outras condições que exigem investigação profissional. Um exemplo clássico é a diferença entre o espirro reverso e a chamada tosse de ganso, que costuma estar associada ao colapso de traqueia. Enquanto o espirro reverso acontece na inspiração com o ar entrando, a tosse do colapso traqueal é um som seco e ruidoso que ocorre na expiração, quando o ar é forçado para fora por causa do enfraquecimento dos anéis cartilaginosos da traqueia. Se os episódios de espirro reverso passarem a ocorrer todos os dias, durarem tempo demais ou vierem acompanhados de sintomas que fogem do comportamento habitual do pet, o cenário muda de figura.
Procure avaliação veterinária imediata caso o seu cachorro apresente sinais de alerta graves, como coloração azulada ou arroxeada na língua e nas gengivas, episódios de desmaio ou perda de consciência durante a crise, dificuldade intensa para respirar com esforço abdominal visível, presença de secreção nasal com sangue ou pus, além de prostração e febre. Nunca tente administrar xaropes, remédios humanos ou técnicas caseiras sem orientação profissional, pois a automedicação pode mascarar problemas sérios ou causar intoxicações perigosas. Na dúvida sobre qualquer alteração respiratória persistente, deixe que um veterinário examine o seu companheiro e dê o diagnóstico correto.





