Petit Basset Griffon Vendéen é indicado para tutor de primeira viagem?

Imagine que você está na sala de casa, tentando tomar um café em paz, enquanto um pequeno furação de pelos barulhentos e desarrumados decide que o tapete da sala é, na verdade, uma floresta francesa cheia de coelhos imaginários. O Petit Basset Griffon Vendéen, mais conhecido pelas íntimas e carinhosas iniciais PBGV, parece exatamente aquele personagem de desenho animado que age primeiro e pensa bem depois. Diante disso, fica a questão: o Petit Basset Griffon Vendéen é indicado para tutor de primeira viagem?
Não, pelo menos não para a grande maioria das pessoas que nunca tiveram um cão e buscam um companheiro tranquilo logo de cara. Trata-se de um cão de caça francês de pequeno porte e corpo rebaixado, criado originalmente para seguir rastros em terrenos difíceis. Ele carrega uma independência feroz e uma agenda própria que podem enlouquecer quem espera obediência automática e silêncio religioso dentro de casa.
Por trás daquela carinha simpática de coadjuvante de filme fofo, existe um cão que exige manejo firme, suor diário e muita paciência. Mas por que exatamente essa raça assusta tanto os manuais de iniciantes? A vida ao lado desse pequeno explorador envolve uma rotina muito específica de dedicação, tempo livre e disposição para o movimento.
O desafio da independência e do instinto de caça
O principal ponto de atrito para quem está estreando no mundo dos cães é a cabeça dura do animal. A raça tem temperamento alegre, extrovertido e sociável com crianças e outros cães, o que costuma enganar muita gente. Afinal, se ele é um doce com todo mundo, por que seria difícil? O problema não é a falta de carinho, mas a independência operacional.
Pense nele como um detetive obstinado. O PBGV é um sabujo de faro nato. Quando ele decide que existe um cheiro interessante debaixo daquele arbusto na praça, o cérebro dele desliga completamente para qualquer comando verbal do tutor. O treino de retorno ao chamado, aquele famoso comando para o cão voltar correndo quando você grita, precisa ser ensinado desde idade muito jovem e, mesmo assim, vem acompanhado de ressalvas. O mundo externo é sempre mais interessante do que o biscoitinho guardado no seu bolso.
Isso nos leva a uma regra de ouro intransigível. Ele necessita obrigatoriamente de passeios com guia e coleira em qualquer lugar que não seja totalmente cercado por muros altos. Soltar um PBGV em um parque aberto é convite certo para uma maratona de busca, com você correndo atrás de um cão focado em um rastro olfativo enquanto ele ignora completamente seus gritos desesperados. A segurança do animal depende diretamente dessa vigilância constante por parte da família.
Rotina sonora e cuidados com a pelagem rústica
Outro detalhe que costuma chocar tutores novatos é a acústica da casa. O animal possui um latido forte e expressivo típico de sabujo. Não estamos falando de um ganido agudo e irritante de cão miniatura, mas de uma voz grave, ressonante e operística. Se o tédio bate ou se ele quer chamar a atenção para a falta de petiscos, ele faz questão de usar essa voz para narrar os acontecimentos do dia para a vizinhança inteira. Vizinhos em apartamentos com paredes finas podem não compartilhar do mesmo entusiasmo rústico.
E quanto à famosa pelagem rústica com aquela carinha de quem acabou de acordar? A boa notícia é que o visual despenteado é o padrão oficial, então você não precisa gastar uma fortuna com tosas esculturais ou modelagens complexas. A má notícia é que essa pelagem áspera exige escovação semanal rigorosa para remover pelos mortos e evitar nós severos. Se você esquecer a escova no armário por algumas semanas, o pelo vai se transformar em um emaranhado difícil de resolver e que vai exigir tesoura.
A saúde também pede um olhar atento desde o início. Criadores responsáveis devem realizar exames genéticos e clínicos para descartar problemas como o Glaucoma Primário de Ângulo Aberto, uma condição ocular hereditária silenciosa, além de avaliar displasias articulares e questões na coluna. Quando houver qualquer sinal de desconforto locomotor ou ocular, a avaliação veterinária deve ser buscada sem demora para garantir o bem-estar do animal.
Apesar de tudo isso, a raça funciona muito bem sob certas condições. Se você tem um estilo de vida altamente ativo, passa horas ao ar livre, mora em uma casa com quintal muito bem cercado e encara o adestramento como um projeto diário de paciência, o PBGV pode ser um companheiro fantástico. O ditado tradicional da raça resume bem o espírito: ele é um diabo no campo e um anjo no sofá. Só que, para transformar o diabo campestre em um anjo caseiro, o tutor precisa gastar uma quantidade considerável de energia física e mental todos os dias.
Se a sua ideia de primeiro cachorro envolve chegar do trabalho, calçar os chinelos e assistir à televisão com um animal que passa o dia inteiro dormindo no tapete, talvez seja melhor procurar outra raça. Mas, se você quer um parceiro incansável para trilhas, caminhadas e aventuras cotidianas, e tem disposição para impor limites com bom humor, a convivência com esse pequeno francês vai ser qualquer coisa, menos entediante.







