Periquito-australiano pode comer coco?

Você está sentado no sofá, abrindo um coco fresco para fazer uma receita ou beber a água, quando percebe aquele par de olhos curiosos te encarando do alto da gaiola. O periquito-australiano parece interessado em absolutamente tudo o que passa pela mesa, o que faz qualquer tutor se perguntar se pode dividir o lanche com o pequeno morador da casa.
O periquito-australiano pode comer coco apenas de forma ocasional e em porções minúsculas. O coco é um alimento extremamente gorduroso e calórico, devendo atuar unicamente como um petisco esporádico e jamais substituir a ração extrusada que serve de base para a saúde da ave.
Para entender o motivo dessa restrição rigorosa, vale olhar para o estilo de vida que a evolução programou para essa espécie. Na natureza, os periquitos são aves de pequeno porte, pesando poucas gramas, que passam o dia voando longas distâncias em ambientes áridos na Austrália para encontrar sementes secas de gramíneas. Eles são granívoros estritos, adaptados a uma dieta magra e rica em carboidratos complexos de rápida digestão. O pet que vive na sala da sua casa tem uma rotina bem diferente. Mesmo com toda a liberdade para dar voltas pela copa, o gasto energético diário de um periquito doméstico é infinitamente menor do que o de um indivíduo voando quilômetros em busca de alimento. Quando você oferece um pedaço de coco, está entregando uma bomba de gordura e calorias para um organismo que foi desenhado para processar sementes leves.
Existe uma confusão comum entre tutores que criam diferentes espécies. Grandes psitacídeos, como araras e papagaios, possuem uma capacidade fisiológica superior para lidar com sementes oleaginosas e coquinhos ricos em gordura de cadeia média. O periquito-australiano não tem essa mesma carta branca metabólica. Se a polpa de coco for deixada à vontade no comedouro, a ave vai demonstrar preferência imediata pelo item gorduroso e rejeitar a ração balanceada. Essa seleção alimentar equivocada abre caminho para deficiências nutricionais sérias que podem comprometer a vida do animal a médio e longo prazo.
Os riscos do excesso de gordura na rotina da ave
Pense em como seria tentar viver à base de fast-food todos os dias da semana. O ponto crítico com o coco não é nenhuma substância venenosa, mas sim a quantidade brutal de gordura concentrada ali. No organismo de um passarinho que passa o dia dentro de casa, todo esse excesso que não vira energia acaba estocado de forma errada, abrindo portas para a obesidade e para a temida lipidose hepática, que é basicamente o entupimento do fígado por excesso de gordura.
Esse estrago interno acaba aparecendo do lado de fora com o passar do tempo. Aves pesadas demais ou com o fígado sobrecarregado costumam exibir penas sem brilho, unhas e bico crescendo depressa demais, além daquela falta de disposição típica de quem mal consegue sair do poleiro. Por cima de tudo isso, tanta gordura atrapalha o corpo a absorver minerais importantes como o cálcio, sem contar as fezes amolecidas que surgem logo depois da comilança, transformando o que era um agrado numa dor de cabeça veterinária.
O que pode e o que não pode entrar no cardápio
Caso você realmente faça questão de ver o bichinho beliscar um pouco de coco, o preparo precisa ser cirúrgico. A polpa fresca, crua e totalmente livre daquela casca dura pode até aparecer na gaiola, mas em formato de lasca microscópica, do tamanho de um grãozinho de alpiste, bem de vez em quando. Qualquer opção comprada no mercado está fora de cogitação. Coco ralado de saquinho, doces de festa e pedaços cheios de sal, açúcar ou conservantes detonam o sistema digestivo delicado da ave.
Até mesmo a água de coco natural, embora não tenha a gordura da polpa, não deve virar rotina no bebedouro e precisa continuar sendo a boa e velha água filtrada, aceitando no máximo um gole isolado em situações raras. Também o abacate não tem nada a ver com essa história e não pode ser confundido com outras frutas gordurosas. Enquanto o coco só pede cautela pelas calorias, o abacate carrega uma substância chamada persina que é venenosa para os periquitos, precisando ficar longe da gaiola o tempo todo.
Transformando o petisco em brincadeira
Como a quantidade aceitável de coco é praticamente invisível, o truque é fazer esse restinho de nada render uma boa distração. Vale a pena esconder a lasquinha dentro de um pedaço de papel limpo ou de uma fibra vegetal, estimulando o instinto natural de procurar comida que vem de fábrica com eles. Assim, a ave gasta energia bicando, rasgando e caçando o próprio petisco, o que transforma a comilança numa atividade física útil e ainda ocupa aquela cabecinha hiperativa.
Garantir uma rotina saudável significa fazer com que a maior parte do que o periquito come venha da ração própria para a espécie, acompanhada de verduras escuras e legumes frescos. Se você perceber qualquer mudança estranha na rotina do seu amigo de penas, como ficar amuado no canto da gaiola, recusar comida, respirar com esforço ou dar sinais de diarreia, não perca tempo esperando o problema passar sozinho. Leve o bichinho direto a um veterinário especializado em aves para checar o que está acontecendo.
