O Spitz alemão é fácil de adestrar?

Você chega em casa depois de um dia inteiro fora e encontra o Lulu no meio da sala, olhando para você com aquela cara de quem não fez nada, enquanto um chinelo mastigado repousa a seus pés. Ou então: alguém toca a campainha e seu cachorro de três quilos se transforma no sistema de alarme mais barulhento do bairro. Se você já viveu uma cena dessas, provavelmente se perguntou se adestrar um Spitz alemão é tarefa simples ou missão impossível.
Sim, o Spitz alemão é uma das raças mais fáceis de adestrar que existem. E não é exagero de dono apaixonado. Os padrões oficiais da raça, tanto os da cinofilia internacional quanto os dos grandes clubes, como a FCI e o American Kennel Club, descrevem o Spitz como um cão extremamente atento, apegado ao tutor e, nas palavras deles, muito receptivo ao ensino. Isso vale para todas as variedades de tamanho, do Lulu da Pomerânia ao Keeshond.
Mas existe um porém importante, e é ele que separa quem tem sucesso no treino de quem desiste na segunda semana.
Inteligente, sim. Submisso, nem tanto
A primeira coisa para entender sobre o Spitz é que "fácil de adestrar" não significa "obedece automaticamente". Ele aprende comandos com uma velocidade impressionante, de verdade. O problema, se é que dá para chamar assim, é que a raça tem um traço marcante de independência. Ele pensa sozinho.
Sabe aquele aluno brilhante da escola que entendia a matéria em cinco minutos e depois passava o resto da aula inventando distração? O Spitz é exatamente esse aluno. Se o treino é interessante e recompensador, ele brilha. Se o treino é chato, repetitivo ou autoritário, ele simplesmente desliga.
É por isso que o método de adestramento pesa tanto com essa raça. Reforço positivo, ou seja, recompensar o comportamento certo com petisco, elogio ou brincadeira, funciona maravilhosamente bem porque conversa direto com a vontade natural do Spitz de agradar e interagir com você. Já broncas severas, força física ou aquela ideia antiga de "mostrar quem manda" produzem o efeito contrário: o cão trava, se recusa a cooperar e a confiança entre vocês sai machucada.
Então, se alguém te disser que o Spitz é teimoso, desconfie. Na maioria das vezes, o que aconteceu foi um cão inteligente sendo treinado com o método errado.
O alarme de pelúcia
Aqui entra o ponto que mais pesa na vida prática com um Spitz: o latido.
A raça foi selecionada por séculos para ser cão de guarda e alarme. O trabalho original dele era basicamente perceber qualquer coisa estranha e avisar, em volume alto. Esse instinto continua lá, intacto, morando dentro do seu cachorro de apartamento. A campainha, o vizinho no corredor, um saco plástico voando na rua: tudo é digno de alerta.
Muita gente comete o erro de tentar eliminar o latido completamente. Isso é lutar contra a natureza do cão, e lutas contra a natureza costumam terminar em frustração para os dois lados. O caminho certo é outro: ensinar o Spitz a dar o aviso e depois parar. Ele avisa que tem alguém na porta, você confirma que viu, e ele aprende que a missão está cumprida e que calar rende recompensa.
Esse treino precisa começar cedo, ainda filhote. Um Spitz adulto que passou anos latindo para tudo sem nenhum limite desenvolve o que se chama de latido compulsivo, e aí o trabalho fica bem mais difícil. Não impossível, mas bem mais difícil.
Socialização: a metade do adestramento que ninguém vê
Quando se fala em adestrar, todo mundo pensa em "senta", "deita" e "fica". Com o Spitz, metade do trabalho real acontece fora desses comandos, na socialização.
Como a raça é naturalmente desconfiada com estranhos, um filhote que não conhece pessoas diferentes, outros cães, sons urbanos e ambientes variados tende a crescer transformando essa desconfiança em reatividade. É o cachorro que surta toda vez que alguém chega na sua casa ou que não consegue cruzar com outro cão na rua sem escândalo.
A boa notícia é que isso se resolve com exposição gradual e positiva. Passeios em lugares diferentes, visitas de amigos em casa, encontros tranquilos com outros cães: tudo isso ensina ao filhote que o mundo novo não é ameaça. E tudo isso conta como adestramento, mesmo que não pareça.
O tédio é o verdadeiro inimigo
Voltando ao chinelo mastigado do começo do texto. Na maioria dos casos, um Spitz destrutivo não é um Spitz mal educado. É um Spitz entediado.
Essa é uma raça que precisa de estimulação mental diária, não só de passeio. O cérebro dele fica ligado o tempo todo, e se você não der um emprego para essa cabecinha, ela arruma um sozinha. E as vagas que ela preenche por conta própria costumam ser: roer móveis, cavar o sofá e latir para o nada.
A solução não precisa ser complicada. Algumas ideias que funcionam bem no dia a dia:
- Esconder petiscos pequenos pela sala e deixar o cão procurar, como uma caça ao tesouro
- Brinquedos recheáveis que fazem o cão trabalhar para tirar a comida, perfeitos para dias de chuva
- Sessões curtas de treino, de cinco a dez minutos, ensinando truques novos
- Variar os caminhos do passeio para ele cheirar coisas diferentes
Repare no detalhe das sessões curtas. Com um cão que aprende rápido e se entedia rápido, três treinos de cinco minutos rendem muito mais do que um treino de meia hora. Repetir o mesmo comando vinte vezes seguidas é o caminho mais curto para o Spitz decidir que aquilo não vale a pena.
Um talento desperdiçado no sofá
Se você gosta da ideia de ir além do básico, o Spitz alemão se sai surpreendentemente bem em esportes caninos. A combinação de raciocínio rápido, agilidade física e foco no tutor faz dele um ótimo candidato para modalidades como mini agility, obediência competitiva e até heelwork to music, aquela modalidade em que cão e tutor fazem coreografias com música.
Isso vale como informação prática mesmo para quem não quer competir: mostra o tamanho do potencial que existe ali. Um cão capaz de aprender sequências de obstáculos e coreografias é um cão que, dentro de casa, precisa de mais do que "senta" e "dá a pata" para ficar satisfeito.
E tem um detalhe curioso que ajuda no treino: diferente de raças de caça, que se distraem seguindo rastros e farejando o mundo, o Spitz não tem instinto de caça. A atenção dele fica naturalmente voltada para você durante as sessões. É uma vantagem enorme que muita gente nem percebe que tem.
E o Lulu da Pomerânia nessa história?
Se você tem um Lulu e está se perguntando se tudo isso se aplica a ele, a resposta é sim, inteiramente. Pela classificação internacional de raças, o Lulu da Pomerânia é a variedade Toy do Spitz alemão. Mesmo padrão, mesmo temperamento, mesma inteligência, mesma facilidade de adestramento e, infelizmente, mesma vocação para o alarme sonoro.
Aliás, fica aqui um alerta para donos de cães pequenos em geral: o fato de o cachorro caber no colo não o dispensa de adestramento. Cão pequeno sem limites desenvolve os mesmos problemas de cão grande, só que com a vantagem injusta de todo mundo achar "fofinho" no começo. Quando o fofinho vira um cão adulto que late sem parar e morde visitas, a graça acabou.
O que esperar, então
Adestrar um Spitz alemão é fácil no sentido de que ele aprende rápido, quer agradar e presta atenção em você. É exigente no sentido de que ele não tolera método ruim, precisa de estímulo mental todos os dias e traz de fábrica um instinto de alarme que precisa ser educado desde filhote.
Comece cedo, use recompensas em vez de broncas, socialize bastante, mantenha os treinos curtos e variados, e trate o latido como algo a ser canalizado, não apagado. Com essa combinação, você tem nas mãos um dos cães mais capazes e divertidos de treinar que existe. Sem ela, você tem um alarme de pelúcia destruidor de chinelos. A escolha do método, como quase sempre, é sua.






