O Border Collie solta muito pelo?

Você passa a vassoura pelo corredor, recolhe aquele tufo flutuando perto do sofá e se pergunta: se um Border Collie vier morar aqui, a casa vai parecer uma fábrica de tapetes de pelo?
Sim. O Border Collie solta pelo de forma contínua e, em certas épocas do ano, solta ainda mais. Essa raça tem origem no trabalho de pastoreio na região de fronteira entre a Inglaterra e a Escócia, enfrentando chuva, vento e frio rigoroso. Para suportar esse clima, a natureza deu a eles uma pelagem dupla. Por baixo dos fios visíveis existe um subpelo denso, uma espécie de isolante térmico que se renova constantemente. Fios velhos caem para dar lugar a fios novos, e esse ciclo não para nunca.
No entanto, existe uma fronteira claríssima entre a troca natural de pelagem e uma doença de pele. Confundir as duas coisas faz você perder tempo varrendo a casa sem resolver o verdadeiro problema e, pior, deixa o animal sofrendo com inflamações ou complicações genéticas sérias.
Queda natural contra perda por doença
A renovação do pelo em um cachorro saudável é um processo bem organizado. O folículo produz o fio, ele cresce, cumpre o papel dele de proteger o corpo e cai quando chega a hora. Essa é a queda fisiológica. Ela acontece no corpo inteiro de maneira uniforme, sem deixar falhas abertas na pelagem, sem mudar a cor da pele e sem fazer o cachorro se coçar até machucar.
A perda patológica de pelos é o oposto disso. É quando o cão perde fios por causa de inflamações, infecções por fungos, bactérias ou reações alérgicas. Se você notar que o seu cão está ficando com regiões peladas, onde dá para ver a pele exposta por baixo, esqueça a ideia de que é apenas a raça trocando de casaco.
Cães dessa raça podem desenvolver, por exemplo, a dermatite atópica canina. Essa é uma condição inflamatória e hereditária na barreira de proteção da pele. Quando o cachorro tem essa sensibilidade, a pele coça de forma intensa. A coceira constante faz o animal morder, lamber e arranhar a mesma região sem parar. Esse atrito mecânico quebra os fios, cria falhas no manto, provoca feridas e deixa a pele vermelha (o que os veterinários chamam de eritema).
Se a pele do cão apresentar cascas, descamação, cheiro forte ou falhas pontuais no corpo, a culpa não é da estação do ano. Trata-se de um quadro dermatológico que exige avaliação e diagnóstico de um veterinário.
A rotina prática de manejo: escova, secador e prato cheio
Sabendo que a queda de pelo do Border Collie é constante, o segredo para não viver no meio de nuvens flutuantes pela sala é adotar um manejo simples de higiene. Não há remédio mágico que faça um cão de pelagem dupla parar de soltar fios, mas três cuidados práticos mudam completamente o dia a dia.
O primeiro passo é a escovação frequente. Escovar o cachorro não é um capricho estético. A escova recolhe os fios mortos que já se soltaram da pele antes que eles caiam no chão ou no sofá. Além disso, o hábito evita a formação de nós no subpelo, que acumulam sujeira e abafam a pele. Fazer disso um momento frequente também serve como uma inspeção tátil. Enquanto passa a escova, você sente o corpo do animal e consegue notar pequenos caroços, machucados ou carrapatos no início.
O segundo cuidado envolve o banho e a secagem. Dar banho no cachorro ajuda a limpar a sujeira, mas molhar uma pelagem dupla e não secar direito cria um ambiente perfeito para a proliferação de fungos e bactérias. A umidade presa perto da pele enfraquece a proteção cutânea e gera inflamações que fazem o pelo cair ainda mais. Por isso, ao lavar o cão, certifique-se de que a raiz do pelo e a pele fiquem totalmente secas antes de liberar o animal.
O terceiro pilar é a nutrição. O pelo saudável vem de dentro para fora. Uma alimentação equilibrada entrega as proteínas, gorduras boas e vitaminas que o organismo precisa para manter a pele íntegra e o folículo bem preso. Quando a nutrição é fraca, os fios ficam quebradiços, sem brilho e soltam muito mais do que deveriam.
Quando a cor do pelo indica um problema genético grave
Ver uma pelagem em um tom diferente pode parecer o bilhete premiado de quem procura um filhote raro. Só que, no Border Collie, aquele tom acinzetado e incomum não é uma edição limitada da raça, mas o sinal discreto de uma falha genética séria conhecida como Neutropenia Cíclica Canina, apelidada de Síndrome do Collie Cinza.
Estamos falando de uma doença hereditária autossômica recessiva, o que significa que o filhote só desenvolve o problema se herdar o gene alterado do pai e da mãe ao mesmo tempo. Essa mutação atrapalha o trabalho da medula óssea, impedindo que ela libere no organismo os neutrófilos, as células de defesa encarregadas de combater infecções.
A pista mais evidente dessa condição aparece na própria pelagem: o cão nasce ou desenvolve um manto prateado ou cinza, com aspecto desbotado e sem o brilho normal da raça. O impacto vai muito além da estética, já que o animal sofre com febre recorrente, fraqueza marcada e infecções graves desde as primeiras semanas de vida, reduzindo bastante a expectativa de vida.
Se você cruzar com um filhote cinza de pelos opacos e histórico constante de prostração, passe longe da tentação de achar que é apenas uma cor exótica de catálogo. É um quadro de saúde imunológica grave que exige acompanhamento veterinário sem demora.
O risco da automedicação e o teste do gene MDR1
Imagine a cena: o seu Border Collie começa a se coçar demais e perde um tufo de pelo perto do rabo. Um conhecido bem-intencionado sugere comprar um produto qualquer no balcão da agropecuária ou dar um comprimido contra sarna por conta própria para resolver logo a situação. Seguir esse palpite sem conversar com um profissional pode ser desastroso.
Uma parcela dos cães da raça carrega uma mutação no gene MDR1 (também chamado de ABCB1). Esse gene orienta a produção da glicoproteína-P, uma espécie de bomba que expulsa substâncias tóxicas da barreira entre a circulação sanguínea e o cérebro, protegendo o sistema nervoso central.
Quando o cão nasce com a mutação no MDR1, essa proteção simplesmente não funciona. Se você administrar a ele certos antiparasitários e remédios para sarna comuns, como a ivermectina, o corpo não consegue expulsar o princípio ativo da cabeça do animal. O medicamento cruza a barreira, se acumula no sistema nervoso e causa uma intoxicação neurológica severa.
Os sinais de que o organismo do cão está reagindo mal costumam aparecer depressa:
- Salivação em excesso e babação constante.
- Apatia profunda e letargia.
- Tremores pelo corpo e desorientação.
- Dificuldade de andar e perda de coordenação motora.
- Coma e risco de morte.
Antes de dar qualquer remédio contra pulgas, carrapatos, sarna ou problemas de pele ao seu cão, converse com o veterinário e peça o teste genético por PCR para a mutação no gene MDR1. É um exame laboratorial simples que indica se o cão corre esse risco e permite escolher tratamentos absolutamente seguros.
Caso o animal tenha tomado algum medicamento e comece a apresentar salivação, tremores ou andar desordenado, não perca tempo esperando passar. Leve o cachorro imediatamente a um pronto-socorro veterinário.
Soltar pelo é uma característica natural do Border Collie e faz parte do pacote de quem escolhe a raça. Mantendo a rotina de escovação, secando bem o subpelo depois do banho, oferecendo uma alimentação de qualidade e mantendo um cuidado rígido com a farmácia doméstica, a casa continua limpa, o cão fica saudável e a convivência segue tranquila.







