Gato pode comer tangerina?

Você está sentado no sofá, descascando uma tangerina, uma mexerica ou uma bergamota, dependendo de onde você mora. O cheiro cítrico toma conta da sala e, de repente, seu gato aparece trotando, atraído pelo barulho dos gomos se abrindo. Ele se aproxima, cheira o ar, franze o nariz com força, dá meia-volta e vai embora com uma expressão que parece julgamento puro.
Ainda bem que ele fez isso. Gato pode comer tangerina? Não, não deve. A tangerina e outras frutas cítricas não são seguras para os felinos, e a reação de recusa que você viu no seu gato ao sentir o cheiro forte é, na verdade, um mecanismo de autodefesa bem inteligente. Vamos olhar mais de perto como o organismo do seu felino lida com esse tipo de alimento e por que manter a fruteira fora do alcance dele é sempre a melhor escolha para evitar sustos na rotina da casa.
O problema está nos detalhes da fruta
Para entender por que a tangerina fica de fora do cardápio do gato, precisamos olhar para como o corpo dele funciona. Os felinos são carnívoros estritos. O metabolismo deles foi desenhado ao longo de milhares de gerações para processar carne, e ponto final. Tentar introduzir vegetais ácidos na rotina alimentar de um carnívoro estrito é pedir para arrumar confusão com o sistema digestivo dele.
O fígado do gato tem uma limitação bem específica para lidar com certos compostos vegetais, incluindo os óleos essenciais e os ácidos presentes nas frutas cítricas. Quando um gato consome partes da tangerina, o estrago depende diretamente da parte da fruta que ele decide explorar. O corpo felino possui certas dificuldades para processar e eliminar fitoquímicos de origem vegetal de forma eficiente.
Polpa, casca e riscos diferentes
A polpa tem menos substâncias irritantes do que o resto da planta, mas ainda é altamente ácida para o estômago felino. Se o gato comer um pedacinho da polpa, o resultado mais provável é uma bela irritação no estômago e no intestino, seguida por vômito, diarreia ou aquela apatia chata de quem passou o dia com o abdômen embrulhado e sem vontade de brincar.
O verdadeiro perigo mora nas cascas, nas sementes, nas folhas e nas hastes. Essas partes concentram grandes quantidades de ácido cítrico e óleos essenciais potentes, como o limoneno. Se o gato ingerir essas estruturas, o quadro deixa de ser uma simples indisposição e pode evoluir para uma intoxicação grave, com tremores musculares, perda de coordenação e depressão do sistema nervoso. Por que arriscar a saúde do animal com um petisco que ele nem consegue aproveitar de verdade?
A ilusão da vitamina C
Muita gente pensa que oferecer uma fruta cheia de vitamina C é um ato de carinho, afinal, a gente passa a vida inteira ouvindo que isso blinda o corpo contra qualquer resfriado. Só que o seu gato tem um funcionamento totalmente diferente do nosso. Os felinos produzem a própria vitamina C dentro do fígado. Eles passam longe de precisar de reforço externo vindo da fruteira, e tentar enfiar tangerina na rotina alimentar deles só serve para judiar de um estômago que não foi construído para lidar com tanta acidez.
Essa suplementação da qual eles não precisam não traz vantagem nenhuma e ainda abre a porta para dores de barriga que você poderia evitar facilmente. Para piorar, os gatos não sentem o gosto doce do mesmo jeito que a gente. Frutas não têm aquele apelo irresistível para o paladar deles, o que costuma nos salvar de assaltos frequentes à fruteira, mas a curiosidade dos filhotes ou daquele gato entediado num dia chuvoso ainda pode render surpresas desagradáveis.
O perigo invisível no ar
O estrago que os cítricos podem fazer não se resume apenas àquilo que o animal engole por engano. Muita gente adora espalhar difusores de ambiente com óleos essenciais de laranja, limão ou tangerina para dar aquela sensação de casa limpa. Para o focinho extremamente sensível de um gato, aquele cheiro que sai do aparelho não tem nada de agradável e funciona como uma agressão constante.
Como os óleos essenciais evaporam rápido e entram no corpo do animal pelas vias respiratórias ou até pela pele, esses aparelhos aromáticos podem causar desde uma tosse chata até problemas neurológicos sérios no seu companheiro de quatro patas. Se você não abre mão de deixar a casa perfumada, vale a pena guardar os extratos cítricos bem longe dos cômodos onde o gato dorme, come ou gosta de tirar aquela soneca sossegada.
O que fazer se o gato tiver contato com a fruta?
Se o seu gato apenas deu uma lambidinha rápida num pingo de suco que escapou para o piso da cozinha e saiu correndo, pode respirar aliviado. O mais provável é que ele faça aquela careta clássica, sacuda a pata com nojo e vá cuidar da vida dele. Basta passar um pano no chão e esquecer o assunto, sem drama por causa de um pingo perdido.
A história muda completamente de figura se você pegar o gato mastigando a casca da fruta ou se ele descobrir um saco de tangerinas e resolver brincar com as folhas e sementes. Caso ele comece a babar demais, vomite sem parar, fique prostrado num canto ou mostre qualquer sinal de fraqueza nas pernas e tremores, está na hora de correr para o veterinário.
Nenhum chá milagroso ou truque caseiro vai resolver uma irritação provocada por essas substâncias dentro de casa. O atendimento profissional é o único caminho sensato para cuidar do animal e garantir que ele volte a ficar bem logo. A avaliação de um veterinário é sempre o passo mais seguro quando existe suspeita de que ele comeu partes venenosas da planta ou quando os sintomas teimam em passar.
Gatos que já lidam com problemas nos rins ou no fígado precisam de um cuidado ainda maior, já que qualquer rodada de vômito ou diarreia causada por essa acidez pode derrubar a saúde deles num piscar de olhos. Guarde as tangerinas na geladeira ou em armários fechados, jogue as cascas direto numa lixeira que o focinho dele não alcance e mantenha a dieta do seu felino restrita àquilo que foi feito sob medida para a espécie.





