Gato pode comer macarrão?

Você está na cozinha no domingo, a água do macarrão começa a borbulhar e, quando olha para baixo, lá está ele: sentado, olhos enormes, miando com a convicção de quem descobriu o melhor prato da vida. A tentação de dividir um fiozinho é grande. Então, gato pode comer macarrão?
Pode, com ressalvas grandes. Um gato saudável não vai se intoxicar por provar um ou dois fios de macarrão cozido só na água, sem sal, sem óleo, sem nada. O problema é que, do ponto de vista nutricional, a massa é um alimento completamente inútil para ele. E quando vem acompanhada de molho, alho ou temperos, deixa de ser inútil e passa a ser perigosa de verdade.
Por que o macarrão não acrescenta nada ao seu gato
O gato é um carnívoro estrito. Isso significa que o organismo dele foi desenhado para funcionar com proteína e gordura de origem animal, e ponto. Nutrientes essenciais para ele, como a taurina, simplesmente não existem em alimentos vegetais ou em massas.
É verdade que o corpo felino produz enzimas capazes de quebrar o amido depois que a massa está bem cozida. Mas essa capacidade é limitada. O intestino do gato não foi feito para processar grandes quantidades de carboidrato, e o que sobra vira basicamente caloria vazia: ocupa espaço no estômago sem entregar nada do que o animal precisa para manter músculos, visão e coração em dia.
Pense assim: cada refeição do seu gato tem um espaço limitado. Se parte desse espaço é preenchida por macarrão, é espaço que a comida de verdade dele deixou de ocupar.
O perigo real mora no molho
Um fio de macarrão puro não envenena ninguém. A macarronada da sua mesa, por outro lado, é outra história.
O grande vilão dos pratos de massa tem nome e sobrenome: alho e cebola, junto com os parentes próximos, como alho-poró e cebolinha. Esses vegetais contêm compostos que, no organismo do gato, provocam uma reação que destrói as células vermelhas do sangue. O resultado é um quadro de anemia que pode ser grave, com fraqueza, mucosas pálidas e dificuldade para respirar.
Aqui vale derrubar uma ideia bem comum: cozinhar não resolve. Refogar, assar, ferver por horas, nada disso elimina a toxina do alho e da cebola. Aquele molho de tomate caseiro, coadinho, aparentemente inofensivo? Se foi feito com alho refogado, continua perigoso. O mesmo vale para o caldinho que sobra no prato, que é justamente a parte que os gatos mais se interessam em lamber.
E o macarrão instantâneo merece um parágrafo à parte. Além do tempero carregado de sódio e gordura, a massa em si é pré-frita e cheia de aditivos. Para um animal pequeno como o gato, essa bomba de sal e gordura pode provocar problemas gastrointestinais sérios e sobrecarregar rins e coração. Miojo, definitivamente, não é petisco.
Massa crua com fermento: isso sim é emergência
Existe uma situação em que a massa deixa de ser apenas inadequada e vira emergência veterinária: a massa crua que contém fermento, como a de pão ou de pizza em preparo.
Se o gato roubar um pedaço da bancada, o estômago dele, quente e úmido, funciona como uma incubadora perfeita. A levedura fermenta ali dentro, liberando gás e álcool. O gás faz a massa expandir, causando dor e distensão abdominal, enquanto o álcool é absorvido pelo organismo e pode intoxicar o animal rapidamente.
Os sinais incluem andar cambaleante, tremores, barriga inchada e alteração na respiração. Se isso acontecer, não é caso de observar em casa: é socorro veterinário imediato.
Nem todo gato reage igual
Um deslize com carboidrato não pesa da mesma forma para todos os gatos. O perfil do animal muda bastante a conta.
Gatos castrados costumam ter o metabolismo mais devagar, e o amido que sobra vira gordura com uma facilidade impressionante. Como o excesso de peso em felinos abre caminho para problemas como diabetes, petisco calórico e vazio é péssima escolha para esse grupo.
Já os gatos idosos vivem outra realidade: perdem massa muscular naturalmente com a idade e dependem de proteína de qualidade em cada refeição. Encher o estômago de um velhinho com macarrão é roubar dele justamente o nutriente que mais importa. Muitos idosos ainda convivem com problemas renais ou cardíacos, o que deixa qualquer comida temperada ainda mais arriscada.
Os filhotes têm o sistema digestivo em desenvolvimento. Amido em excesso pode causar diarreia e uma saciedade enganosa, daquelas que fazem o pequeno empurrar a ração de lado, sendo que é dela que ele precisa para crescer direito.
Mas por que ele quer tanto, então?
Se o macarrão não serve para nada, por que o seu gato se comporta como se aquele prato fosse o sentido da vida? A resposta é comportamental, não nutricional.
Gatos não sentem o sabor doce e não têm atração natural pelo amido. O que fisga a atenção deles é o cheiro da manteiga, do óleo ou da gordura de origem animal usada no preparo, além da textura e do movimento dos fios no prato. É curiosidade e faro apurado, não carência do corpo. Seu gato não está pedindo carboidrato; está pedindo o cheiro da sua comida, que é sempre mais interessante que a dele pelo simples fato de ser sua.
O que fazer na prática
Se o seu gato roubou um fio de macarrão cozido e puro do prato, relaxe. Observe o comportamento e as fezes dele nas horas seguintes, mas a chance de dar problema é mínima.
Agora, se ele comeu massa com molho que levava alho ou cebola, macarrão instantâneo ou massa crua com fermento, a postura muda. Fique atento a sinais como gengivas pálidas ou amareladas, fraqueza, andar cambaleante, urina escura, vômitos, diarreia, barriga inchada ou dificuldade para respirar. Qualquer um desses sinais pede atendimento veterinário sem demora, e contar ao profissional exatamente o que o gato comeu ajuda bastante no tratamento.
Quer agradar o companheiro enquanto cozinha? Troque o macarrão por um petisco próprio para gatos ou por um pedacinho pequeno de frango cozido só na água, sem sal nem tempero. A ração de boa qualidade já cobre tudo o que ele precisa no dia, então qualquer extra é mimo, não necessidade. E antes de incluir qualquer alimento humano na rotina, converse com o veterinário, principalmente se o seu gato tem alguma condição de saúde.
No fim das contas, a resposta cabe numa frase: um fio de macarrão puro, de vez em quando, não faz mal a um gato saudável, mas também não faz bem algum. O molho, o alho, o macarrão instantâneo e a massa crua com fermento, esses sim, ficam de fora do cardápio felino para sempre.


