Como cuidar do pelo e da higiene do Lagotto Romagnolo

Imagine que você acabou de voltar de uma caminhada tranquila pelo parque com seu cachorro e, ao chegar em casa, percebe que o animal acumulou folhas secas, gravetos e pequenos carrapichos em cada centímetro do corpo. Se o seu companheiro for um Lagotto Romagnolo, essa cena não é um acidente de percurso isolado, mas sim a rotina de qualquer passeio despreocupado. A pelagem densa e encaracolada dessa raça funciona como um sistema de velcro natural que captura tudo o que encontra pelo caminho.
Cuidar da pelagem e da higiene do Lagotto Romagnolo exige entender que o pelo dele não funciona como o da maioria dos cães. Em vez de cair pela casa inteira o ano todo, os fios crescem continuamente, formam cachos fechados e acumulam resíduos com facilidade impressionante. O segredo prático resume-se a tosa regular, secagem técnica rigorosa após o banho, atenção constante aos nós que viram feltro e cuidados específicos com as orelhas devido ao crescimento de pelos no canal auditivo.
A anatomia dos cachos e o fim da escovação tradicional
Existe um mal-entendido comum entre tutores de primeira viagem que acreditam que todo cachorro precisa de uma escovação diária vigorosa com rasqueiras e pentes finos. No caso do Lagotto Romagnolo adulto, aplicar essa rotina de poodle em excesso destrói a estrutura dos cachos naturais, transformando o pelo em uma massa volumosa e cheia de frizz. O pelo adulto precisa manter seu aspecto rústico e encaracolado, o que significa que o manejo diário foca muito mais em checar a presença de sujeira superficial do que em puxar os fios com força.
Quando os fios começam a crescer sem controle, eles se entrelaçam na raiz e formam feltros compactos que machucam a pele do animal. Para evitar isso, o tutor deve passar os dedos pelos cachos regularmente, desfazendo pequenos começos de nós antes que eles virem placas rígidas. Se você encontrar um nós rebelde, use os dedos ou um pente de dentes largos com cuidado, segurando a base do pelo próximo à pele para não puxar a raiz e causar dor desnecessária ao cão.
A tosa como eixo central da manutenção
A tosa não é um capricho estético para deixar o cão com cara de pelúcia, mas sim a principal ferramenta de saúde e conforto para a raça. Como o pelo cresce sem parar, a pelagem precisa ser cortada periodicamente para evitar o sufocamento da pele e o acúmulo excessivo de sujeira. O padrão estético da raça busca um visual natural e proporcional, mantendo o comprimento dos fios em torno de quatro centímetros por todo o corpo, embora essa medida possa variar conforme o clima da região e o estilo de vida do animal.
Não existe um calendário universal rígido que sirva para todos os cães da raça, pois a velocidade de crescimento do pelo varia de acordo com a genética individual, a alimentação e a época do ano. Em geral, muitos tutores optam por visitas a um profissional especializado a cada seis ou oito semanas para manter o comprimento sob controle. Tentar fazer essa tosa completa em casa sem experiência prévia costuma resultar em falhas visíveis ou em riscos de acidentes com a tesoura, tornando recomendável contar com um profissional que conheça as particularidades da pelagem do Lagotto.
O banho e o perigo invisível da umidade
Dar banho em um Lagotto Romagnolo parece simples até o momento em que a água entra em contato com aquela pelagem densa. A lã natural da raça repele a água superficialmente, mas, quando ela finalmente penetra, demora uma eternidade para secar de forma natural. Deixar o cão secar ao sol ou ao vento após o banho é um convite para o surgimento de micoses, dermatites e odores desagradáveis, já que a umidade fica retida junto à pele quente.
O processo de banho exige o uso de produtos específicos para pelagens crespas ou sensíveis, garantindo a remoção completa do shampoo com água morna. Logo em seguida, entra a etapa mais trabalhosa e indispensável, que é a secagem mecânica com soprador e secador profissional. Enquanto o ar morno remove a umidade, o groomer ou o tutor precisa escovar o pelo no sentido contrário ao crescimento para esticá-lo temporariamente, garantindo que a raiz fique totalmente seca antes que os cachos voltem a se formar espontaneamente.
O universo particular das orelhas e dos olhos
Uma das características mais marcantes e desafiadoras da anatomia do Lagotto Romagnolo é o crescimento de pelos dentro do canal auditivo. Enquanto a maioria das raças possui o canal livre, o Lagotto produz pelos nessa região que acabam retendo cera, umidade e sujeira, criando um ambiente perfeito para infecções de ouvido recorrentes. O tutor precisa monitorar essa área com frequência e contar com a orientação do veterinário ou do tosador para a remoção adequada desses pelos internos, seja por depilação cuidadosa ou por corte regular com tesouras de ponta romba.
Além das orelhas, a região ao redor dos olhos merece atenção constante. Como os cachos da cabeça costumam crescer em direção ao rosto, os pelos podem invadir o campo de visão ou encostar diretamente na córnea, causando irritação e lacrimejamento excessivo. Manter essa franja aparada com cuidado garante que o cão enxergue sem obstruções e previne problemas oculares decorrentes do atrito contínuo dos fios.
Adaptando a rotina e respeitando o ritmo do cão
Manipular patas, orelhas, focinho e cauda exige que o cão sinta confiança no toque humano desde os primeiros meses de vida. Se o animal demonstra resistência ou medo durante a escovação ou a limpeza das orelhas, forçar a situação de maneira brusca apenas aumenta o estresse e transforma o cuidado em um momento traumático para ambos. A introdução desses hábitos deve acontecer de forma gradual, associando o toque a petiscos e elogios, permitindo que o cão compreenda que a rotina de higiene não representa perigo.
Caso você note mudanças repentinas no comportamento do seu Lagotto, como lambidas excessivas nas patas, coceira constante nas orelhas ou vermelhidão na pele, evite tirar conclusões precipitadas ou tentar soluções caseiras sem critério. Sintomas físicos e alterações de conduta podem indicar alergias alimentares, parasitas ou infecções que exigem avaliação clínica profissional. Consultar um veterinário é o único caminho seguro para identificar a causa exata do problema e definir o tratamento adequado, mantendo a saúde e o bem-estar do seu companheiro sempre protegidos.






