Como cuidar do pelo e da higiene do Cão da Serra da Estrela

Quem convive com um Cão da Serra da Estrela sabe que a quantidade de pelo espalhada pela casa não é apenas um detalhe estético. Em uma manhã qualquer, ao abrir a porta da varanda e ver o cão sacudir o corpo após deitar na grama úmida, tufos inteiros de subpelo parecem desafiar a gravidade e flutuar pela sala. Não adianta fingir surpresa. Raças desenvolvidas para o trabalho árduo nas serras frias de Portugal carregam uma armadura natural impressionante, e essa armadura cobra o seu preço em manutenção na rotina de quem decide dividir a casa com um gigante peludo.
Cuidar da pelagem e da higiene deste cão exige constância, paciência e ferramentas adequadas. Não existe milagre cosmético que substitua o trabalho braçal com a escova, mas com um método bem ajustado o processo deixa de ser um suplício e passa a ser apenas mais uma etapa do convívio. Vamos aos detalhes que realmente importam para manter esse pelo forte, a pele saudável e o cão confortável em qualquer estação do ano.
A estrutura da pelagem e o que esperar no dia a dia
O Cão da Serra da Estrela apresenta duas variedades de pelagem, a comprida e a curta, sendo a primeira a mais conhecida e exigente. Ambas possuem uma característica comum fundamental: uma pelagem dupla composta por um subpelo abundante, curto, fino e de textura algo lanosa, coberto por um pelo de cobertura mais longo, liso ou levemente ondulado, áspero ao toque e muito resistente às intempéries. Essa estrutura funcionava perfeitamente para isolar o animal contra o vento cortante e a neve das montanhas de origem, mas dentro de uma casa moderna ela se traduz em acúmulo constante de fios.
A troca de pelo ocorre de maneira intensa duas vezes por ano, coincidindo com a mudança das estações. Nesses períodos, o subpelo antigo solta-se em grandes blocos. Se o tutor descuidar da manutenção por alguns dias, os nós começam a se formar nas zonas de maior atrito, como atrás das orelhas, na região das axilas e na chamada calça, que é a franja de pelos longos na parte posterior das coxas. Esses nós puxam a pele do animal, geram desconforto e podem esconder parasitas ou irritações cutâneas se não forem desfeitos rapidamente.
Variedades individuais existem aos montes. Alguns exemplares toleram sessões longas de escovação com total tranquilidade, enquanto outros demonstram impaciência logo nos primeiros minutos. A adaptação deve ser gradual, construída com paciência e reforço positivo, permitindo que o cão entenda o momento do trato como algo rotineiro e seguro. Forçar a barra com um cão desse porte nunca é uma boa ideia. Caso o animal apresente reações inesperadas ou resistência persistente, vale a pena observar se há alguma dor oculta ou sensibilidade na pele e buscar orientação veterinária.
A rotina prática de escovação e manutenção dos fios
Manter o Serra da Estrela apresentável não significa passar a escova de qualquer maneira quando o pelo já estiver completamente embaraçado. O segredo reside na frequência. Escovar o cão duas a três vezes por semana em épocas normais, e diariamente durante as mudas sazonais, evita que o trabalho se acumule de forma descontrolada. As ferramentas principais incluem uma rasquadeira de qualidade para remover os fios soltos superficiais e um pente metálico de dentes largos para conferir o acabamento e verificar se restou algum nó profundo perto da pele.
O processo deve começar pelas pontas e avançar lentamente em direção à raiz, levantando o pelo de cobertura para alcançar o subpelo. Começar puxando desde a pele machuca o animal e cria resistência para as próximas sessões. Nas áreas de pelo mais longo, como a cauda e as frangas das patas, o cuidado deve ser redobrado para não quebrar os fios. Se encontrar um nó resistente, evite tesouras impulsivas para não cortar a pele por acidente. O uso de fluidos desembaraçadores próprios para cães pode ajudar a soltar os nós mais difíceis com delicadeza.
A higiene das orelhas merece atenção especial nessa rotina. Por serem caídas e cobertas por pelos densos, o fluxo de ar no canal auditivo é reduzido, criando um ambiente propício para a umidade e o acúmulo de cera. A limpeza deve ser feita com produtos específicos indicados por um veterinário, usando uma gaze macia para remover a sujeira visível na parte externa. Nunca introduza hastes flexíveis fundo demais no ouvido do cão, pois isso pode empurrar a cera para dentro ou causar lesões graves no tímpano. Mudanças de comportamento relacionadas a coceiras frequentes na cabeça ou chacoalhões constantes exigem avaliação profissional.
Banhos, pele e o equilíbrio natural do pelo
Existe uma tendência comum de achar que cães grandes precisam de banhos frequentes para manter o cheiro agradável. No caso do Cão da Serra da Estrela, exagerar na frequência dos banhos é um erro que compromete a saúde da pele. A pelagem possui óleos naturais segregados pelas glândulas sebáceas que funcionam como uma capa protetora contra a umidade e a sujeira. Lavar o cão com muita frequência remove essa barreira protetora, deixando a pele seca, irritada e mais vulnerável a infecções e descamações.
Em condições normais, um banho a cada dois ou três meses costuma ser suficiente, a menos que o animal se suje de maneira extrema em alguma atividade externa. Quando chegar a hora do banho, a preparação é crucial. O pelo deve ser completamente escovado antes de molhar, pois a água e o shampoo transformam qualquer pequeno nó em um feltro quase impossível de desfazer depois de seco. A água deve ser morna e o enxágue precisa ser absolutamente meticuloso. Qualquer resíduo de shampoo deixado na pelagem densa vai causar coceira intensa e irritação na pele do animal.
A etapa da secagem é tão importante quanto o banho em si. Deixar um cão com pelagem dupla secar naturalmente ao ar livre é pedir para o subpelo reter umidade, o que favorece o surgimento de fungos e dermatites úmidas. O uso de um secador de pelo com temperatura morna, combinado com escovação simultânea, garante que a umidade seja completamente eliminada até a raiz. Como o animal é grande, essa tarefa exige tempo, espaço adequado e paciência de ambas as partes.
Cuidados com patas, unhas e a saúde geral
Além do pelo e do banho, a higiene do Cão da Serra da Estrela envolve pontos que muitas vezes passam despercebidos até causarem problemas de locomoção. As patas, por exemplo, acumulam terra, detritos e pequenas sementes entre os coxins, que são as almofadinhas das patas. Nos meses de maior calor ou em terrenos secos, esses detritos podem causar feridas ou irritações. Verificar as patas após os passeios mais longos evita surpresas desagradáveis.
As unhas dos cães de grande porte costumam desgastar naturalmente em pisos ásperos e asfalto, mas cães que vivem predominantemente em quintais de terra ou grama podem precisar de cortes periódicos. O corte deve ser feito com cuidado para não atingir a carne viva dentro da unha, onde passam vasos sanguíneos e terminações nervosas. Se houver dúvida sobre o tamanho do corte ou se o cão demonstrar muita relutância, um profissional de estética animal ou o veterinário podem realizar o procedimento com segurança.
Manter a higiene e a pelagem em ordem é um reflexo do cuidado cotidiano que fortalece o vínculo entre o tutor e o animal. Cada sessão de escovação serve também como um exame corporal informal, permitindo notar rapidamente qualquer alteração na pele, presença de parasitas externos como carrapatos ou pulgas, ou pequenos caroços que mereçam atenção médica. O acompanhamento veterinário regular continua sendo indispensável para garantir que a saúde geral do cão esteja em dia, independentemente da boa aparência da pelagem.





