Como cuidar do Border Collie em dias muito quentes

Imagine a cena. Você chega em casa depois de um dia abafado, com aquela sensação de que o asfalto derreteu na calçada, e o seu Border Collie surge correndo na sua direção com uma bolinha na boca. Os olhos brilham, o rabo balança no talo e ele parece pronto para mais duas horas de corrida. Dá até uma preguicinha só de olhar, não dá?
O cuidado do Border Collie em dias muito quentes exige a interrupção forçada de atividades físicas para prevenir o colapso por exaustão e o estresse térmico, acompanhada de hidratação constante, passeios em horários frescos e a proibição absoluta da automedicação por conta de uma sensibilidade genética rara na raça. A grande questão com essa raça é que eles não sabem a hora de parar. Enquanto outros cães deitam na sombra quando o bafo quente aperta, o Border Collie tem um foco de trabalho tão intenso que continua correndo até passar mal. É aquele amigo atleta que desmaia de exaustão na maratona porque esqueceu de beber água.
O perigo da bolinha incansável
Sabe aquela brincadeira de jogar a bolinha infinitamente? No calor, ela pode ser perigosa. O Border Collie tem uma energia mental que atropela os limites do próprio corpo. Se você deixar, ele corre até cair. Quando a temperatura sobe e o exercício passa do ponto, pode acontecer o chamado Colapso de Border Collie. Não é frescura e nem birra. É um distúrbio em que o sistema nervoso do cão sofre com o excesso de calor e esforço. Os sinais aparecem sem dor aparente, mas assustam. O cachorro começa a desorientar, perde o foco, arrasta as patas traseiras ou caminha de um jeito cambaleante, como se tivesse esquecido como andar direito. Se você notar isso, a regra é simples: pare tudo na mesma hora. Leve o cão para um lugar fresco, ofereça água em pequenas quantidades e procure um veterinário se a coordenação motora não voltar ao normal rapidinho.
A dinâmica entre o cão e o dono costuma ser o ponto crítico. Como o animal demonstra uma disposição quase infinita, o tutor tende a achar que o ritmo está adequado, quando na verdade o organismo do pet está no limite da exaustão térmica. Se o passeio ou a sessão de arremessos acontece sob o sol forte, o calor acumulado não encontra uma forma rápida de dissipação. A respiração ofegante e intensa ajuda a ventilar, mas tem um limite biológico claro.
A armadilha da caixinha de remédios
O verão traz aquela invasão típica de pulgas, carrapatos e outros insetos indesejados. Nessas horas, a vontade irresistível é correr até a gaveta de remédios e aplicar qualquer produto para resolver o problema num piscar de olhos. Só que, tratando-se de um Border Collie, essa pressa pode custar caro. Existe uma alteração genética chamada MDR1, que afeta uma parcela desses animais e muda completamente a forma como o cérebro processa certas moléculas. Imagine uma cerca elétrica desligada na entrada da propriedade. Medicamentos corriqueiros, incluindo certos vermífugos e fórmulas contra parasitas que contêm ivermectina, passam direto para o sistema nervoso central sem encontrar nenhuma resistência. O estrago dessa invasão silenciosa resulta em um envenenamento severo, manifestado por baba em excesso, tremores musculares, olhos arregalados e, nos quadros mais graves, crises convulsivas e apagões. Portanto, esqueça receitas da internet ou palpites de conhecidos. Antes de passar qualquer substância no pelo ou na pele do bicho, consulte o veterinário para verificar se não é o caso de pedir um exame genético específico.
Esse cuidado redobrado com os remédios caseiros importa ainda mais durante os meses de calor, época em que os parasitas se multiplicam com facilidade nos cantos da casa e do quintal. O perigo de reaproveitar aquele restinho de produto que sobrou no armário ou comprar algo por impulso sem orientação profissional coloca a integridade do animal na corda bamba.
Como adaptar a rotina sem estresse
Ajustar os cuidados com o seu companheiro nas épocas mais quentes do ano pede apenas bom senso e uma boa dose de estratégia nos horários. Esqueça aquela caminhada entre as dez da manhã e as quatro da tarde. Exercícios na rua, apenas nas primeiras horas da manhã ou quando o sol já tiver ido embora. Antes de abrir o portão, teste o chão colocando a palma da sua mão aberta no asfalto por cinco segundos. Se você achar a temperatura insuportável, imagine o estrago nas patas dele. Troque as coleiras tradicionale por modelos peitorais, já que aquelas que puxam o pescoço atrapalham a ventilação pulmonar, justamente quando o cão mais precisa respirar fundo para baixar a temperatura. Distribua vários potes de água fresca pela casa e faça a troca com frequência, porque água morna não atrai ninguém.
Tem também aquela história antiga de que tosar o cachorro bem curtinho resolve o problema do calor. É um engano. O pelo duplo do Border Collie age como um sistema de isolamento muito eficiente, que protege tanto contra o frio quanto contra a incidência direta do sol na pele, evitando queimaduras. Cortar tudo na máquina estraga essa proteção natural. Em vez de apelar para a tesoura, o caminho certo é caprichar na escovação periódica para tirar todo o subpelo morto que fica preso, ajudando o corpo a ventilar do jeito correto.
No fim das contas, a missão é assumir a sensatez que o seu cão simplesmente não tem. Controle o ritmo das brincadeiras, garanta sombra e água geladinha, e guarde as corridas intensas para quando o tempo estiver mais ameno.






