Como cuidar do Boiadeiro de Berna em dias muito quentes

Você abre a porta da sala por volta das dez da manhã, sente aquele bafo quente subir do quintal e olha para o chão. Ali está um cachorro de quarenta quilos, coberto por uma manta preta, densa e espessa, respirando com a boca aberta como se tivesse acabado de subir uma serra correndo. Cuidar de um Boiadeiro de Berna no calor forte exige três atitudes imediatas: cancelar qualquer exercício sob o sol, transferir a rotina para os pontos mais frescos da casa e nunca raspar a pelagem dele na máquina achando que isso vai refrescar o corpo.
Criado historicamente nas regiões frias dos Alpes suíços, esse grandalhão simplesmente não tem ferramentas biológicas eficientes para dispersar calor em excesso. Os cães não suam pela pele como nós; eles dependem quase exclusivamente da respiração ofegante para trocar calor com o ambiente e de uma transpiração mínima pelas almofadas das patas. Quando o ar lá fora já está quente e úmido, esse mecanismo perde quase toda a eficácia. A resposta rápida para manter o animal em segurança envolve gerenciar o ambiente, a água e a intensidade do dia a dia, respeitando sempre o ritmo de cada indivíduo.
O mito da tosa total e o papel do subpelo
A primeira ideia de muita gente quando o termômetro sobe é pegar o telefone e pedir para tosar o pelo na máquina bem baixinho. Parece lógico para a nossa cabeça, que troca casaco por camiseta de manga curta assim que o verão aperta. Só que a anatomia canina de pelagem dupla funciona de um jeito bem diferente da nossa pele desprotegida.
O Boiadeiro de Berna possui duas camadas de pelo: uma cobertura externa mais longa e resistente, e um subpelo denso, de textura lanosa, mais próximo da pele. Essa estrutura atua como uma barreira térmica contra temperaturas extremas, tanto no frio quanto no calor moderado. Ela retém uma camada de ar que isola o corpo do contato térmico direto. Quando alguém passa a máquina e deixa o cão quase careca, remove essa proteção e expõe a pele desprotegida à radiação solar. O resultado costuma ser o oposto do pretendido: o cão aquece com muito mais rapidez e ainda fica vulnerável a queimaduras solares graves e dermatites.
Em vez da tosa radical, o manejo correto da pelagem consiste na escovação frequente. O acúmulo de subpelo morto cria nós e nós compactos que impedem a circulação de ar rente à pele, transformando o pelo em uma estufa abafada. Retirar esses pelos mortos com escovas adequadas permite que a pele respire melhor. Se houver dúvidas sobre quais instrumentos usar ou se você notar irritações na pele durante a escovação, vale conversar com um profissional de banho e tosa experiente ou com o veterinário. A tosa higiênica nas patas e na região íntima pode ser mantida, mas a capa do corpo deve ser preservada.
A reorganização dos passeios e o teste do asfalto
Insistir no passeio clássico das duas da tarde em dias ensolarados é colocar o animal em risco desnecessário. Para um cão desse porte, o esforço físico combinado com o asfalto quente pode desencadear rapidamente um quadro de hipertermia, que é a elevação perigosa da temperatura corporal além da capacidade de resfriamento.
A adaptação gradual dos horários é o caminho mais seguro:
- Saídas muito cedo, logo nos primeiros raios da manhã, ou bem tarde da noite, quando o piso já teve tempo de esfriar.
- Escolha de trajetos curtos sobre terra batida ou grama, evitando calçadas de cimento ou asfalto escuro que retêm calor por horas.
- Redução drástica da exigência física: troque corridas e brincadeiras intensas de buscar bola por caminhadas lentas e olfativas, permitindo que o cão cheire bastante sem se cansar.
- Monitoramento constante da respiração: se a respiração ficar excessivamente pesada, rápida ou se a língua estiver muito esticada e arroxeada, a caminhada deve parar imediatamente em uma sombra fresca.
Um teste doméstico muito simples ajuda a tomar essa decisão antes de colocar a coleira: coloque a palma da mão ou a sola do pé descalço no chão da rua e segure por sete a dez segundos. Se estiver desconfortável ou queimando a sua mão, estará queimando as almofadas plantares do cachorro. Eles sofrem queimaduras dolorosas nas patas com bastante facilidade, o que depois exige semanas de cicatrização incômoda.
O ambiente dentro de casa e o fornecimento de água
Se do lado de fora está inviável, o refúgio precisa estar dentro de casa. Não adianta deixar o cão solto num quintal cimentado sem sombra abundante, porque a própria alvenaria irradia calor pelo resto do dia. O animal precisa ter livre acesso aos cômodos internos, de preferência onde o piso seja de cerâmica fria ou porcelanato.
O uso de ventiladores e ar-condicionado é perfeitamente válido e muito bem-vindo. Tapetes refrescantes de gel, que ativam com o peso do corpo do animal, também costumam ser adotados por muitos exemplares, embora alguns cães estranhem a textura no início. Essa aceitação costuma ser individual: enquanto um cão deita imediatamente sobre o tapete, outro pode preferir o chão do banheiro perto do ralo. Nunca force o cão a ficar em um local que ele rejeite.
A água precisa estar sempre limpa, fresca e disponível em vários pontos. Em dias muito quentes, uma vasilha única que fica no sol perde a utilidade em duas horas. Espalhe potes pesados pela casa, que ele não consiga tombar acidentalmente. Adicionar pedras de gelo na água costuma ser agradável para alguns cães e ajuda a manter a temperatura do líquido baixa por mais tempo, mas introduza isso com bom senso para não assustar o animal.
Brinquedos recheáveis congelados com frutas permitidas ou com a própria ração amolecida e congelada também funcionam bem. Eles mantêm o cão mentalmente entretido dentro de casa durante as horas de pico de calor, gastando energia sem gerar esforço cardiovascular pesado.
Sinais de alerta e variação entre indivíduos
Cada Boiadeiro de Berna reage ao calor de forma particular. Fatores como peso corporal, condicionamento físico prévio e histórico de saúde interferem muito na tolerância térmica. Cães idosos, filhotes em desenvolvimento ou animais com excesso de peso sentem as altas temperaturas com uma intensidade muito mais severa do que um adulto jovem e atlético.
Alguns sinais merecem atenção imediata e indicam que o cão passou do limite suportável:
- Respiração extremamente ruidosa e ofegante, acompanhada de salivação espessa e abundante.
- Gengivas muito avermelhadas, pálidas ou azuladas, indicando oxigenação deficiente.
- Letargia súbita, fraqueza nas patas traseiras ou desorientação ao tentar andar.
- Vômitos ou diarreia após exposição ao calor.
Se você observar esse quadro, o objetivo não é tentar receitas caseiras agressivas. Jogar água congelada diretamente no cão ou usar banhos de gelo repentinos pode provocar choque térmico e agravar a situação vascular. O correto é levá-lo para um ambiente com ventilação ou ar-condicionado, molhar suavemente as patas, a virilha e o peito com água em temperatura ambiente (ou fresca, nunca gelada) e procurar atendimento veterinário imediato. A hipertermia pode danificar órgãos internos rapidamente e exige intervenção clínica profissional com monitoramento constante.
Mudanças de comportamento no calor podem ter origens variadas, desde simples desânimo temporário pela temperatura até dores articulares ou distúrbios metabólicos mascarados pela apatia. Se a recusa alimentar persistir, se o cão se isolar continuamente ou se a falta de ar não passar mesmo com o ambiente devidamente resfriado, a avaliação de um veterinário de confiança é indispensável para descartar outras complicações.
Com ajustes simples nos horários de passeio, escovação regular da pelagem e um cantinho arejado com bastante água fresca, o Boiadeiro de Berna consegue atravessar períodos quentes com tranquilidade e sem sustos.







