Coelho tem secreção no olho: o que pode ser?

Você acorda, vai dar a primeira olhada no coelho da sala e percebe que tem algo estranho no rostinho dele. Parece que ele passou a noite inteira chorando com um líquido acumulado, os pelos ao redor do olho grudados e a parte interna das patinhas dianteiras com o pelo durinho e sujo. Parece até que ele tentou limpar o rosto com a pata e acabou borrando tudo.
Afinal, o que pode ser quando um coelho tem secreção no olho?
A secreção ocular em coelhos quase nunca é um probleminha simples de conjuntivite passageira. Na maioria das vezes, ela é o sinal visível de que algo não vai bem mais fundo, seja uma alteração nos dentes que está apertando o canal do olho, uma infecção respiratória ou até problemas ambientais e virais mais sérios.
Sabe aquela ideia de que basta comprar um colírio na farmácia e pingar duas gotinhas para resolver? Pois é exatamente aí que muitos tutores erram. Para entender o que está acontecendo de verdade, precisamos olhar um pouco para a anatomia curiosa desse pequeno pet.
O que dentes e olhos têm a ver um com o outro
Se você perguntar para a maioria das pessoas, elas vão dizer que o olho é uma coisa e a boca é outra totalmente separada. No caso dos coelhos, essa separação não funciona da maneira como imaginamos.
Os dentes do coelho crescem ininterruptamente ao longo de toda a vida. Na natureza, ou quando o manejo está correto, o animal passa horas mastigando feno de gramíneas. Esse movimento lateral constante funciona como uma lixa natural, desgastando os dentes na mesma medida em que eles continuam crescendo.
Quando o coelho come apenas ração comercial ou com pouco feno, a mastigação muda. Os dentes não se desgastam como deveriam e começam a crescer de forma errada, inclusive para dentro, em direção à raiz. É o chamado crescimento retrógrado.
Imagine um cano de escoamento muito fino que passa logo abaixo do chão. Se a fundação começar a empurrar o piso para cima, o cano amassa e a água transborda. Com o coelho, o princípio é parecido. O ducto nasolacrimal, que é o canal que drena a lágrima do olho para o nariz, fica colado às raízes dos dentes superiores. Quando a raiz do dente cresce demais, ela aperta e oclui esse canal. A lágrima não tem para onde ir, acumula, infecciona e vira aquela secreção incômoda.
A armadilha do cotonete e do colírio humano
É bem tentador querer resolver o problema usando o que já temos guardado no armário do banheiro. A gente bate o olho na secreção e logo pensa naquele remedinho que sobrou da última consulta do cachorro.
Passe longe dessa ideia, por favor.
Vários colírios feitos para humanos, cães ou gatos possuem fórmulas que podem envenenar um coelho, especialmente porque esses animais passam o dia inteiro limpando o próprio corpo com as patas e a língua. Se ele ingerir certos princípios ativos durante a autolimpeza, o estrago no estômago e no intestino costuma ser rápido e grave. Além disso, aplicar um colírio com corticoide em cima de uma ferida na superfície do olho, algo muito comum se ele esbarrar em uma haste seca de feno, pode levar à perfuração da córnea.
Enquanto você espera para falar com o veterinário, o único cuidado caseiro seguro consiste em usar uma gaze limpa umedecida em soro fisiológico morno para retirar com delicadeza as crostas acumuladas nas pálpebras. Esfregar a região está fora de cogitação, assim como dar banho no animal. Coelhos entram em pânico absoluto na água, sofrem um estresse imenso e correm sério risco de hipotermia.
Quando a secreção é sinal de algo mais urgente
Nem todo corrimento ocular nasce nos dentes, embora essa seja a causa mais frequente em coelhos adultos. Existem outros quadros que merecem olhos bem abertos.
As infecções respiratórias, muitas vezes ligadas a bactérias comuns no ambiente, costumam começar com espirros e nariz molhado que acabam atingindo a região dos olhos. Vale notar também que as raças menores e de cabeça mais curta, como os coelhos de orelhas caídas, carregam uma predisposição anatômica maior. Por causa da seleção genética que encurtou o focinho deles, os dentes ficam apertados e os canais da lágrima se curvam com facilidade, abrindo espaço para esse tipo de incômodo.
Há ainda situações que exigem socorro imediato. Se o olho estiver muito inchado, com a pele ao redor deformada ou com feridas pelo corpo, o caso pode envolver doenças virais graves transmitidas por insetos, exigindo isolamento e atendimento urgente.
Fique de olho no comportamento geral da casa. Como o coelho é um bicho de presa, ele esconde o mal-estar até o limite. Se além do olho grudado ele parar de comer feno, recusar petiscos ou ficar encolhido no canto sem fazer cocô por um período, o sofrimento já gerou uma parada no sistema digestivo, o que é uma emergência veterinária das pesadas.
O que fazer agora
A atitude certa diante de um coelho com secreção nos olhos é marcar uma consulta com um veterinário que entenda de animais exóticos.
Um profissional capacitado não vai apenas passar um paliativo para disfarçar o sintoma. Ele precisa olhar dentro da boca do coelho, o que geralmente exige uma sedação leve para enxergar os dentes lá no fundo, e pode pedir exames como uma radiografia do crânio para ver se a raiz dentária está empurrando o canal lacrimal.
Até o dia da consulta, olhe bem para o espaço onde ele vive. O feno solta muito pó? A serragem está irritando as vias respiratórias? Trocar a forração da gaiola ou do cercado por tapetes limpos ou materiais livres de poeira costuma ajudar bastante. Cuidar de um coelho é justamente pescar esses detalhes discretos antes que virem um problemão. Ao notar qualquer mudança no rostinho ou nos hábitos dele, procure ajuda especializada sem demora.





