Cachorro pode comer inhame?

Sabe aquela cena clássica em que você está na pia da cozinha descascando legumes para o almoço de domingo, um pedaço de tubérculo escorrega da faca e cai no chão, e o cachorro recolhe a comida antes mesmo de você conseguir dar meio passo para impedir?
Afinal, cachorro pode comer inhame?
Não. Não se deve oferecer inhame ou taro cru aos cães de jeito nenhum. A planta e seus tubérculos guardam substâncias capazes de causar uma irritação severa na boca do animal, com queimação, muita baba, vômito e aperto na garganta.
A confusão começa logo na feira. No Brasil, costumamos chamar de inhame uma porção de raízes diferentes que acabam confundindo o consumidor. O que os veterinários e os manuais de toxicologia colocam na lista preta é o taro, aquele tubérculo peludinho de polpa esbranquiçada e casca grossa. As fontes oficiais de toxicologia veterinária, como os registros da ASPCA e do Manual Veterinário Merck, categorizam expressamente o taro como uma planta tóxica para cães e gatos.
Dentro desse vegetal existem estruturas microscópicas chamadas cristais de oxalato de cálcio insolúveis, ou ráfides. Pense nelas como milhares de microagulhas invisíveis armazenadas em bolsinhas nas células da planta. Quando o cão morde o pedaço cru, essas bolsinhas estouram e disparam as agulhas diretamente contra os lábios, a língua, o céu da boca e a garganta do bicho.
O estrago é puramente físico e imediato. Não é preciso esperar a digestão acontecer para o problema dar as caras. Em questão de minutos, o cão começa a passar as patas na boca desesperado, a babar de forma exagerada, a chorar ao tentar engolir e a recusar qualquer comida. Em casos mais volumosos, o inchaço pode alcançar a região da laringe, o que complica a respiração e exige atenção rápida.
Existe uma diferença importante que costuma gerar confusão na cabeça dos tutores. Enquanto algumas plantas com oxalatos solúveis entram na corrente sanguínea e podem causar lesões renais graves, o oxalato do taro age no contato direto. O prognóstico costuma ser bom se o tutor agir rápido, mas o susto é garantido e o sofrimento do animal é real, especialmente para cães de pequeno porte ou raças de focinho achatado que já têm menor tolerância a qualquer alteração nas vias aéreas.
O cozimento resolve o problema?
Será que o cozimento resolve a situação? Muita gente acredita que basta jogar o tubérculo na panela de pressão, deixar ferver por meia hora e pronto, o perigo vai embora. A fervura até ajuda a quebrar o amido e deixa certos alimentos fáceis de digerir para os cães, mas as fontes veterinárias não dão garantias de que o preparo caseiro elimine totalmente as microagulhas de oxalato a um patamar seguro. Como a ameaça de inflamar a boca do pet ainda existe, a pedida mais sensata é passar longe.
E se o pior acontecer e o cachorro abocanhar um pedaço escondido embaixo da pia?
O primeiro movimento é retirar o que sobrou da boca dele com cuidado para evitar novos machucados. Lavar a boca com água limpa ajuda a tirar os resíduos. Um recurso caseiro muito citado por profissionais consiste em oferecer um gole de leite ou derivados com bastante cálcio. O cálcio líquido do leite se agarra aos cristais soltos na boca e neutraliza o ardor.
Na sequência, o segredo é vigiar o comportamento de perto. Se o cão continuar prostrado, babando sem controle, vomitando ou com qualquer chiado esquisito ao respirar, a ida ao veterinário deixa de ser opcional e vira urgência.
Alternativas seguras para variar o cardápio
A mania de achar que todo legume da terra serve para a mesma coisa costuma pregar peças em quem gosta de cozinhar em casa. Se a vontade é variar o cardápio ou dar um agrado diferente na vasilha, a batata-doce cozida e sem casca cumpre esse papel com folga. Os cães toleram bem a batata-doce quando ela passa pelo cozimento direito, aproveitando as fibras sem perigo de irritação na boca. A abóbora cozida também entra firme nessa turma de opções seguras para agradar o pet sem inventar moda arriscada.
Aproveitando o papo sobre petiscos extras, convém considerar a regra de ouro da nutrição canina. Nenhuma comidinha além da ração de todo dia, seja batata-doce, abóbora ou qualquer outro agrado saudável, deve passar de dez por cento das calorias que o cão consome no dia. Respeitar esse teto protege a barriga do bicho contra sustos e assegura que a dieta continue equilibrada, sem virar uma mistura desordenada capaz de sobrecarregar o estômago dele.
No fim das contas, a cozinha abriga armadilhas silenciosas para quem tem quatro patas curiosas farejando o chão. Ficar atento aos ingredientes que caem e guardar os tubérculos bem longe do alcance poupam o tutor de uma tarde inteira de correria até a clínica.

