Cachorro pode comer bacalhau?

Aquela travessa de bacalhau fumegante acaba de sair do forno, a sala inteira ganha um cheiro irresistível e, logo abaixo da mesa, surge o seu cachorro. A cena é clássica. Ele senta, apoia as patas na sua perna e abre aquele olhar de quem nunca comeu na vida, parecendo implorar por um pedacinho da refeição de gala. Bate aquela dúvida imediata sobre dividir ou não o prato principal com o pet.
Não. O cachorro não pode comer o bacalhau do jeito que ele é preparado para os humanos.
A carne do peixe em si não é proibida para os cães, mas o grande problema está no caminho que o alimento percorre até chegar ao seu prato. O bacalhau tradicional passa por um processo intenso de cura e salga para durar meses na prateleira do mercado. Para o organismo canino, essa quantidade concentrada de sódio é um fardo pesado. Os cães têm uma tolerância ao sal muito menor do que a nossa. Enquanto um petisco salgado parece inofensivo para nós, no corpo do animal ele provoca um desequilíbrio rápido nos líquidos do corpo, castigando os rins e sobrecarregando o coração.
O perigo duplo dos temperos e das panelas
A situação fica ainda mais complicada quando olhamos para a receita em si. Ninguém come bacalhau puro. O prato costuma vir acompanhado de banhos generosos de azeite e, o pior de tudo, alho e cebola aos montes.
Esses temperos contêm substâncias que destroem os glóbulos vermelhos do sangue dos cães. O estrago acontece tanto se o alho está cru quanto se estiver frito, cozido ou em pó. A consequência direta é a anemia hemolítica, uma condição grave onde o sangue perde a capacidade de transportar oxigênio de maneira adequada. Além disso, os compostos sulfóxidos presentes nesses ingredientes reduzem enzimas protetoras nas hemácias, o que acelera o colapso celular.
Além disso, toda aquela gordura usada para regar o peixe, as batatas e os legumes pode desencadear uma pancreatite. Essa inflamação aguda no pâncreas costuma mandar o animal direto para o hospital veterinário, com fortes dores abdominais, tremores e vômitos constantes. Cães de pequeno porte e filhotes sentem o impacto com muito mais rapidez, já que a massa corporal reduzida faz com que pequenas quantidades de temperos ou sódio alcancem níveis tóxicos em pouco tempo.
E se eu tirar todo o sal e os temperos?
Até dá para incluir peixe no cardápio do seu companheiro, mas a preparação exige um cuidado cirúrgico que pouca gente tem paciência para executar. Se a ideia é oferecer um agrado diferente, o ingrediente precisaria ser encontrado em versão totalmente fresca, ou então passar por um processo exaustivo de remoção do sódio que dificilmente fica perfeito na cozinha de casa.
A regra para tornar o alimento seguro é cozinhá-lo apenas em água fervente, sem nenhuma gota de azeite, sem pitada de sal, sem cebola e sem qualquer vestígio de alho. Esse banho de água quente é obrigatório para eliminar possíveis micro-organismos indesejados e neutralizar a tiaminase, uma enzima perigosa encontrada em pescados crus que destrói a vitamina B1 no organismo do animal. Além disso, existe um perigo mecânico que costuma passar despercebido na correria do dia a dia: o risco das espinhas.
As espinhas de peixe agem como verdadeiras agulhas pontiagudas ao longo do sistema digestivo dos cães. Como a maioria deles tem o hábito de devorar a comida quase sem mastigar, uma estrutura rígida e fina pode facilmente perfurar a parede do esôfago, o revestimento do estômago ou o tecido do intestino, transformando um momento de lazer em uma cirurgia de emergência. Os petiscos naturais precisam representar uma fatia mínima da contagem de calorias diárias, mantendo a ração ou o cardápio balanceado prescrito por um veterinário como a verdadeira base da nutrição.
O que fazer se ele comer um pedaço escondido?
Caso o seu cão tenha aproveitado um momento de distração para dar o bote e roubar um pedaço daquela travessa cheia de temperos, a prioridade absoluta é respirar fundo e monitorar o comportamento de perto. Jamais brinque de médico em casa achando que vai resolver o problema sozinho.
Aquele conselho antigo de dar leite para criar uma capa protetora no estômago ou despejar azeite para lubrificar a saída não passa de um mito perigoso, pois o leite só vai garantir uma diarreia daquelas e o azeite pode acabar facilitando a absorção de substâncias tóxicas. Também não tente forçar o vômito por conta própria sem o aval direto de um profissional qualificado. Animais mais velhos ou que já lidam com problemas nos rins e no coração não têm margem para erros e precisam de atendimento rápido.
Se a receita continha uma carga pesada de sal, cebola, alho ou espinhas, a atitude mais sensata é colocar o pet no transporte e levá-lo direto para a clínica veterinária. Sintomas como fraqueza que se espalha rápido, gengivas descoradas, respiração ofegante, sede fora do normal ou prostração exigem intervenção médica imediata.
No fim das contas, aquela carinha de coitado ao lado da mesa é apenas vontade de comer o que você está saboreando, e não uma carência real de nutrientes. Deixe o bacalhau caprichado para a turma de humanos e ofereça ao seu fiel escudeiro um petisco apropriado e livre de riscos, garantindo que o único resultado do almoço seja a paz de espírito de ver o animal bem e inteiro ao seu lado.
