Cachorro com paralisia nas patas: o que pode ser?

A cena é daquelas que gelam qualquer espinha. Você acorda, chama o cachorro para o café da manhã e ele tenta se levantar para a festa de costume, mas as patas traseiras simplesmente não respondem. Elas escorregam no piso, dobram de um jeito estranho ou ficam completamente esticadas, enquanto ele olha para você com aquela carinha de quem não entende o que aconteceu.
O que passa pela sua cabeça nesse momento? A perda de movimento ou de força nas patas dos cães é um sinal clínico de alta urgência que exige avaliação veterinária imediata, pois o tempo de resposta costuma definir a recuperação do animal.
O problema é que o tutor costuma olhar para o animal no chão e pensar automaticamente em um problema grave na coluna. Só que a lista de suspeitas vai muito além disso. A paralisia pode ser o resultado de infecções graves, reações fulminantes a medicamentos comuns, intoxicações por alimentos ou até de uma dor ortopédica tão intensa que o cão prefere travar as pernas a sentir o peso do próprio corpo.
O porteiro que faltou ao trabalho: entenda a intoxicação por remédios
Uma das armadilhas mais perigosas envolve a farmácia caseira e a genética. Pense na barreira que protege o cérebro do cachorro como um condomínio fechado com um porteiro muito rigoroso. Esse porteiro, que na biologia chamamos de Glicoproteína-P, tem a função de barrar e expulsar substâncias tóxicas para que elas não cheguem ao sistema nervoso central.
Em cães que possuem uma alteração genética conhecida como mutação no gene MDR1, esse porteiro simplesmente não aparece para trabalhar. Raças como Collie, Pastor de Shetland, Pastor Australiano e até cães sem raça definida que carregam essa ancestralidade ficam totalmente desprotegidas contra certos compostos químicos.
Quando esses animais recebem doses convencionais de certos antiparasitários, como a ivermectina, ou até remédios comuns para diarreia humana, a substância entra direto no cérebro sem nenhum filtro. O resultado é assustador: o cão desenvolve fraqueza profunda, tremores, salivação intensa e pode perder totalmente o movimento das patas, entrando em um quadro de neurotoxicidade que pode ser fatal se não houver socorro rápido.
Por isso, jamais dê remédios humanos ou sobras de tratamentos antigos por conta própria quando o animal parecer fraco. O que era para ser um cuidado caseiro pode desligar o sistema motor do seu companheiro em poucas horas.
Vírus e toxinas que atacam o sistema nervoso
Outra frente que exige rapidez no diagnóstico envolve infecções sistêmicas e toxinas do dia a dia. A cinomose, por exemplo, é uma velha conhecida que ataca ferozmente o sistema nervoso em suas fases mais avançadas. Ela não avisa que chegou com delicadeza, podendo evoluir para perda de coordenação, fraqueza nos membros traseiros, paralisia completa e até convulsões. Se o histórico de vacinação do filhote ou do adulto estiver desatualizado, o risco se multiplica de forma alarmante.
Curiosamente, até a despensa de casa guarda armadilhas. A ingestão de nozes de macadâmia, por exemplo, causa uma reação rápida no organismo canino. Em poucas horas, o cão pode apresentar fraqueza intensa nas patas traseiras e uma incapacidade repentina de se manter em pé, acompanhada de tremores musculares. A parte menos assustadora nesses casos é que, com suporte veterinário rápido, o prognóstico costuma ser favorável e o movimento retorna conforme a toxina deixa o corpo.
O corpo travado pela dor: quando não é paralisia de nervos
Existe uma confusão muito comum entre o cão que está neurologicamente paralisado e o cão que está sofrendo de uma dor ortopédica insuportável.
Pense na displasia coxofemoral, uma má-formação na articulação do quadril comum em cães de grande porte, ou na luxação de patela, que faz o joelho de raças pequenas sair do lugar. Quando essas condições chegam a um estágio severo, o atrito e a inflamação geram uma dor lancinante. O animal não perdeu a capacidade de enviar impulsos nervosos para as patas, mas o esforço de apoiar o peso do corpo dói tanto que ele prefere ficar imóvel. Ele parece paralítico, mas na verdade está se protegendo de uma dor aguda.
No caso específico de raças atléticas de pastoreio, como o Border Collie, existe ainda o chamado colapso induzido pelo exercício. Após alguns minutos de corrida intensa ou estresse, o cão perde o foco, começa a arrastar as patas e fica com a marcha totalmente desengonçada. O susto é imenso, mas o quadro costuma passar com descanso em um ambiente fresco e arejado, bem longe de qualquer esforço adicional.
O que fazer se o seu cachorro perder o movimento agora
Se você se deparar com essa situação em casa, mantenha a calma para não piorar o cenário com desespero.
Primeiro, evite ao máximo forçar o animal a caminhar, levantar ou esticar a coluna. Coloque-o em uma superfície firme, plana e que não seja escorregadia, como um tapete grosso ou um colchonete no chão. Se precisar transportá-lo até o carro, use uma base rígida ou uma manta firme para manter o corpo dele totalmente alinhado, sem torcer o pescoço ou as costas.
Anote tudo o que puder para contar ao veterinário: há quanto tempo isso começou, se foi de repente ou aos poucos, se ele teve acesso a lixo, plantas ou medicamentos, e qual foi a última vez que tomou vacina ou remédio de pulga.
A paralisia nas patas nunca deve ser tratada como algo que vai passar sozinho com o tempo. Apenas uma avaliação profissional em um centro veterinário, com exames clínicos, neurológicos e de imagem, poderá dizer se estamos diante de uma infecção viral, de uma intoxicação genética, de um problema articular ou de uma compressão na coluna que exige intervenção imediata.



