Cachorro com gengiva branca: quando é emergência?

Você está no sofá acariciando o seu cachorro, levanta o lábio dele para brincar ou conferir os dentes e percebe que a boca perdeu totalmente aquela cor rosada de sempre. A gengiva está pálida, quase branca. Sim, gengiva branca em cachorro é uma emergência veterinária imediata e exige ida urgente a um pronto-socorro.
Pense nisso como a luz da injeção eletrônica acendendo no painel do carro. Se a luz vermelha acende, você não continua dirigindo por mais duzentos quilômetros para ver se o motor aguenta. A gengiva esbranquiçada avisa que o oxigênio e o sangue não estão circulando como deveriam pelo corpo do animal, seja por uma anemia brava, por uma hemorragia interna ou por um colapso circulatório. Não é o tipo de situação para monitorar em casa até o dia seguinte.
Mas como saber se o que você está vendo é realmente um problema? Em condições normais, a mucosa da boca de um cão saudável tem um tom rosa vivo. Existe um teste prático bem simples chamado Tempo de Preenchimento Capilar, que funciona como a famosa brincadeira de apertar a própria unha.
Você pressiona levemente a gengiva do cachorro com a ponta do dedo indicador por dois segundos e solta. O local vai ficar branquinho no ponto da pressão e deve voltar a ficar rosado quase no mesmo instante. Se o sangue demorar mais do que dois segundos para recolorir a área, a circulação periférica está comprometida. Se a gengiva já estiver branca antes mesmo de você tocar, o sinal de alerta máximo está dado.
O que pode causar essa palidez toda?
A ausência de cor na boca do pet costuma apontar para duas grandes frentes problemáticas. A primeira é a queda drástica na quantidade de glóbulos vermelhos circulantes. É o que acontece quando o cachorro ingere alimentos altamente tóxicos para o organismo dele, como alho e cebola.
Muita gente acha que um pedacinho da comida do almoço não faz mal, mas os compostos desses temperos provocam a destruição das hemácias, gerando uma anemia hemolítica aguda. Raças como Akita, Shiba Inu e Husky Siberiano possuem uma sensibilidade genética ainda maior a esse tipo de dano oxidativo.
A segunda frente envolve falhas graves na circulação, como nos quadros de choque. Ingestão acidental de xilitol, que é aquele adoçante presente em produtos dietéticos, venenos ou até mesmo reações a determinados medicamentos em cães sensíveis fazem com que o corpo desvie o sangue das extremidades para tentar salvar apenas os órgãos centrais. O resultado visível é a gengiva fria e totalmente pálida.
Os cachorros de menor porte, a exemplo de Pinschers, Poodles, Yorkshires e Shih Tzus, exigem um olhar ainda mais atento da nossa parte. Afinal, essas raças carregam uma propensão chata para o colapso de traqueia, aquele problema em que os anéis que sustentam a via aérea vão perdendo a firmeza. Quando uma crise forte de tosse e falta de ar aperta, o bicho pode entrar em hipóxia, que é basicamente o oxigênio faltando nos tecidos. Nesses momentos críticos, a boca costuma mudar de cor num piscar de olhos, indo da palidez para um tom azulado ou arroxeado que costuma vir logo antes do desmaio.
A história muda de figura conforme outros sinais dão as caras no consultório. Se aquela gengiva sem cor começar a ficar amarelada nas horas seguintes, o veterinário vai precisar investigar um estrago pesado nas células do sangue ou problemas sérios no fígado. Por outro lado, doenças transmitidas por parasitas, como a leishmaniose, costumam desenhar um quadro mais lento, onde a palidez chega de mansinho, acompanhada de apatia e perda de peso ao longo das semanas. Cães com a boca escura ou cheia de pintinhas pretas exigem um pouco mais de malícia do tutor. Nesses casos em que a pigmentação natural esconde o rosa da mucosa, o jeito é conferir a parte interna da pálpebra inferior para tentar enxergar a cor real.
O que nunca fazer enquanto corre para o veterinário
Na hora do desespero, é bem comum tentar qualquer truque caseiro que apareça na tela do celular, mas algumas dessas ideias só conseguem piorar o estrago. Por favor, evite dar leite ou azeite, e nunca tente enfiar o dedo na garganta do bicho para fazê-lo vomitar por conta própria.
Para começar, o azeite pode acabar acelerando a absorção de certos venenos pelo organismo. Além disso, o bom e velho copo de leite não neutraliza toxina nenhuma, e induzir o vômito em um cão que já está fraquinho ou grogue é pedir para o conteúdo ir parar no pulmão, gerando uma pneumonia por aspiração daquelas bem perigosas. Medicar o animal por conta própria nesse cenário é outra roleta-russa que pode custar caro, já que muitos remédios comuns causam reações desastrosas.
Outra ilusão que precisa cair por terra é a ideia de que cão sem raça definida tem um superpoder que o blinda contra tudo. O vira-lata que passa o dia deitado no quintal está exatamente tão exposto a intoxicações, anemias e quedas bruscas de pressão quanto qualquer campeão de pedigree.
Se você levantar o bico do seu cachorro e der de cara com uma gengiva branca, a regra é clara e não tem mistério. Mantenha o animal sossegado e quentinho, ajeite-o deitado de maneira confortável para a viagem e evite ficar apertando o pescoço dele, principalmente se ele estiver com falta de ar ou tossindo. Tente lembrar há quanto tempo ele está assim, se pode ter beliscado algum lixo suspeito ou remédio esquecido, e coloque o pé na estrada rumo ao pronto-socorro.
A rapidez com que o veterinário assume o caso é o que realmente separa um susto contornado de uma tragédia, já que o corpo do animal está gastando o que não tem para manter o oxigênio circulando.



