Cachorro com convulsão: o que pode ser?

Imagine a cena: você chega da rua depois de um dia longo, abre a porta da sala e encontra o seu cachorro esticado no chão, com o corpo rígido, as patinhas tremendo e babando mais do que o normal. O coração vai direto para a boca. Por que raios isso está acontecendo de repente?
Uma convulsão em cães é uma emergência neurológica aguda que acontece por causa de descargas elétricas descontroladas e anômalas no cérebro. Na maioria das vezes, o gatilho vem de fora para dentro, como uma intoxicação por alimentos inadequados, o uso de medicamentos proibidos para certas genéticas, infecções como a cinomose, ou até distúrbios genéticos. O susto é gigante, mas saber o que pode estar por trás disso ajuda a agir rápido e com a cabeça no lugar.
O perigo escondido na despensa e na fruteira
Existe uma lista surpreendente de coisas comuns na nossa rotina que viram verdadeiros venenos para o sistema nervoso dos cães. O chocolate, por exemplo, carrega substâncias chamadas metilxantinas, como a teobromina. Quanto mais escuro o chocolate, pior. O organismo do cachorro simplesmente não consegue processar isso direito, o que gera uma hiperestimulação cerebral que começa com tremores e pode terminar em convulsões graves.
Outro vilão silencioso é o xilitol, um adoçante artificial encontrado em chicletes, balas e produtos diet. Quando o cão consome isso, o pâncreas dele sofre um colapso e libera uma quantidade absurda de insulina de uma vez só. O açúcar do sangue despenca, o cérebro fica sem combustível, e a convulsão acontece em poucas horas. Até a inocente carambola tem substâncias que afetam o sistema nervoso dos animais e podem provocar desorientação e crises.
A genética invisível e o mito do vira-lata indestrutível
Muita gente acredita na lenda urbana de que o cachorro sem raça definida tem saúde de ferro e aguenta qualquer coisa. Infelizmente a biologia não funciona à base de superstição. Cães vira-latas que carregam alguma ancestralidade de raças de pastoreio, como o Border Collie ou o Pastor Australiano, podem ter uma alteração genética chamada mutação no gene MDR1.
Para entender como isso afeta o cérebro, pense na barreira hematoencefálica como um porteiro muito rigoroso cuja função é barrar substâncias indesejadas na porta do cérebro. Nos cães com essa mutação, esse porteiro simplesmente não funciona direito. Se o animal toma medicamentos comuns, como certos remédios para sarna ou diarreia, a substância passa direto para o cérebro sem nenhum filtro. O resultado é uma intoxicação violenta que causa convulsões e pode ser fatal. É por isso que automedicar o cachorro, seja ele raça pura ou SRD, é uma loteria perigosa.
Será que foi mesmo uma convulsão?
Nem todo desmaio ou queda repentina significa que o cérebro do cachorro sofreu um curto-circuito elétrico. Se você tem um cachorro pequeno ou idoso, talvez já tenha visto o animal tossir de um jeito esquisito, meio parecido com o barulho de um ganso, logo depois de ficar muito animado.
Nos quadros de colapso de traqueia, a via aérea fecha por um instante, o oxigênio falta, e o animal desmaia. Essa perda de consciência por falta de ar se chama síncope. A gengiva e a língua costumam ficar arroxeadas, mas o cachorro não apresenta aquelas contrações musculares longas típicas de uma convulsão verdadeira. O problema é respiratório, não neurológico, embora o susto seja exatamente o mesmo.
O que fazer e o que nunca fazer durante uma crise
Manter a calma é a parte mais difícil da situação, mas é a única forma de ajudar o seu companheiro. Primeiro, afaste qualquer objeto perigoso que esteja por perto, como móveis pontiagudos ou escadas, para que ele não se machuque enquanto se debate. Diminua as luzes da casa e faça silêncio.
De jeito nenhum tente segurar a língua do animal. Essa história de que ele pode engolir a própria língua não passa de um mito, e colocar a mão na boca dele é o caminho mais rápido para ganhar uma mordida dolorosa e machucar a garganta dele. Outro erro clássico é tentar enfiar leite, azeite ou remédio caseiro na marra, ou inventar de provocar o vômito em casa.
O leite não corta veneno nenhum e ainda pode presentear o tutor com uma diarreia brava, enquanto o azeite pode acelerar a absorção de toxinas. Na pior das hipóteses, o líquido vai parar no pulmão e causa uma pneumonia gravíssima. Cronometre o tempo da crise com a ajuda do relógio do celular. Se o episódio durar mais do que dois ou três minutos, ou se acontecer mais de uma vez no mesmo dia, pegue o animal com cuidado e corra para um hospital veterinário.
Qualquer episódio de convulsão exige investigação profissional com um veterinário. Descobrir a causa exata, seja uma intoxicação silenciosa, uma doença infecciosa ou uma questão genética, é o único jeito de proteger o seu cachorro de verdade e evitar que o susto volte a acontecer.



